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Entrevista

História de amor

por Leneide Duarte-Plon — publicado 03/08/2011 09h50, última modificação 04/08/2011 13h07
Em Dicitionnaire Amoureux du Brésil, Gilles Lapouge, escritor e jornalista francês, interpreta de forma realista, mas não fria, o país que o “inventou”
História de Amor

Em Dicitionnaire Amoureux du Brésil, o escritor e jornalista francês interpreta de forma realista, mas não fria, o país que o "inventou". Foto: Cléber Bonato/AE

O Brasil de Gilles Lapouge é um país de contrastes. Cruel e cordial. Que valoriza a pele branca, mas quer parecer o paraíso da miscigenação, um país- sem racismo. O jornalista e escritor de 85 anos acaba de lançar, em Paris, com grande sucesso de crítica, o Dictionnaire Amoureux du Brésil (editora Plon, 659 págs.). Bernard Pivot, um dos mais respeitados críticos franceses, não poupou elogios: “Entre os quase 50 dicionários amorosos, esse é o mais exótico, o mais romanesco, o mais encantador, o mais cativante, em suma, o melhor”.

Os 70 verbetes são variados e surpreendentes e vão de abelhas, Aleijadinho, passando por Jorge Amado, Claude Lévi-Strauss, pau-brasil, saudade, chuva de Belém, Proust nas favelas, peles, pecado da carne, Palmares, até chegar a Verger, Pierre. Obviamente, há uma entrada “São Paulo” e outra “Capitais: Salvador, Rio e Brasília”.

Lapouge observa sem parti pris um país fascinante. O distanciamento crítico do autor permite assertivas duras e sem condescendência. Mas não significa frieza, indiferença. Na entrevista a CartaCapital, Lapouge fez uma declaração de amor ao Brasil, que conhece há 60 anos: “É um país que adoro. Claro que há coisas que detesto no Brasil, mas aqui também há, e muito mais. O Brasil me deu tudo, não somente meu métier, não apenas o conhecimento do País, ele me inventou”.

CartaCapital: O senhor descobriu o Brasil há 60 anos. Seu Dictionnaire Amoureux du Brésil é muito crítico, mas, ao mesmo tempo justo, critica diversos aspectos do País e elogia outros. Foi difícil escolher os verbetes e decidir o tom?

Gilles Lapouge: Para os verbetes me guiei pela regra da coleção. Acho que fui o mais fiel, pois o dicionário amoroso não deve ser exaustivo, deve apresentar o que se aprecia ou não, sem regras prefixadas. Não fiz nenhum plano prévio, vinha ao escritório, pensava no Brasil e escrevia.

CC: O distanciamento crítico é difícil, não?

GL: Sou muito crítico quanto ao problema da violência, mas mesmo o mais patriota dos brasileiros não pode negar que o Brasil é um país muito violento, às vezes. Equilibro essa crítica com um verbete sobre a cordialidade. Poderia ter feito um só e dizer “eles são cordiais, mas cruéis”.- Preferi fazer dois artigos que são como duas peças de um díptico: é preciso ler um e outro. O brasileiro é muito cruel por muitas razões (históricas, sociológicas etc.), e formidavelmente acolhedor, terno.

CC: São dois verbetes muito justos, que revelam o fino observador. Em “cordialidade”, o senhor desmonta o mito do “homem cordial” de Sérgio Buarque de Holanda, demonstrando “por que Stefan Zweig não compreendeu nada do Brasil”. O brasileiro não seria um povo esquizofrênico, entre a cordialidade e a crueldade?

GL: Não sei se esquizofrênico, há uma conotação de doente na palavra, acho que não é isso. O que é terrível no Brasil, mas fascinante também, é que ele me parece, às vezes, para além do princípio de contradição, isto é, os brasileiros são capazes de ser ao mesmo tempo cruéis, felizmente não com frequência, e muito gentis. Mas mesmo as pessoas cruéis no Brasil podem ser gentis de certa forma. O que acho bastante fora do comum. Aqui na França temos os marginais, pessoas terríveis, e temos as pessoas gentis. Mas são separadas. No Brasil, existe uma espécie de mistura muito especial, os contrários podem coabitar e neste caso especialmente.

