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Fogo cruzado na polícia

por Redação Carta Capital — publicado 21/02/2011 11h15, última modificação 21/02/2011 13h27
A ação fulminante da PF, batizada de “Operação Guilhotina”, prendeu 27 policiais acusados de corrupção e de proteger traficantes, bicheiros e milicianos. As três pragas cariocas.

Operação da PF derruba o número 2 da segurança carioca
Embora tenha ganhado notoriedade por ser uma instituição marcada pela violência e a corrupção, a polícia no Rio de Janeiro, civil e militar, vive um momento de graça com a sociedade desde a implantação das unidades de Polícia Pacificadora em várias comunidades faveladas e, principalmente, após a espetacular operação de tomada do perigoso Complexo do Alemão, principal eixo de ação do tráfico. Vive ou, pelo menos, vivia até a sexta-feira 11, já que uma ação desfechada pela Polícia Federal pode ter botado um ponto final nessa fase de congraçamento entre a população e os policiais. A ação fulminante da PF, batizada de “Operação Guilhotina” prendeu 27 policiais acusados de corrupção e de proteger traficantes, bicheiros e milicianos. As três pragas cariocas.
Os envolvidos são acusados ainda de uma prática comum entre os policiais, embora de certa forma surpreendente: saque de bens de moradores durante a ocupação do Alemão. A operação foi desfechada, com apoio da Secretaria de Segurança e do Ministério Público estadual, após mais de um ano de investigações e está sustentada, segundo as autoridades, em centenas de horas de telefonemas gravados, com autorização judicial, filmagens e depoimentos de testemunhas. A guilhotina baixou sobre a cabeça de bagrinhos e, desta vez, de alguns peixes bem mais graúdos. Foi preso, por exemplo, o delegado Carlos de Oliveira que, até o ano passado era o poderoso braço direito do chefe da Polícia Civil Allan Turnowski, por sua vez homem de confiança de José Mariano Beltrame, secretário de Segurança Pública do estado.
Alguém vazou para a imprensa que Turnowski era citado por uma testemunha. A Polícia Federal convocou o chefe de polícia para depor. Mas, antes, ele reagiu e comandou uma desafiadora incursão à Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (Draco) chefiada pelo delegado Cláudio Ferraz, que tinha participado da Operação Guilhotina. Mais grave. Ferraz estava subordinado diretamente ao secretário Beltrame. Com a situação insustentável Beltrame e Turnowski sentaram-se para uma conversa classificada por ambos como “franca e aberta”. Turnowski foi demitido com um brilhante elogio de Beltrame gravado em comunicado oficial.
Alguém deu um troco pesado. Documento “vazado” para o jornal O Globo tinha trechos do depoimento da testemunha de acusação de Turnow-ski, identificado apenas como um ex-informante da polícia. O então chefe da Polícia Civil estaria recebendo mensalmente cerca de 500 mil reais para proteger as milícias na capital e, mais ainda, 100 mil reais para não reprimir a venda de produtos piratas no chamado “Camelódromo”, no centro da cidade. Turnowski rompeu com Beltrame, policial acreditado e popular no estado. Oriundo da Polícia Federal, ele age com rigor e fé calvinista contra a corrupção. Tem a frieza de um frade de pedra. Perfil que, nesse sentido, lembra Robespierre, líder da Revolução Francesa que mais acionou a guilhotina. Só que no final daquela história Robespierre acabou também guilhotinado.

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