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Guilhotina ou redenção

por Matheus Pichonelli publicado 06/03/2012 16h54, última modificação 07/03/2012 08h22
Dificilmente Mano Menezes passará imune a um novo fracasso olímpico. A era Mano pode ter fim ou ganhar sobrevida em Londres
Ronaldinho

Ronaldinho, líder de um time que ainda não convencer. O pior nem chegou. Foto: AFP

Mano Menezes deve ser o técnico da seleção para a Copa de 2014? A resposta, depois do marasmo da partida contra a Bósnia, parece pronta na boca do torcedor, mas só poderá ser cravada após a Olimpíada de Londres.

Nos Jogos, Mano pode ganhar força e engatar uma reta até o Mundial. Se perder, será a reedição de uma maldição que grudou no calcanhar de todo treinador da seleção.

Até lá (e faltam só poucos meses), muita coisa deve mudar. No jogo contra a Bósnia, na semana passada, muita coisa ficou exposta: o goleiro não tem mais confiança, o camisa 10 não faz mais que tocar de lado, os volantes não são mais que brucutus, o craque não tem condições de decidir tudo sozinho.

Hoje, se testada a popularidade de Mano Menezes, não superaria os índices obtidos por qualquer prefeito mediano, desses que chegam ao último ano de mandato com menos de 30% de aprovação. Algo que pode mudar muito em breve a depender do sucesso da seleção que levará a campo em Londres para a disputa das Olimpíadas.

A medalha de ouro em competições olímpicas é o único título que falta na estante da seleção. Não vale como uma Copa, mas certamente seria comemorada nas ruas com direito a vuvuzela. Não por menos, é obsessão de todo torcedor que acompanha e gosta minimamente da seleção.

Por sorte, Mano Menezes tem em mãos, pelo menos do meio-campo para frente, a geração olímpica mais brilhante que já surgiu no futebol brasileiro desde 1996. Naquele ano, Mário Jorge Lobo Zagallo montou um time sub-23, idade máxima permitida para disputar a Olimpíada, que bateria com folga muito esquadrão graúdo. Tinha Ronaldinho, o futuro Fenômeno, como maior expoente, ao lado de Roberto Carlos, André Luiz, Zé Maria, Flávio Conceição, Juninho Paulista, Sávio, Luizão e o goleiro Dida – a maioria das promessas vingou como destaque, anos mais tarde, em seus clubes e seleção principal.

A equipe brilhou, mas se contentou com a medalha de bronze – perdeu nas semifinais, de modo traumático, para a Nigéria, que se sagrou campeã.

Como a campanha foi boa e o time era promissor, Zagallo foi mantido, com o moral fortalecido, até a Copa de 1998, quando levou a campo praticamente o time-base daquele inesquecível torneio olímpico.

Quatro anos depois, nova chance, desta vez nas mãos de Vanderlei Luxemburgo. Acabava de aparecer para o Brasil uma dupla fora-de-série: Ronaldinho Gaúcho e Alex. Mesmo assim, o time protagonizou uma das maiores tragédias do futebol nacional, ao ser eliminado por outra equipe africana, Camarões, tendo dois jogadores a mais em campo. Foi demais para a paciência do torcedor, que, apesar das acrobacias e gols da dupla-prodígio, não parecia minimamente empolgado com o futuro de uma geração que contava com nomes como Baiano, Fábio Bilica, Mozart e Fábio Junior. Desde então ficou mais fácil ver Luxemburgo treinar um time de camisa amarela em Araçatuba do que na Granja Comary.

Na Olimpíada seguinte, a geração de Robinho e Diego fracassou antes mesmo de entrar em campo. O time nem sequer foi classificado para os Jogos de Atenas e caiu já no pré-Olimpico – após atuação apática diante da seleção do Paraguai. Sobrou para o técnico Ricardo Gomes, treinador do sub-23 que acabou queimado com a CBF.

Diego teve nova chance quatro anos depois (não, ele ainda não tinha 23 anos), em Pequim. Vinha com uma nova leva - o atacante Rafael Sóbis, o volante Lucas, o meia Anderson. Mas sob o comando de Dunga e a liderança de Ronaldinho Gaúcho (que recebia sua undécima chance de voltar a brilhar na seleção), o time tropeçou, tropeçou e caiu de vez diante da Argentina, que via despontar a estrela de Messi – que, aliás, acabou campeã. Foi o mais turbulento momento de Dunga na seleção e, não fosse o título da Copa América, um ano antes, era possível que tivesse caído já no desembarque.

Neste ano a bomba está nas mãos de Mano Menezes, que não tem histórico de boas atuações nem gordura para queimar. Até agora, o treinador não mostrou a que veio. Ninguém sabe quem são seus homens-forte no time (ou eles não inspiram confiança), nem as apostas, nem as referências – menos ainda o padrão, coisa que, a essa altura do campeonato, a equipe do tão criticado Dunga já tinha.

Dificilmente o treinador passará imune a um novo fracasso olímpico. A boa notícia é que os jovens da seleção sub-23 vão encarar o desafio tendo, desta vez, mais rodagem em campo do que as promessas de anos anteriores. Ganso e Neymar, possivelmente os astros do time, já jogaram (e ganharam) campeonatos regionais (dois Paulistas), nacionais (uma Copa do Brasil) e internacionais (uma Libertadores e um sul-americano). Terão a companhia de Lucas, brilhante meia que chega à Olimpíada como realidade, e não mais promessa.

A má notícia é que não existem jogadores do mesmo nível nas outras posições – a começar pelo gol.

E isso não é a pior parte. Para o torneio, Mano poderá levar até três jogadores com mais de 23 anos. Em 96, foram Rivaldo, Bebeto e Aldair. Em 2000, Luxemburgo abriu mão do direito, e pagou um preço. Em 2008, o único “maior de idade” era Ronaldinho. A péssima notícia, neste ano, é que não há hoje no futebol nacional nenhum atleta experiente o suficiente que funcione como um equilíbrio à molecada. Ronaldinho, além de ainda pensar com a cabeça de um jovem sub-20, não tem aproveitado as chances que recebeu, e as condições físicas de Kaká, outro candidato ao posto, são incertas. O torcedor tolere: isto é o tempo da entressafra.

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