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Fora com o seboso

por Carlos Leonam e Ana Maria Badaró — publicado 30/08/2010 12h00, última modificação 30/08/2010 12h00
O isqueiro coletivo era tão seboso quanto o barbante que o sustentava. Haja anticorpos!

Além de toda a culpa que carregam n’alma, nos pulmões, no ar que inspiram e expiram e de serem considerados, hoje, cidadãos de quinta, os renitentes fumantes não foram expulsos somente dos ambientes fechados e semifechados pela Lei Antifumo (aliás uma das boas regras que, enfim, pegaram em nosso país). Os fumadores foram também banidos das proximidades das bancas de jornais.

Até há bem pouco tempo, quase todas as bancas, e a maioria delas que vende cigarros, no Rio, tinham dependurado do lado de fora, e ao alcance de todos, um isqueiro num barbante, sempre imundo aliás. O isqueiro de uso coletivo era muito providencial tanto para os que compram um cigarro no varejo como para os que saem com um ou mais maços. Essa raça sempre esquece os fósforos, ou melhor, o isqueiro. E aí então, era só acender o maldito ali mesmo.

Mas a Lei Antifumo baixou braba também nas bancas de jornais e proibiu o isqueiro coletivo. Ou se compra um novinho em folha, ou se sai pela rua pedindo “fogo”, coisa que os outros fumantes oferecem com a maior solidariedade.

Sabem que uma hora será a vez deles fazerem o mesmo. Segundo os jornaleiros, a fiscalização não dá moleza e alega que a proibição se deve ao fato de o fumante acender o cigarro ainda sob o teto de alguns centímetros da banca de jornal, mesmo do lado de fora na calçada. A lógica da proibição é a mesma que focaliza toldos e marquises.

Muitos jornaleiros discordam da proibição ou são indiferentes a ela, mas alegam que lei é lei e multa é multa. Se assim fosse para todas as irregularidades passiveis de punição, seríamos mais felizes e menos irritados com os poderes públicos.

É claro, que aumentou a venda de isqueiros descartáveis novos. A medida evita, em termos, que o fumante que acabou de acender seu cigarrinho ali na ponta do barbante imundo ainda fique baforando ao lado dos leitores das manchetes em exposição.

Mas a proibição livrou os fumantes de mais um risco, além dos inúmeros que já correm mantendo o vício: o de segurar naquele isqueiro coletivo, tão seboso quanto o barbante que o sustentava. Haja anticorpos.

Por falar em anticorpos, nada mais nojento do que chave de banheiro público, aquela que normalmente fica guardada a “sete chaves” no caixa ou na gaveta do gerente do estabelecimento. Não estamos nem falando dos botecos pé-sujo em que os banheiros merecem ser chamados de WC ou mictórios e que requerem, pelo menos das mulheres, posturas circenses e quase bizarras.

Numa das mais conhecidas boulangeries da Zona Sul, e que recentemente aderiu à febre das mesas nas calçada, os toaletes agora ficam trancados. O usuário tem de “pedir a chave” ao caixa como indica o cartaz afixado na porta. Além de humilhante, a medida parece ter sido tomada para restringir o uso dos sanitários apenas a clientes, talvez na tentativa de não rebaixá-los à categoria de mictórios. Bobagem. O preço da higiene, em qualquer lugar, é a eterna vigilância.
Ninguém merece, depois de tomar os cuidados necessários ao uso de um banheiro público, lavar as mãos e tornar o ato inútil ao ter de trancar a porta do banheiro à chave e ainda precisar devolvê-la ao caixa. Sem falar que o chaveiro não passa de um toco de madeira do qual é impossível livrar-se. E os precinhos das bebidinhas e quitutes do estabelecimento ó... Por que é tão difícil no Brasil, com exceção dos shoppings e de alguns restaurantes, achar um banheiro como se diz agora friendly?

Por oportuno, e para não dizerem que só se fala mal da coisa pública: os banheiros à disposição de banhistas e turistas, no posto de salvamento da orla Ipanema-Leblon, se não chegam a ser impecáveis (mas isso por culpa dos usuários), são decentes, usáveis, nunca falta papel higiênico e toalhas. Tem até sabonete líquido para o distinto contribuinte lavar as mãos. Um espanto !!!

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