Você está aqui: Página Inicial / Sociedade / Fotos Públicas: a democratização da imagem

Sociedade

Jornalismo

Fotos Públicas: a democratização da imagem

por Mariana Melo — publicado 23/06/2014 14h11
O site, iniciativa de jornalistas e fotógrafos profissionais, compila imagens para usos editoriais
Paulo Pinto/Fotos Públicas
Torcedor-Copa-do-Mundo

No registro feito para o Fotos Públicas, o pequeno torcedor brasileiro assiste a partida Brasil e México do dia 17 de junho

No ar há nove meses, uma iniciativa de fotógrafos profissionais, alguns com muitos anos nas editorias de jornais já tradicionais, vem tomando espaço no meio jornalístico ao disponibilizar fotos para fins editoriais. É o Fotos Públicas, projeto que um dos seus idealizadores, Juca Varella, fotojornalista com 28 anos de profissão, defende como revolucionário. “Esse site é uma ideia absolutamente inovadora.”

O Fotos Públicas não consiste apenas em galerias de fotos cujos direitos autorais são livres ou pré-negociados com os fornecedores. Na verdade, ao disponibilizar material fotográfico durante o dia todo, inclusive nos finais de semana, o site funciona como uma agência de notícias. “Hoje, a gente é procurado pra saber o que está acontecendo. Os editores entram pra ver o que tem de novidade” diz Varella. De abril para maio, segundo dados do próprio site, houve um aumento de 14% nos acessos e número de downloads de material fotográfico aumentou 33%. Atualmente, são 37.095 fotos disponíveis para uso.

O que chama atenção na iniciativa de Varella e mais cinco "sócios" são os princípios do site, que envolvem a democratização da imagem e a valorização do trabalho do fotógrafo profissional. “Você jamais vai ver no Fotos Públicas uma imagem cujo crédito diz ‘Divulgação’. Só colocaremos fotos com autor. E esse autor foi pago para realizar determinado trabalho.” Leia a entrevista.

CartaCapital: Como surgiu a ideia de fazer o Fotos Públicas?
Juca Varella: O Fotos Públicas surgiu de um papo entre amigos fotógrafos, eu, o Jorge Araújo e o [Ricardo] Stuckert, que foi o cara que levantou a bola da dificuldade que os editores, em geral, têm para fechar os seus blogs, portais, jornais, revistas, etc. Eu fui editor durante sete anos no Estadão e vivi isso bem de perto. Era difícil conseguir fotos cuja origem não era da nossa equipe e nem de agências internacionais. A gente ficava ligando uns pros outros, era um garimpo. Então, se a gente pudesse oferecer esse serviço, montar um “supermercado” de imagens gratuitas, de modo que os editores pudessem entrar em um lugar só e encontrar tudo o que tivesse de importante no dia para usar nas suas publicações, seria sensacional. Em um primeiro momento, fomos ver as questões legais de se abrir um site com essas características. E, depois, botamos mãos à obra.

CC: Quem faz parte da organização?
JV: Nós somos seis sócios. Ricardo Stuckert, Juca Varella, Jorge Araújo, Paulo Pinto, Hélio Campos Melo e Kelsen Fernandes. Também temos um técnico de TI, que é o Roberto Simões, o cara que cuida do site e o aprimora com frequência, porque o site está crescendo muito.

CC: Como o site funciona?
JV: Hoje, a gente já criou um leque, que varia de flickrs até sites mesmo, que a gente entra diariamente e vê o que tem de novidade. Esse tipo de trabalho é feito logo de manhã e no decorrer do dia também. O Jorge Araújo é nosso pauteiro. Logo de manhã, ele já levanta de mais importante o que vai acontecer e escreve uma pauta pros assistentes e editores. Em cima da pauta e em cima dessa busca rotineira feita nos nossos “fornecedores”, a gente vai montando o conteúdo.

O interessante disso é que a gente começou como um site, um portal, que distribui fotos gratuitas, mas, com o trabalho do Jorge de esquentar o site com fotos, a gente percebeu que nos últimos quatro, cinco meses, nos transformamos num site de notícias. Hoje, a gente é procurado pra saber o que tá rolando. Os editores entram pra ver o que tem de novidade, então a gente se reestruturou pra ficar quase 24 horas abastecendo nosso site. Então, nosso trabalho começa às 7 da manhã e vai até 22 horas, inclusive nos finais de semana, com os assistentes e um editor.

