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Filme ‘Estou com Aids’ trouxe prejuízo, diz diretor Davi Cardoso

por Agência Aids — publicado 20/08/2010 09h00, última modificação 20/08/2010 12h09
Quase 30 anos depois de ser produzida, a obra foi exibida nessa terça-feira no VI Cinema Mostra Aids em São Paulo

Quase 30 anos depois de ser produzido, o filme Estou com Aids foi exibido nessa terça-feira no VI Cinema Mostra Aids em São Paulo. A obra é composta por diferentes histórias dramatizadas, intercaladas com declarações de personalidades, médicos e políticos da época. O longa conta episódios que envolvem a transmissão do HIV entre homossexuais, hemofílicos, usuários de drogas, mulheres, bissexuais e travestis de diversas classes sociais. Mas, em nenhum momento há qualquer menção ao uso do preservativo. “Ninguém nas entrevistas falou sobre isso”, conta o diretor Davi Cardoso sobre o principal meio de prevenção contra o vírus da aids.

O Grupo Pela Vidda/SP, organizador da Mostra, promoveu um debate com o diretor e também com o jornalista especializado em cinema Christian Petermann. A iniciativa teve mediação da editora executiva da Agência de Notícias da Aids, Roseli Tardelli.

Davi Cardoso abriu o encontro informando que possui apenas uma cópia do filme. Segundo ele,  infelizmente não existe no Brasil qualquer preocupação em preservar obras cinematográficas. “Tive prejuízo financeiro ao produzir esse filme e fui taxado de sensacionalista na época. Tratar o tema era um tabu na sociedade. Mas, minha satisfação era conseguir alertar e esclarecer as pessoas sobre a aids”, disse.

Cardoso ficou famoso e conhecido como “Rei da Pornochanchada” nos anos 70. Em 1973, fundou a Dacar Produções Cinematográficas. Em seu currículo somam-se 76 longas. Como ator, participou de mais de 40 filmes, com destaque para Noite Vazia (1964) e Amadas e Violentadas (1975).

Em 'Estou com Aids', as histórias que mais chamaram a atenção do público foram a de uma empregada doméstica vinda do interior para São Paulo e de um homossexual morador de um município pequeno. Na primeira, a mulher é seduzida a manter relações sexuais com o patrão e os amigos dele. Depois de infectada pelo HIV, muda de emprego e é abandonada pela família quando manifesta sintomas da aids. Já na segunda, o rapaz gay é expulso da cidade pelo delegado depois de ser descoberto como doente de aids.

Entretanto, nem por isso o filme deixa de ter momentos divertidos, principalmente quando personalidades da época fazem declarações ao longo do documentário. A cantora Alcione, uma das entrevistadas, por exemplo, provocou risos na plateia. “Não entendo como os homossexuais brasileiros podem ser vítimas dessa doença. Eles são tão limpinhos quanto nós mulheres, acho que o problema vem do estrangeiro. Cuidado com os olhos azuis”, disse. Ela ainda se declarou como “rainha dos gays”.

A crítica feita por Christian Petermann foi sobre o nome do filme,  “Estou com Aids”. "Esse título choca muito as pessoas e tem pouco apelo comercial. Seria melhor colocar de outra forma, como, por exemplo, ‘Aids – a procura de resposta’, e usar o recurso do subtítulo”, argumentou. Mas, ativistas elogiaram a obra por conseguir mostrar na época (1985) que a população em geral era vulnerável ao HIV, não apenas grupos homossexuais.

Questionado se faria o filme de outra forma hoje, Cardoso disse que mostraria que existem esperanças e qualidade de vida aos portadores do HIV por conta dos remédios disponíveis para tratamento. Diferente da época, em que pelo menos em dois personagens do filme se suicidam.

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