CC: Sobre Lévi-Strauss o senhor diz: “O Brasil foi a chance de Lévi-Strauss, a porta de entrada de seu destino”. Isso é válido para o senhor também, não?

GL: Exatamente. Meu destino foi o Brasil e não somente pelo tempo que vivo com ele, mas pelo que o Brasil me trouxe como inteligência, gentileza. É um país que adoro. Você diz que há um tom crítico no dicionário, mas é porque amo o Brasil. Penso que os brasileiros entendem isso. Claro que há coisas que detesto no Brasil, mas aqui há muito mais. O Brasil me deu tudo, não somente meu métier, não apenas o conhecimento do País, ele me inventou.

CC: Sobre Lévi-Strauss escreve: “Um dia ele me confessou que era polígamo, mas por causa das leis francesas, em vez de juntar todas as mulheres no mesmo momento, ele as desfiava ao longo do tempo, “como as pérolas de um colar”. Você revela um Lévi-Strauss dom-juan, com um colar no lugar da famosa lista?

GL: Ele não tinha nenhum ar de dom-juan- quando o víamos. Deve ter sido interessante quando jovem, mas não era um Dominique Strauss-Kahn na maneira de agir. Era frio, um pouco irônico. Ele interessava-se pelas mulheres, teve quatro, é bastante. Sua primeira mulher era conhecida por ser bastante feminina, muito interessada pelos homens. Pelo menos foi a lembrança que ela deixou nas pessoas que fizeram a expedição de Mato Grosso. Era uma mulher que gostava de despertar interesse. Lévi-Strauss não era muito simpático, mas também não era antipático. Era frio, com uma inteligência um tanto inquietante de tão perfeita. Era mais inteligente que sensível. Tinha um discurso bem organizado. Ouvia uma pergunta, qualquer que fosse, refletia alguns segundos e a resposta caía como uma guilhotina, implacável, perfeita.

CC: O senhor escreve: “Amei muito tempo o Brasil e ainda o amo… Ele dizia que era o paraíso, mas era um paraíso estranho, formado por injustiças, miséria e sombras”. Para um francês de esquerda, as desigualdades são a coisa mais chocante no Brasil?

GL: Claro. Elas são talvez mais visíveis, serão mais terríveis que em outros países? Não sei. Na França, por exemplo, as desigualdades são abomináveis. Mas acho que são mais escondidas aqui, porque as pessoas são muito hipócritas, não existe talvez uma exibição tão insolente das fortunas. Aqui, eles estão dentro de castelos, escondidos dentro de florestas e tudo é um pouco assim, meio escondido. No Brasil, eles se exibem, até porque se vive mais no exterior, as pessoas ricas são vaidosas, têm orgulho de mostrar que têm dinheiro. Aqui também, mas um pouco menos.

CC: Mas há no Brasil um abismo muito maior entre ricos e pobres…

GL: Há um abismo muito maior, imagino que por razões históricas. A França e a Europa, em geral, fizeram uma redistribuição de renda que data um século e meio. Tivemos tempo, portanto, aqui e na Alemanha, por exemplo.

CC: Os ricos brasileiros são exibicionistas?

GL: Eles são muito exibicionistas, se mostram. Mas, talvez o clima explique, tudo é mais vivido do lado de fora.

CC: Eles não têm consciência pesada ao exibir a riqueza…

GL: De forma alguma. Mas existe uma coisa extraordinária. Eles não têm consciência pesada, simplesmente obedecem a pulsões. Por isso é que o pobre Stefan Zweig me parece ter sido muito ingênuo, porque viu as pessoas na rua muito gentis. Eles são gentis no Brasil, enquanto aqui são mais rudes. Mesmo numa metrópole como São Paulo, as pessoas param para lhe responder, prestam atenção. Os negros e os brancos vivem juntos, então o pobre Stefan Zweig não entendeu nada, pensou que era a verdade do Brasil, mas era apenas a vitrine. Temos de ser indulgentes com ele, estava idoso, depois se suicidou…

CC: Zweig não teve tempo de conhecer bem o País…

GL: Quando Bernanos foi ao Brasil, durante a guerra, instalou-se no interior de Minas, com camponeses, depois em Barbacena, com o povo, trabalhou, se comunicou. O outro era um judeu muito europeu, muito assimilado e que adorava os Habsbourg. Adorava a Áustria, muito justamente, pois Hitler tinha destruído o império. Mas para onde ele vai? Para Petrópolis, a cidade dos Habsbourg, a cidade de dom Pedro II. Ele não viajou, dom Pedro II é um Habsbourg pela linhagem dos Bragança.