CC: Como é alimentado o site?
JV: Por exemplo, a gente precisa de foto da Nasa, entramos no site, nos cadastramos e daí analisamos fornecedor por fornecedor qual o tipo de copyright, termo de uso, que eles têm. De modo que a gente garanta que possamos baixar a foto, publicar e distribuir. Se não tiver essa autorização, a gente pede por escrito, descrevendo nosso site, pra eles autorizarem. Vários fornecedores autorizaram especificamente para nós. Na Pirelli, por exemplo, fizemos um cadastro específico, acertamos um acordo e, por isso, podemos publicar as fotos da Fórmula 1.

CC: Todas as fotos são liberadas para livre uso, inclusive comercial?
JV: Não, nossos termos são bem claros em relação a isso. É liberado para uso editorial. Se alguém baixar qualquer foto nossa e fizer mau uso, está sujeito a processo, tanto nosso quanto do autor da fotografia. Nada de uso comercial. Tem um segmento do Fotos Públicas que é Fotos Públicas como Agência. Nós prestamos serviços para corporações e colocamos essas fotos ou não, depende, pra divulgar. Neste caso, alguém do Fotos Públicas ou algum terceiro faz o serviço e se a empresa X achar que vale divulgar no nosso site, a empresa paga pelo trabalho e pela divulgação, que fica em um ambiente próprio, fora da parte editorial. É uma forma de remuneração. As pessoas nos perguntam “como vocês estão ganhando dinheiro com isso? Pegam foto de graça e distribuem fotos de graça”, então, temos patrocínio e esse trabalho como agência.

CC: Que tipo de veículos estão usando o Fotos Públicas?
JV: Já fomos republicados por jornais no Japão e na China. O que a gente percebe que há um preconceito dos grandes jornais daqui em pegar foto nossa. Na verdade, é uma pré-opinião dizer que é preconceito, na verdade é um receio. Os nossos maiores usuários são os jornais fora do eixo Rio-São Paulo-Brasília, jornais pequenos do interior que não têm condições de mandar alguém cobrir uma pauta ou assinar uma Reuters [agência de notícias]. As revistas têm incorporado mais o Fotos Públicas do que os “jornalões”. Os grandes não “pegam”, mas usam a gente como fonte. E, por vezes, ligam aqui pra perguntar onde a gente conseguiu tal foto. Mas não baixam daqui. A gente fala. Não é uma coisa fechada.

CC: Vocês estão preparado algum esquema especial para a Copa ou para as eleições?
JV: Nosso site já tem um vasto material para Copa do Mundo. Conseguimos um acordo com o Comitê Paulista da Copa. Eles têm um fotógrafo, pago por eles, pra fazer foto de divulgação. Com a parceria, o fotógrafo manda direto para a gente. Quando as eleições começarem, a gente vai criar um ambiente próprio pra isso, galerias próprias, de modo que nós tenhamos nas galerias todos os candidatos a governo dos estados, pelos menos os três mais bem colocados. Mas ainda estamos decidindo, no momento oportuno a gente vai publicar isso.

CC: Como está a reação ao site?
JV: Esse site é uma ideia absolutamente inovadora. Não existe isso, pelo que a gente tem conhecimento. E começou a provocar certo desconforto, medo. A nossa bandeira é a democratização da imagem. Temos recebido algumas críticas por questões corporativas, sabe. “Vocês estão dando fotos de graça” ou “Vocês estão tirando emprego”. Só que a gente já tem contratado aqui quatro funcionários e também temos fotógrafos contratados fora de São Paulo. Então, na verdade, nós estamos contratando, empregando. Você jamais vai ver no Fotos Públicas foto cujo crédito diz “Divulgação”, só colocaremos com autor. E esse autor foi pago para realizar determinado trabalho. É a nossa missão. Não pegamos fotos feitas com celular, por amadores. Só profissionais, que foram remunerados pra fazer o trabalho. Inovações como o Fotos Públicas, quando aparecem, provocam um chiado do conservadorismo, do corporativismo. Mas quem tá com a cabeça mais aberta, compreendendo a tendência do momento da fotografia no Brasil e no mundo, entende o nosso trabalho. Além disso, existe uma regra aqui: na dúvida, não publique. Se não tiver a fonte, a expressa autorização do autor, etc, não publicamos. Tanto que estamos há 9 meses no ar e mesmo mexendo com um produto de risco, que é o direito autoral, não tivemos um só questionamento. Isso a gente considera uma vitória. Fazemos isso, inclusive, pra dar segurança aos nosso usuários e clientes.

registrado em: , ,