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Porto Alegre

Fórum Social começa com marcha e divergências entre movimentos sociais

por Agência Brasil publicado 26/01/2013 10h10, última modificação 27/01/2013 09h13
Entidades como a CUT e a Marcha Mundial das Mulheres no RS se retiraram das discussões por discordarem da Força Sindical gaúcha

Mariana Jungmann e Bruno Bocchini
Enviados Especiais

 

Porto Alegre - Um marcha por diversos pontos de Porto Alegre (RS), a partir do Largo Glênio Pires, marca a abertura do Fórum Social Temático (FST), que ocorre na capital gaúcha até dia 31.

Nas semanas que antecederam o FST, entidades como a Central Única dos Trabalhadores (CUT) e a Marcha Mundial das Mulheres no Rio Grande do Sul (MMM-RS) se retiraram das discussões por discordarem da principal organizadora, a Força Sindical no estado. O tema do fórum, que este ano será Democracia, Cidades e Desenvolvimento Sustentável, e a interferência da prefeitura de Porto Alegre no evento são os principais pontos de discórdia.

Na nota em que anuncia sua saída da organização do Fórum, a CUT cita uma lei sugerida pela prefeitura e aprovada pela Câmara de Vereadores da cidade segundo a qual o fórum deverá obrigatoriamente ocorrer todos os anos na última semana de janeiro. Para a central, a determinação governamental sobre o evento fere a carta de princípios do Fórum Social Mundial, que diz que ele é um espaço dos movimentos sociais e que deve sempre ser gerido por eles com autonomia em relação a Estados e partidos políticos.

“O Estado e os partidos podem e devem apoiar os eventos, no entanto jamais exercer o controle. A prefeitura de Porto Alegre fez aprovar um Projeto de Lei na Câmara Municipal definindo que toda última semana de janeiro será realizado um fórum na cidade. Onde foi debatida esta iniciativa? Parece-nos que é uma interferência do poder público numa organização que deveria ser autônoma”, diz a nota.

A Marcha Mundial das Mulheres também convocou sua militância a não participar do encontro que começa hoje. Além da ingerência governamental, a organização feminista demonstrou descontentamento com a valorização de temas que considera terem sido “apropriados pelo capital”, numa referência aos temas ambientais que serão tratados no fórum.

“Nossa luta é de resistência ao modelo capitalista patriarcal, representado pelos setores que apoiam este evento de janeiro em Porto Alegre. Celebramos a derrota do neoliberalismo no campo das ideias e de que contribuímos para isso. Contudo, observamos que alguns dos temas trazidos pelo alter-mundialismo, têm sido apropriados pelo discurso do capital e apresentados, cada vez mais, como novas mercadorias para servir ao capital. Não vamos permitir que a luta dos povos seja transformada em mercadoria política”, diz a nota da MMM-RS

O principal organizador do evento e presidente da Força Sindical no estado, Lélio Falcão rebate as críticas. Ele nega que o evento tenha sido esvaziado com a saída da CUT, do movimento feminista e de outras entidades e espera que 30 mil a 40 mil pessoas se reúnam nas diversas atividades que ocorrerão nos próximos seis dias. Para ele, a mudança de rumo do Fórum Social Mundial e do fórum temático de Porto Alegre é normal e inevitável.

“Em 2001 [ano em que o FSM foi criado] o Brasil e o mundo eram muito diferentes de agora. Além disso, várias pessoas que não fizeram parte da criação do fórum em 2001 foram se somando e trazendo novas ideias ao longo do tempo”, disse.

Falcão defendeu a agenda ambiental do evento e disse que o assunto não pode mais ser dissociado das questões tradicionais como a luta pelo emprego e contra o capital. Apesar disso, o presidente da Força Sindical no Rio Grande do Sul nega que os temas previstos na carta de princípios tenham sido abandonados.

“O processo de construção capitalista já produz lixo antes de sair da fábrica. Quem vai pagar por isso? Precisamos discutir a produção sustentável, o que é emprego verde. Nós não podemos tapar o sol com a peneira, a questão ambiental está posta”, disse Falcão em entrevista à Agência Brasil. “A questão da mobilidade urbana também é muito forte. Hoje a jornada de trabalho deveria ser de oito horas por dia. Mas o trabalhador sai de casa e leva duas horas para chegar no trabalho e mais duas para voltar para casa. São 12 horas de jornada ao todo. Isso não é jornada de trabalho?”, questionou para justificar a abordagem dos novos temas.

Sobre a participação governamental no fórum, o sindicalista disse não ver problemas. Segundo ele, o governo irá participar em todas as suas esferas – estadual, municipal e federal –, como sempre fez. “Sempre teve, o governo sempre patrocinou [os fóruns sociais]. Aliás, o governo brasileiro patrocina até fóruns em outros países”, alegou.

 

*Matéria originalmente publicada na Agência Brasil

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