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Impaciente, torcida do Chelsea aguarda Mourinho

por The Observer — publicado 21/05/2013 11h13, última modificação 21/05/2013 11h15
Depois de um período turbulento em Madri, o carismático treinador português poderá usar sua magia no time londrino
Javier Soriano / AFP
José Mourinho

Mourinho concede entrevista coletiva no Santiago Bernabeu, no início de abril. Na segunda-feira 20, o Real Madrid confirmou a saída do treinador

Por Kevin Sampson

A menos que haja mudanças imprevistas na história, José Mário dos Santos Mourinho Félix voltará em breve para o público britânico que o adora, em uma segunda temporada como treinador do Chelsea. Enquanto o retorno do "Special One" (© Mourinho J) será principalmente um motivo para comemorações no sudoeste de Londres, também há um público enorme e pronto em todo o país, lambendo os beiços em antecipação a novas diversões oferecidas por esse amado vilão, que atualmente serve seus últimos dias no Real Madrid.

E ele realmente precisa se afastar de Madri. Na sexta-feira à noite, Mourinho descreveu esta temporada como a "pior" de sua carreira, depois de uma derrota por 2 a 1 na Copa do Rei para seu adversário da capital espanhola, o Atlético. Isto ocorreu no final de uma temporada em que ele esteve brigando, ao que parece, com quase toda a equipe do Real, e manteve o goleiro espanhol Iker Casillas – o principal adversário – no banco durante a maior parte do tempo. Ele sempre gostou de um drama.

Para a maioria das pessoas, o primeiro “Momento Mourinho” aconteceu em março de 2004, quando seu time, o Porto, marcou um gol no último minuto em Old Trafford, eliminando o Manchester United da Liga dos Campeões. Dramático como foi o gol vencedor de Costinha, que empalideceu ao lado das comemorações desenfreadas de seu treinador. Mourinho correu até a linha lateral e escorregou de joelhos – sob a expressão de desdém de Alex Ferguson – e golpeou com o punho no ar para a multidão chocada. Esta seria a primeira comemoração em uma década de encontros animados entre os dois times.

José Mourinho nasceu há 50 anos na cidade portuária de Setúbal, a cerca de 45 km ao sul de Lisboa. O futebol estava em seu sangue. Seu pai, Félix, foi premiado por Portugal e Mourinho jogou até o nível médio no Belenenses e no Rio Ave. Mas era o papel de técnico que atraía sua imaginação. Ele foi para a Escola Politécnica de Educação Física em Lisboa, onde estudou ciência dos esportes, e, depois de se formar, começou a seguir a conhecida rota de treinador de futebol, treinando o time juvenil do Vitória, em Setúbal.

A chegada em 1992 de Bobby Robson como treinador do Sporting de Lisboa foi, por consentimento mútuo, o que mudou o jogo para Mourinho. O português começou como seu tradutor, e rapidamente conquistou o respeito de Robson pelos detalhes intensos de suas notas preparatórias. Quando Robson partiu para o Porto, e depois Barcelona, levou consigo seu leal analista de jogo, jornada que terminou em promoção, quando Mourinho assumiu como treinador do Porto em 2002. Ao chegar, ele escreveu uma carta de boas vindas – uma declaração de missão – para os membros de sua equipe. Dizia: "A partir daqui, cada treino, cada jogo, cada minuto de sua vida social deve se concentrar no objetivo de ser campeão..."

Em sua primeira temporada, o Porto ganhou o campeonato português e a Copa da Uefa, conquistando o campeonato novamente no ano seguinte – e então veio aquela série memorável na Liga dos Campeões em 2004. Depois de despachar o Manchester United, o Porto seguiu e venceu a competição, conquista que colocou Mourinho sob a atenção de Roman Abramovich, o patrão do Chelsea.

Se achávamos que sua comemoração em Old Trafford foi divertida, não foi nada comparada com sua primeira entrevista na direção do Chelsea. Ele disse que seu antecessor, o apreciado Claudio Ranieri, havia merecido a demissão, por "falhar". Disse que também esperaria a demissão se falhasse, mas para Mourinho o fracasso era inconcebível. Por quê? Porque ele era especial.

"Por favor, não me chamem de arrogante. Eu sou um campeão europeu e acho que sou um especial."

Mourinho havia falado. Nascia "O Especial".

Ele era especial, ou pelo menos diferente. Em vez de uma mansão construída especialmente em Oxshott, levou sua família para morar em uma casa elegante em Eaton Terrace, no sudoeste de Londres. Mourinho abraçou a capital inglesa imediata e totalmente, desafiando os estereótipos de Ron Manager ao jantar no San Lorenzo e levar sua jovem família ao zoológico, ao teatro, às galerias.

Também não prejudicou Mourinho o fato de ele ser facilmente visível. Um clássico ibérico bonitão, ele aparecia tão bem em roupas de treinamento quanto em seus ternos muito bem cortados. O chefe da ITV, Kevin Lygo, cujos filhos frequentavam a mesma escola que os de Mourinho, lembra-se do frisson quando o técnico chegava para buscar os filhos – e, no caso, falamos apenas na percepção dos homens. Com seus olhos pensativos, com suaves olheiras, O Especial tinha aguda consciência de seu magnetismo, um ativo a que deu excelente uso comercial ao longo dos anos. Ele chegou a licenciar sua barba nascente como marca-registrada para os barbeadores Braun.

Mas nunca houve e nem haveria qualquer perspectiva de entrar nas colunas de fofocas. Uma parte enorme da marca Mourinho, e seu valor, é a sua clara e presente dedicação à família.

