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Gramados: empresa culpa Fifa por problemas nas arenas

por Deutsche Welle publicado 04/07/2014 13h06
Engenheiro elenca irrigações, arquitetura e excesso de treinos como causas do problema que já chamou a atenção da imprensa internacional e foi criticado até por Messi
LUIS ACOSTA/AFP
Arena Amazônia

Arena Amazônia: por conta das falhas no gramado, imprensa inglesa comparou campo a um "pasto"

O telespectador mais atento já notou as manchas que tomam os gramados nas transmissões desta Copa do Mundo. O que é visível não deixou de ser comentado pelos profissionais do futebol, e jogadores e técnicos de diversas seleções já criticaram duramente a qualidade dos gramados de parte das 12 arenas deste Mundial.

Entre as reclamações mais veementes, a imprensa inglesa comparou o campo de jogo da Arena Amazônia a um pasto, ilustrando com fotos que mostram funcionários tingindo as zonas marrons com spray verde. As delegações do Irã, Holanda, Chile, Bósnia e Bélgica não mediram palavras em suas críticas aos campos de Salvador, Curitiba, Rio de Janeiro, Cuiabá e São Paulo.

Por último, até o craque argentino Lionel Messi aderiu ao tom, após a suada vitória contra a Suíça, na Arena São Paulo: "O gramado está seco e duro, e isso deixa o jogo mais lento e aumenta o desgaste físico do atleta."

Por conta disso, o Comitê Organizador da Copa do Mundo (COL), da Fifa, chegou a impedir que diversas seleções pudessem realizar treinamentos e reconhecimentos do gramado nos estádios oficiais. Mesmo que o COL afirme que este procedimento seja normal, ele também gerou reclamações por parte das seleções.

Mesmo assim, era facilmente perceptível que logo nos primeiros minutos de diversas partidas, como por exemplo Espanha e Austrália, na Arena da Baixada, grande blocos de grama se soltavam e que a bola não rolava "redonda".

Depois do uso intenso nos jogos da primeira fase e oitavas de final, os gramados ganham uma "merecida" folga de dois dias para se recuperar, antes de a bola voltar a rolar na fase decisiva do torneio.

Enquanto o COL diz que não recebeu nenhuma reclamação oficial sobre o assunto, a empresa responsável por sete gramados do torneio e especialistas creditam a culpa pelo desgaste à Fifa, por permitir um excesso de treinamentos nos gramados oficiais.

Artur Melo, engenheiro agrônomo especialista em gramados esportivos, atribui o desgaste dos gramados ao excesso de uso antes dos jogos oficiais, às irrigações requeridas pelo COL – cinco irrigações antes e também no intervalo do jogo –, e, também, à arquitetura do tipo "arenas" – em que coberturas fixas e opacas dão maior conforto ao público, mas impõem um microclima danoso à grama, por deixar o ambiente com sombras, umidade e pouca ventilação.

"O gramado das arenas deveria ser preservado para jogos, com no máximo, reconhecimento de gramado. O que ocorre são treinos físicos, técnicos e até ‘rachões'. Daí o desgaste em algumas arenas na área central, em especial nas áreas frontais aos gols", afirma Melo. "A decisão de se permitir ou não os treinamentos, além da irrigação, é da Fifa, e não dos técnicos que construíram e operam os gramados."

Melo explica que a escolha da grama base "de verão" do tipo "bermuda" para os estádios da Copa foi adequada, já que o país tem dimensões continentais e temperaturas de inverno que variam de 5ºC a 35ºC. O gerente geral de competição e serviços às equipes do COL, Frederico Nantes, disse que, em alguns casos, estudos recomendaram ainda o uso da técnica de sobressemeadura (overseeding), que consiste na semeadura de grama de clima frio sobre o gramado de clima quente.

"A arena de São Paulo é o único estádio que optou por utilizar grama de clima frio pura, pois o campo possui sistema de resfriamento sob o gramado, o que permite manter a temperatura constante do solo e, dessa forma, torna viável a manutenção da espécie ryegrass(grama de clima frio) o ano inteiro", afirmou Nantes. O COL é responsável pelos gramados da competição.

A Greenleaf Gramados, responsável por sete dos 12 campos dos estádios que sediam o Mundial – Maracanã, Mineirão, Fonte Nova, Arena Pernambuco, Castelão, Arena Amazônia e Mané Garrincha – informou, por meio de seu sócio Flavio Piquet, que nenhum campo feito ou mantido pela empresa sofreu críticas severas de jogadores ou de comissões técnicas.

Ele disse, ainda, que o fato de a Fifa permitir treinamentos físicos pesados dentro dos estádios por até quatro horas nas vésperas de cada jogo atrapalha a manutenção do visual do campo. E esse, até agora, segundo ele, seria o único problema encontrado, já que não houve nenhum efeito negativo em termos de nivelamento, tração e compactação dos campos.

"Os gramados foram preparados para abrigar partidas de futebol e não para a realização de quatro horas diárias de treinamentos físicos. O Maracanã recebe 13 partidas de futebol por mês no Campeonato Brasileiro e não sofre nada", afirma Piquet. "Cada cidade-sede tem dois estádios adicionais onde estavam previstos treinamentos físicos, com o objetivo de preservar os gramados das arenas. Não entendemos porque até agora eles não foram utilizados."

A DW tentou contato com a World Sports Gramados Esportivos, responsável pelos gramados das arenas Itaquerão, Pantanal e Beira-Rio. Porém a empresa não retornou aos e-mails nem aos telefonemas da reportagem.

Nantes, do COL, disse, ainda, que a organização e a Fifa não receberam qualquer reclamação oficial das seleções sobre a qualidade do gramado das 12 cidades-sede do Mundial. Para ele, é natural que após alguns dias de uso intenso o gramado apresente um pequeno desgaste em função do pisoteio, e cita como exemplo o estádio Mané Garrincha, em Brasília, onde houve três jogos e cinco treinos num período de 11 dias.

Devido ao grande uso, o COL tem à disposição em cada sede os campos oficiais de treinamento (COTs) para a realização de treinos das equipes, fora do campo de jogo dos estádios oficiais, que segundo a organização, devem ser preservados ao máximo para os jogos. "É um procedimento padrão desta e de outras edições da Copa do Mundo, como na Alemanha e na África do Sul", completa Nantes.

  • Autoria Fernando Caulyt / Philip Verminnen
  • Edição Augusto Valente

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