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Sociedade

Furada

Geddel garante

por Celso Marcondes — publicado 20/01/2009 17h13, última modificação 23/08/2010 17h14
Viagem de negócios para Salvador na primeira semana de janeiro deveria ser proibida pelo Ministério da Saúde. Principalmente um “bate-e-volta” de 24 horas. Mas trabalho é trabalho, embarquei.

Viagem de negócios para Salvador na primeira semana de janeiro deveria ser proibida pelo Ministério da Saúde. Principalmente um “bate-e-volta” de 24 horas. Mas trabalho é trabalho, embarquei.

Voo surpreendentemente pontual, avião lotado. Escala em BH. Desceram alguns paulistas, subiram os mineiros. Famílias inteiras, crianças de todas as idades. Choros, muitos choros, comissários solícitos sendo abordados a todo instante para juntar casais e filhos com assentos reservados em cantos diferentes do avião. “Dá para o senhor trocar o 6C pelo 25B? Aquele garoto de 14 anos que está lá atrás não pode ficar longe da mãe.” Fui, levando minha latinha de cerveja e meu livro do Balzac. O casal de namorados simpáticos ao meu lado puxa papo. Ia pra Porto Seguro, destino final do avião. “O senhor vai parar em Salvador?” “Vou.” “Nós vamos ficar vinte dias em Porto e Trancoso. E o senhor?” “Vinte horas em Salvador, viajo a trabalho.” “Nossa, que pena!”

Retomo As Ilusões Perdidas, sem mais interrupções. Chegamos à Boa Terra. Vinte e sete graus às 11 e meia da noite e a grata surpresa: acabava de ganhar uma hora na vida, lá não tem horário de verão.

O táxi sai veloz, no caminho lembro logo do Kassab e seu “Cidade Limpa”. Fazia tempo que não via tantos outdoors. Olodum, Timbalada, Ivete, Ilê Aiyê. Estamos no dia 7 de janeiro, mas aqui é a Bahia, e os preparativos para o carnaval emendam o réveillon com os dias de folia. Fixava o olhar nos cartazes abundantes. Supermercados, varejo, hotéis anunciavam seus serviços. Aparece um cartaz diferente, com o rosto de um candidato a prefeito recém-derrotado agradecendo ao povo os insuficientes votos. Coisa que sempre tem no pós-eleição. De repente, outro político que não consegui identificar. A foto de um gordinho sorridente e um texto. Logo mais, outro outdoor com o gordinho, porém o táxi corria, não dava tempo de ler nada. Em 15 minutos chegava ao hotel. Lotado. Outra cervejinha e uma generosa porção de camarões à beira da piscina (não resisti, embora o estômago e a bexiga fizessem sinais insistentes para que meu cérebro refletisse).

A noite de sono foi tranquila. Reunião marcada para as 10 da manhã. Terno e gravata, 31 graus. Enchi o bolso de papel higiênico para garantir o enxugamento da testa larga no caminho. Felizmente, o táxi tinha ar condicionado.

Na primeira curva, estava lá o outdoor com o gordinho sorridente, de novo. Pensei com minha gravata: “Não é o governador, não é o prefeito, nem o candidato derrotado”. Quando despontou ao longe mais um cartaz, não hesitei, pedi pro taxista diminuir a marcha e o mistério se desvendou. “É o Geddel?”, perguntei. “Ele mesmo, o patrão conhece ele?” Ao lado da foto, o texto em letras quase garrafais: CONTE COMIGO PARA AJUDAR A REALIZAR UM FELIZ 2009. “É o ministro da Integração Nacional, não é?”, respondi. “Se é da Integração, eu não sei não, mas o ‘home’ manda um ‘bucado’ por aqui. O prefeito é dele.”

Chegamos ao local da reunião. Na sala de espera, o pouco que eu sabia sobre a política baiana vinha à cabeça. Geddel era o grande vitorioso das eleições, com o PMDB contabilizando Salvador e mais de cem prefeituras conquistadas. Na capital, bancou a reeleição do prefeito João Henrique contra o petista Walter Pinheiro – apoiado pelo governador Jaques Wagner – num segundo turno mais que disputado.