Mourinho também é extremamente hábil para manipular a mídia e enfurecer a oposição – jogadores, torcedores e treinadores, igualmente. Com uma boa frase no momento certo, ele causava um rebuliço. Chegando ao Chelsea no verão após o Arsenal passar toda uma temporada invencível, Mourinho disse: "Vejam como os seus times jogam contra o Arsenal. Eles não acreditam que podem vencer".

A ênfase para "os seus" e "eles" foi genial, indicando que ele, como um estrangeiro, iria mostrar como a Primeira Liga deveria agir. Funcionou muito bem. O geralmente fleumático Arsène Wenger se deixou levar a uma disputa verbal, comentando cada escorregão do Chelsea. Essa aparente obsessão levou Mourinho a rotulá-lo de "voyeur". E acrescentou: "Ele gosta de observar os outros. Ele fala, fala, fala sobre o Chelsea".

Outro grande inimigo foi Rafa Benítez. Até hoje, Mourinho se refere ao momento definitivo da semifinal da Liga dos Campeões de 2005, quando o Liverpool ganhou com "o gol fantasma", que pode ou não ter cruzado a linha. Existe uma escola de pensamento de que essa personagem provocadora e antagonista é apenas isso – uma máscara, uma cortina de fumaça cultivada com cuidado para remover a pressão de seus jogadores, de modo que eles possam se concentrar plenamente em sua tarefa.

Ao fazê-lo, ele cria uma mentalidade de sítio que se baseia na lealdade à coroa – sendo essa coroa usada, é claro, pelo Especial. Existe um contra-argumento de que Mourinho adora estar sob os refletores e é viciado em elogios. Ele descreve todos os seus times e suas conquistas como "eu", "meus" e "minhas".

Sem dúvida, é um operador maquiavélico: escolhe seus adversários com a mesma habilidade que escolhe seus times. Depois de enfurecer Alex Ferguson em 2004, Mourinho rapidamente percebeu que tinha sido uma vitória pífia. Começou a cortejar Ferguson, besuntando-o com elogios e cultivando sua autoimagem como um homem de gosto superior, apreciador de bons vinhos, coisa que o português também conhecia um pouco (ele é presidente honorário de um grupo dedicado a proibir a tampa de rosca na garrafa de vinho).

Havia um método em sua atuação, é claro. Depois de ser demitido por Abramovich em 2007, Mourinho falava com frequência sobre seu desejo de conseguir outro "alto cargo" na Inglaterra. E por tudo isso continuava chamando o Chelsea de "meus meninos" (geralmente depois de uma vitória), e elogiava com gosto o Manchester United, sua "lenda", especialmente Ferguson. Chegou a tratar a partida da Liga dos Campeões deste ano entre os dois clubes como um ensaio aberto, enaltecendo o venerável adversário.

O Madrid ganhou e Mourinho estava bem consciente de que o próprio Ferguson teria uma enorme influência na escolha de seu sucessor.

Há algo irresistível na ideia de que o esperto Ferguson estivesse ligado em Mourinho o tempo todo. Ele também estava bem consciente de que o fiel pai e marido era um verdadeiro adúltero quando se tratava de times de futebol. Que o mesmo homem de família dedicado que levantou 25 mil libras para o socorro às vítimas do tsunami e doou sua Bola de Ouro da Uefa para a Fundação Bobby Robson em 2011 é o mesmo que enfiou um dedo no olho do treinador do Barcelona Tito Vilanova e depois correu; que se gabou de seu salário de 15 milhões de euros para a mídia italiana; que é regularmente censurado e mandado para as arquibancadas por causa de suas explosões; e que correu pela linha lateral de Old Trafford de punho erguido para a multidão.

Mourinho é tudo isso e mais. Ele é um narcisista. Um péssimo perdedor. É patologicamente fiel a "seus meninos". É um vencedor nato. Acima de tudo, no entanto, o comentário que sempre se ouve sobre Mourinho é de que ele é "um sopro de ar fresco". Ele garantia uma ótima circulação de jornais, dava ótimas manchetes, arrepiava algumas penas e então ia para casa, para sua mulher e os filhos. Seja bem-vindo de volta. Estávamos esperando.

O dossiê Mourinho

Nascido em 26 de janeiro de 1963 em Setúbal, Portugal, filho de um jogador de futebol, um português internacional. Casou-se com Matilde "Tami" Faria em 1989. Dois filhos, Matilde e José Júnior.

Melhor momento. Um dos únicos quatro treinadores que ganharam o campeonato em quatro países (Porto, Chelsea, Internazionale, Real Madrid). Com base em que o primeiro é sempre o melhor, ele parecia muito entusiasmado na noite em que o Porto derrotou o Manchester United a caminho da vitória na Liga dos Campeões em 2004.

Pior momento. O "gol fantasma" contra o Liverpool na Liga dos Campeões? Ou ser demitido pelo Chelsea em setembro de 2007, depois de um terrível empate por 1 a 1 com o Rosenborg em um estádio de Stamford Bridge semivazio. A única vez em que ele foi demitido – até agora.

O que ele diz. "Às vezes você vê pessoas bonitas sem cérebro. Às vezes você tem pessoas feias que são inteligentes – como os cientistas. Eu sou os dois."

"Detesto falar sobre indivíduos. Os jogadores não ganham troféus, os times ganham troféus, equipes ganham troféus."

O que outros dizem. "José fala muito", repete o treinador do Chelsea, Rafa Benítez.