CC: O senhor diz que Zweig não entendeu nada do Brasil. O senhor  escreve: “O Brasil é conhecido por ser um dos únicos lugares do mundo com a receita para que os homens de todas as cores se amem em vez de se odiar. Essa reputação é um blefe. O cândido Stefan Zweig acreditou que o racismo acabava misteriosamente na fronteira do Brasil”. O Brasil construiu o mito de uma “democracia racial” ou foi o olhar míope de pessoas como Zweig que espalhou essa lenda?

GL: O Brasil gosta de se ver assim e como ele tem o segredo de parecer assim, o racismo é menos visível lá. Irrita-me ouvir que os outros países são racistas e o Brasil não.

CC: Não consegue se assumir racista…

GL: Existe uma espécie de jeito brasileiro para não parecer racista mesmo sendo. Isso é ruim. Eles não são piores que os outros. Dizer que os americanos são racistas e os brasileiros não, é inexato. Alguém observou que o racismo mais evidente dos americanos permitiu que uma contrassociedade se desenvolvesse nos Estados Unidos com negros que se tornam presidente da República, chefe do Estado-Maior, como Colin Powell, grandes advogados. No Brasil é mais raro… Os obstáculos não são visíveis, mas no fundo são mais perigosos, perniciosos. Acho que existe um gênio português da mestiçagem. Fiquei impressionado em Moçambique. Era a mesma coisa, antes do fim do salazarismo. Eles se abraçavam. Negros, brancos, mulatos, todos eram amigos, como no Brasil. Mas na realidade, os brancos eram os colonizadores, estavam no topo da pirâmide e os negros não tinham acesso nunca.

CC: De Jorge Amado, de quem foi amigo, o senhor diz que ele era pouco considerado por intelectuais do Rio e de São Paulo e reproduz trecho da crítica entusiasta feita por Albert Camus do livro Bahia de Todos os Santos (Jubiabá). Como ele vivia a glória e a esnobação de certo meio intelectual brasileiro?

GL: Costumava vê-lo na Bahia e em Paris, onde comprou um apartamento no pior bairro, Bercy, o mais frio, o mais americano. Perguntei-lhe o motivo e ele disse que foi de propósito, pois era o contrário da Bahia, onde ele não podia andar sem ser parado nas ruas. Em Paris,  dizia, ninguém o reconhecia e era obrigado a trabalhar. Ele tinha a glória e acho que não se importava com o respeito dos intelectuais brasileiros. Ele dizia: “Tenho horror em falar de literatura, o que me interessa é a vida”.

CC: O senhor viajou muito pelo Brasil, pela Amazônia, Nordeste. Quando se lê o verbete “São Paulo”, nota-se que a prefere ao Rio, “cidade desfigurada e deteriorada”, pois “o empilhamento das misérias nas favelas fez do Rio de Janeiro uma das cidades mais perigosas do mundo”. Pode comentar?

GL: São Paulo é minha cidade. Eu me apropriei de São Paulo. Os franceses não gostam de São Paulo, eu a amo.

CC: O senhor acha que alguém pode se apropriar de São Paulo, ela não escapa sempre, com seu gigantismo?

GL: Memo sem falar na violência, que agravou o caso do Rio, sempre preferi São Paulo, porque é uma cidade de grande imaginação, de trabalho, de paixões fortes, enquanto o Rio para mim é uma cidade unicamente de sensualidade, de prazeres, de preguiça, de boas tiradas. Eles são engraçados… Tenho a impressão de que o Rio é uma cidade que dorme e adormece as pessoas. Eu me sinto adormecer quando estou no Rio. Evidentemente, há Copacabana, as moças, tudo isso é interessante, mas aquelas moças não me interessam...

CC: Copacabana tornou-se vulgar. Mas o Rio tem Leblon, Ipanema…

GL: Não faço um julgamento global. O que me comove no Rio é a decadência. Essa espécie de cidade que está, não morrendo, mas se esgotando um pouco desde que deixou de ser a capital. O que me agrada é o lado decadente do Rio. Isso me dá tesão.

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