O chamado para a sala de reuniões interrompeu o raciocínio, mas aquilo ficou martelando na cabeça: outdoor de ministro de Estado espalhado pela cidade depois das eleições? Nunca tinha visto. Dispondo-se a “ajudar a realizar” em 2009? Mais estranho ainda. Ajudar como? A diminuir o IPTU? Tapando os buracos? A resolver briga de casal?

No almoço, entre uma garfada e outra de uma deliciosa moqueca de peixe e camarão, não segurei e expressei minha surpresa aos colegas que me acompanhavam. Um deles respondeu de imediato: “Impressionante mesmo, tem cartaz dele pela cidade toda. Geddel está mais forte do que nunca. Tem gente aqui que já o chama de ‘o novo rei da Bahia’, mas ele diz que não gosta”.

Tentei relembrar os últimos anos da política local. “Geddel não era um dos mais ferozes críticos de Lula até as eleições de 2006?”, perguntei. “Já disse o diabo contra o presidente. Falou que iria ficar na oposição, que era a única postura ética. Anticarlista e antipetista, assim ele foi fazendo seu nome”, falou um. “Mas depois apoiou Jaques Wagner e virou ministro do Lula, não foi?” “Foi. Virou ministro, tem secretarias no governo do Estado, fez o prefeito, tirando o João Henrique lá de baixo, despejando milhões do ministério para obras aqui! Antes de Geddel entrar com tudo, a reeleição estava perdida.”

Dispensamos a sobremesa. No caminho, fico à caça de mais outdoors, mas o que me surpreende agora é a quantidade de prédios em construção. Meu companheiro de trajeto garante que a crise global afetou pouco o ritmo da construção civil. “Salvador é a capital do País com maior densidade demográfica”, diz. A cidade cresce.

De volta ao hotel me dei conta de que ainda me restava uma hora de folga antes de ir para o aeroporto. Combinei com o taxista uma parada no Mercado Modelo. Transbordado de turistas. Como o hotel, o aeroporto, o restaurante, o voo. Não precisaria consultar estatísticas de turismo para saber que muita viagem para o exterior tinha migrado para dentro do País. Fiz a feira: manteiga de garrafa, azeite-de-dendê, farinha, cocada, castanha-do-pará, bombons de cupuaçu, pimenta-malagueta. Podia reencontrar Raimundo, o motorista, e seguir para o aeroporto.

– Se o patrão tivesse avisado que ia comprar essas coisas, teria te levado à Ceasa do Rio Vermelho. Tem muito mais coisas e é bem mais em conta...

A dica tardia ficaria para a próxima. Correndo pela Paralela, mais um, dois, três outdoors do gordinho sorridente. No voo, de novo no horário e de novo lotado, os cartazes voltaram à mente. Fiquei pensando: e se a moda pega? Poderia chegar a São Paulo e, percorrendo a avenida 23 de Maio, dar de cara com o ministro Guido Mantega dizendo: CONTE COMIGO PARA AJUDAR A ECONOMIZAR EM 2009. Ou indo para Porto Alegre ver a foto da ministra Dilma – já com o novo look – dizendo CONTE COMIGO PARA AJUDAR A CONSTRUIR EM 2009. E aí fui viajando, ministro por ministro, cidade por cidade. Percebi que quem sairia ganhando seria o ministro dos Esportes, Orlando Silva, também baiano. Como a regra para criação de outdoors diz que é bom ter o mínimo possível de texto, para facilitar a leitura em movimento, Orlando poderia pegar carona com Geddel e mandar colocar seus cartazes ao lado dos dele, simplesmente com o texto: E COMIGO TAMBÉM.

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Já em São Paulo, descubro que os outdoors geddelianos abundam em mais de cem cidades baianas. E que o presidente da Câmara Municipal soteropolitana, do PMDB de Geddel, que havia derrotado o adversário petista por 28 votos a 6, acabara de renunciar, surpreendentemente. O cargo passou para o primeiro vice-presidente, do DEM. Sobrinho-neto de ACM e primo de ACM Neto. A Bahia continua a mesma.