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Gisele-mala contra o Wonka meio-amargo

por Rosane Pavam publicado 28/02/2008 16h52, última modificação 16/09/2010 16h54
Houve um tempo em que jornalistas rivalizavam com escritores. Dizendo isto melhor, era como se os periodistas (boa palavra em espanhol para os que escrevem e não permanecem) desejassem alcançar a transcendência literária ao relatar acidentes de trem. Os tempos mudaram, ou mudamos nós, e grande parte dos jornalistas não acredita mais ser necessário ou possível escavar o mundo a esta profundidade no exercício profissional.

Houve um tempo em que jornalistas rivalizavam com escritores. Dizendo isto melhor, era como se os periodistas (boa palavra em espanhol para os que escrevem e não permanecem) desejassem alcançar a transcendência literária ao relatar acidentes de trem. Os tempos mudaram, ou mudamos nós, e grande parte dos jornalistas não acredita mais ser necessário ou possível escavar o mundo a esta profundidade no exercício profissional.

O universo jornalístico, obediente a uma simplificação quiçá desejada pelos leitores, chegou ao ponto de não suportar nuances. O que invariavelmente lemos nos jornais é que há os comportamentos aceitáveis ou inaceitáveis. E as boas ou más atitudes são ditadas pelo padrão de alguém muito poderoso que desconhecemos, como na situação escolar em que um aluno obedece ao professor. Nem se observa mais se há duas versões para um mesmo fato. Bandido é bandido, e mocinho, mocinho da Daslu...

O profissional da imprensa – aquele que, em lugar de procurar, “sabe” – tem suas razões para se ver transformado neste homem que só enxerga brancos e pretos sugeridos pela elite de única cor. Ele tenta transformar sua profissão, moralmente indefensável segundo a classificou Paulo Francis, em algo destacado socialmente, bom para o mercado, inofensivo aos olhos dos inquisidores capazes de sustentar mais jornalistas.

São novas as ilusões perdidas. O escritor dos jornais – e isto não é irônico – tem contas a pagar. A mudança de seu status de irresponsável filosófico-poético para observador imparcial-inflexível tornou-se a utopia que ele persegue.

Mas o jornalista precisa analisar se, em vez de chegar a isso, está se tornando um tipo ridículo, cada vez mais favorável ao pensamento que o domina, em nome de uma utopia na verdade alheia. Quem deseja respeitabilidade precisa apontar a bobagem escondida no senso comum. E só pode mostrar isto a alguém aquele que está fora de tal senso, livre para pensar diferente.

Um profissional talvez não deva perseguir o doce que não pode comprar, nem bajular o dono da maravilhosa fábrica de chocolates em troca de um. Ele deve ser, imagino, a consciência amarga do mundo, em busca de interpretá-lo. Mas é preciso que ele deseje interpretar alguma coisa. O desregramento dos sentidos de que falava Arthur Rimbaud em busca de uma verdade poética serviria, então, como uma ferramenta para alcançar a “verdade” jornalística. Muitas vezes é possível encontrar no jornalismo quem entenda e promova tal concepção arriscada. Temos de procurar esses lugares como as formigas, as aranhas mortas.

O obituarista do “The New York Times” Robert McG. Thomas Jr., que inventou um jeito de tratar seus cadáveres sem bajulação (leia O Livro das Vidas – Obituários do New York Times), era criticado pelas posições muito pessoais à hora de escrever sobre os homens falecidos nos Estados Unidos. E então ele dizia algo nesta linha quando perguntado se às vezes não ia longe demais: “Claro que vou longe demais, porque, se não o fizer, como saberei até onde ir?” Isto nos leva a perguntar que problema haverá em praticar uma escrita pessoal. Vivemos em sociedade, e o que é pessoal também pode ser de todos.

Muitos jornalistas talentosos caminham em outra direção. Em direção à fábrica de chocolates dos padrões. Mas se você se lembra do livro ou do filme, até mesmo Willy Wonka, o dono da fábrica, era um perseguidor da má consciência, um educador amargo.

Leio a cobertura jornalística das semanas de moda e vejo crescer em mim um Gene Wilder de olhos arregalados, prestes a condenar meninos inteligentes, porém maus, que visitam sua fábrica fantástica. Penso: o que significa esta maneira sacralizada de encarar a moda? Na minha visão quiçá disfuncional, as semanas fashion são dignas de que um comediante como Sacha Baron Cohen as vasculhe no “Da Ali G Show”, mas os jornalistas as entendem como fenômeno de alta cultura. Pergunto-me se elas devem mesmo ser encaradas assim. Frequentemente há mais elegância, dignidade e ordem em um sem-teto de viaduto do que na jovem de passarela caminhando sonâmbula.

Lembro-me que há pouco tempo a “modelo mais do que isso” Gisele Bündchen desfilou no Rio, à sua moda peculiar de general alemão, por um palco circular giratório que imitava a esteira de bagagens do aeroporto. O efeito interessante surgido disto era que, sobre o palco giratório, a pequena militar jamais alcançava a próxima base. Perguntei-me se aquilo seria obra de um desavisado ou se fora planejado como uma performance contra o status da moda na sociedade contemporânea. Porque a moça milionária, andando em círculos como um Pato Donald mandado à sala de preocupação por Tio Patinhas, parecia representar certa perda de sentido do Brasil. Gisele-mala, Gisele-o-que-nos-tornamos. Ali, na esteira, ela era um objeto atraente sempre de volta ao mesmo lugar, à espera de um rico que a carregasse. Não assisti a espetáculo televisivo mais emblemático de nossa subserviência desde então.

Mas eis que os jornais do dia seguinte lamentaram a irresponsabilidade da marca ao desperdiçar Gisele num palco circular, com roupas tão sem graça. Tudo bem quanto às roupas sem graça. Mas desperdiçar Gisele? Como assim? Ela é uma mulher destinada a ilustrar o desperdício – o do consumo excessivo de vestimentas – e para isto ganha além da conta, ao que parece 350 mil euros, neste caso, pela marcha de alguns minutos. Esta é, além da beleza, a importante mensagem que Gisele escreve, que a usem e a carreguem desde que paguem caro por ela, como a mala na esteira do aeroporto. Foi um desfile perfeitamente simbólico do que as celebridades e seu país estejam a representar em determinado instante.

Uma roupa é algo que vestimos e que nos torna respeitáveis. Uma semana fashion é feita para agradar aos comerciantes que inventaram tal utilidade para os vestidos. Claro que um desfile de moda não precisa ser só isto, uma apresentação para o comércio, e pode receber a interpretação livre de quem o observa. Por este motivo, seria ótimo contar de vez em quando com a cumplicidade de jornalistas desconfiados do espetáculo, dispostos a enxergar na moda uma excitante – e outra – razão.

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