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Grandes demais para quebrar

por Thomaz Wood Jr. publicado 08/12/2012 09h55, última modificação 06/06/2015 19h24
A expansão dos negócios é vista como fruto de boa gestão. Mas, além de certo limite, o porte pode ser nocivo

A expressão “grande demais para quebrar” foi popularizada na crise financeira do fim da década passada. Expressa a premissa de que algumas organizações, especialmente instituições financeiras, são tão grandes e têm tantas ramificações que sua falência teria um custo intolerável para a sociedade. Portanto, na eminência de uma crise séria, seria do interesse da própria sociedade o governo protegê-las.

A tese é polêmica e sua aceitação poderia levar algumas organizações a tentar tirar vantagens da eventual proteção. Segundo Alan Greenspan, ex-Federal Reserve, se uma organização é grande demais para quebrar, ela é simplesmente grande demais: deveria ser dividida em organizações menores.

A busca do gigantismo parece ser um mantra para as grandes corporações. Quanto maior, melhor. Será? Em edição veiculada no dia 3 de novembro de 2012, a revista britânica The Economist lança dúvidas sobre a premissa. Assim como os arranha-céus vão batendo recordes de altura, sugere o texto, as empresas batem recordes de porte.

No entanto, na construção civil como no mundo corporativo, o limite pode estar bem abaixo do céu. Como bem sabem os engenheiros, após certo limite, o projeto e a construção se tornam muito complexos, o que na prática limita a altura racionalmente indicada. A construção de prédios ultra-altos em países periféricos deve-se mais ao ego de governantes e empresários do que à racionalidade econômica.

O mesmo raciocínio pode ser válido para empresas. A busca de economias de escala justifica o crescimento, seja orgânico, seja por meio de fusões e aquisições. À medida que uma empresa cresce, os custos de desenvolvimento de produtos, de implantação de sistemas e de manutenção de estruturas centrais de controle são diluídos. Com isso, a empresa ganha músculos, se torna mais produtiva e, supostamente, competitiva.

Como no caso dos prédios, há, porém, limites para o gigantismo. Primeiro, há restrições impostas de fora para dentro. Empresas grandes demais podem adotar práticas comerciais contrárias aos interesses da sociedade. Depois disso, na linha do argumento de Greenspan, seu porte pode situá-las além do risco tolerável, no caso de uma falência.

Há ainda as restrições originadas na própria empresa. Gerenciar uma organização de 25 mil funcionários é diferente de gerenciar uma empresa de 50 mil funcionários, algo distinto, por sua vez, de gerenciar um gigante com 100 mil trabalhadores. Muda a estrutura, mudam os sistemas, muda o estilo de gestão e mudam as competências necessárias. Empresas que passam por processos de fusão sentem na pele o drama. Além de acordarem dormindo com o inimigo, são obrigadas a se reinventar, e tudo isso sob a pressão de realizar as economias de escala esperadas do processo. O resultado pode ser catastrófico.

Naturalmente, tais limites variam de setor para setor. O Brasil, cuja ecologia empresarial é enormemente heterogênea, tem setores povoados por centenas de pequenas empresas, pouco competitivas, sem escala suficiente para orientar recursos à inovação e melhora da competitividade.

Alguns setores, entretanto, já apresentam frágeis gigantes, com consideráveis dificuldades para manter seus múltiplos negócios sobre controle, operando de forma ineficiente. De fato, o mundo corporativo está cheio de histórias de terror: empresas bem geridas que se transformaram, após o crescimento, em palcos de lutas fratricidas, viram sua produtividade despencar e perderam clientes.

Então, por que os processos de expansão continuam nas agendas das corporações? Primeiro, porque crescer é um valor essencial do capitalismo e permeia a cultura e os sistemas das organizações. Nos rituais estratégicos e orçamentários, poucos executivos teriam a audácia de propor uma redução de metas para o exercício seguinte. Para a frente e para o alto é que se anda!

Segundo, porque, conforme comentado anteriormente, crescer pode gerar economias de escala e aumentar a competitividade. No Brasil, forjar “campeões nacionais”, capazes de competir no cenário internacional, tornou-se objetivo de Estado. Terceiro, porque empresários são frequentemente seres impulsivos, capazes de tomar decisões pouco racionais para satisfazer seu inflado ego. Quarto, porque o gigantismo torna a empresa supostamente imprescindível (grande demais para quebrar), o que pode transformar a sociedade em refém. Crescer além de certo porte pode ser um ótimo negócio para empresários e executivos (por algum tempo), mas pode ser um mau negócio para o mundo.

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