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História reescrita

por Thomaz Wood Jr. publicado 17/03/2013 16h12, última modificação 06/06/2015 18h24
O 50º aniversário da crise dos mísseis de Cuba foi marcado por uma revisão da história oficial. O caso traz lições sobre a natureza do poder nas pequenas e grandes esferas

A crise teve início em 16 de outubro de 1962. O presidente norte-americano, John F. Kennedy, foi informado da instalação de mísseis nucleares soviéticos na ilha do jovem comandante Fidel Castro. O golpe representava uma ameaça séria aos Estados Unidos e podia provocar uma guerra atômica.

Os norte-americanos denunciaram e ameaçaram. Kennedy, líder da democracia ocidental contra a barbárie comunista, manteve-se firme e forte. Em 28 de outubro, a crise chegou ao fim, com a concordância soviética em remover seus mísseis e levá-los de volta para casa, atrás da cortina de ferro. O mundo pôde respirar tranquilo novamente.

Esta é a história oficial, como contada pelos norte-americanos e presente na memória coletiva. Entretanto, Benjamin Schwarz, editor literário da revista The Atlantic, sugere na primeira edição de 2013 da revista se tratar de mera ficção. Qualquer semelhança com fatos reais pode ser apenas coincidência, pois a narrativa foi produto de manipulação. Vamos aos fatos. Antes, porém, vejamos as fontes.

Desde 1997, revela Schwarz, pesquisadores têm acesso às gravações das reuniões realizadas por Kennedy durante a crise com seus principais assessores. Entre esses se encontra Sheldon M. Stern, historiador da Biblioteca John F. Kennedy por quase um quarto de século. Stern analisou vasta documentação e concluiu que Kennedy e seu grupo tiveram parte considerável da responsabilidade pela deflagração da crise. Eles iludiram a opinião pública sobre o balanço nuclear entre as superpotências e esconderam suas ações para derrubar o governo cubano.

Na verdade, durante a corrida nuclear, os norte-americanos estiveram sempre à frente. O poderio soviético era uma fração do estadunidense. Insensível à superioridade conquistada, Kennedy comandou a maior expansão militar ocorrida em tempos de paz. Este esforço incluiu a instalação de mísseis em regiões próximas à União Soviética: uma provocação.

Tudo levava a crer que Washington se preparava para dar o primeiro golpe em um ataque nuclear. Sob essa ótica, endossada por historiadores, o envio de mísseis a Cuba pode ser visto como uma resposta para estabelecer equilíbrio e dissuadir o inimigo, não um ato de agressão.

Além disso, a instalação dos mísseis não alterava de forma substantiva o equilíbrio nuclear: os soviéticos já possuíam mísseis instalados em outras bases e em submarinos. Esse arsenal poderia atingir os Estados Unidos em tão pouco tempo quanto os mísseis instalados em Cuba. Kennedy e seus assessores, atestam os analistas, conheciam a realidade. No entanto, com apoio da mídia e da tevê, mantiveram a plateia nacional aterrorizada.

De seu lado, Nikita Kruchev, o primeiro-ministro soviético, procurava proteger seus aliados tropicais, vítimas de sabotagem, tentativas de assassinato e ataques patrocinados pelos norte-americanos. A instalação dos mísseis, do ponto de vista das relações internacionais, foi um ato legítimo. Por outro lado, o bloqueio naval da Ilha, ordenado por Kennedy, foi ilegal.

Ao exigir publicamente um recuo soviético e impor o bloqueio a Cuba, o governo norte-americano precipitou uma das crises mais perigosas da história. A solução deu-se por meio de uma discreta negociação, que resultou na remoção dos mísseis soviéticos de Cuba e dos mísseis norte-americanos da Turquia.

O acordo foi mantido secreto, para proteger a imagem de Kennedy e sustentar a reputação norte-americana. Em suma, a crise deflagrada por Kennedy só foi resolvida pela sensata proposta de seu antípoda Kruchev. O norte-americano, entretanto, foi responsável o suficiente para refrear seus assessores mais belicosos, reverter o quadro e evitar o fim do mundo.

A história, reza a máxima, é escrita pelos vencedores. Aos perdedores sobram as notas de rodapé. Aos historiadores resta a tarefa de pôr os pingos nos is, anos mais tarde. O saudável zelo do revisionismo histórico costuma focar grandes momentos e acontecimentos. O mundo corporativo não costuma merecer tal atenção, exceto quando provoca calamidades ou catástrofes. Entretanto, também nele está presente a maquiavélica arte de contar lorotas e enganar incautos.

Abra o prezado leitor as páginas de uma revista de negócios e boa chance haverá de se deparar com ficção de qualidade duvidosa, manifestações grosseiras de culto a celebridade e meias-verdades, esculpidas por relações públicas. A criação de heróis, mitos e narrativas épicas está presente em fusões e aquisições, na introdução de novos produtos e nos mais prosaicos eventos do dia a dia corporativo. Como se sabe, nas grandes e pequenas esferas do poder, não há business sem show business.

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