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Festa agridoce

por Thomaz Wood Jr. publicado 25/07/2011 10h07, última modificação 25/07/2011 11h02
A USP celebra um feito extraordinário. Porém, há mais por fazer do que a comemorar. Por Thomaz Wood Jr.

Festa da roça do Butantã: a Universidade de São Paulo celebrará em 2011 o marco de 100 mil dissertações e teses defendidas. O número impressiona. Segundo dados divulgados pelo jornal O Estado de S.Paulo, a maior universidade da América Latina conta com 22 mil estudantes de pós-graduação, 53% deles, mestrandos e 47%, doutorandos. O ícone paulista forma 25% dos doutores do Brasil e responde por igual porcentual da pesquisa realizada no País. É um dos carros-chefes para o aumento do número de mestres e doutores, objetivo-fetiche dos burocratas da educação, sediados no Planalto Central.

Entretanto, nem tudo é festa. Quando se trata de avaliar a USP perante as melhores instituições internacionais, sua posição é incompatível com sua fama local. Existem, dentro da instituição, conhecidas ilhas de excelência, porém o quadro geral é preocupante. No moderno mundo da produção científica, quantidade não se traduz diretamente em qualidade. Formar muitos mestres e doutores, e publicar muitos artigos, podem agradar à Coordenadoria de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), órgão federal que regula e avalia nossos programas de pós-graduação, mas não garante um lugar ao sol na praia cada vez mais internacionalizada da geração de conhecimento.

Vozes ilustres da própria universidade reconhecem o inquietante estado das coisas. Percebe-se que muitos trabalhos científicos são realizados apenas para atender à burocracia, e que é preciso melhorar a qualidade e, principalmente, o impacto da pesquisa realizada. Afinal, uma instituição de ensino superior não pode ser um sistema fechado, trabalhando em torno de si mesma. Ela deve ajudar a sociedade a identificar e solucionar suas questões mais prementes e relevantes.

O problema do baixo impacto da pesquisa não é exclusivo da USP, tampouco novidade. Em algum momento do passado, pressionadas a melhorar seus índices de formação e de produção científica, muitas universidades parecem ter emulado os princípios e técnicas de produção em massa. Enquanto o governo federal e os órgãos de educação apontavam a necessidade de formar mais mestres e doutores, grupos internos se organizavam para aumentar seu espaço na concorrida arena política universitária. Da conjugação de interesses veio a implantação gradativa de um modelo do tipo fast-food, de produção e consumo rápidos. Infelizmente, um sistema que funciona bem para automóveis, geladeiras e lanches rápidos pode se mostrar pouco efetivo na área da educação e da geração de conhecimento.

Hoje, no campo da Administração de Empresas (ciência aplicada na qual este escriba atua), a pós-graduação parece funcionar tal qual uma linha de montagem. Há indícios de que outros campos operem da mesma forma. Nas instituições locais, os doutores iniciam seus pupilos na arte da produção científica. Eles os pressionam a produzir em série, a levar suas criações a congressos de magra audiência e veiculá-las em revistas de parca relevância. O processo tem início com a atração de noviços. Esses jovens compõem uma fauna variada. Há, entre eles, moços e moças com real aptidão para a pesquisa. Juntam-se a esses os alpinistas acadêmicos, a perseguir um título que lhes confira maior valor no mercado. Há também os fugitivos do mundo corporativo, a busca de empregos públicos que lhes garantam bom sustento e pouco trabalho. Muitos desses candidatos trazem as deficiências usuais do nosso sistema educacional: falta-lhes raciocínio lógico e analítico e, frequentemente, domínio adequado da língua pátria.

Para o sistema, tudo que entrar deve sair. Então, muitos noviços seguirão claudicantes pela linha de montagem, até que uma banca examine, com repugnância reprimida e tolerância exacerbada, o produto de sua labuta. Muitas dissertações e teses deixam a linha de montagem com lacunas teóricas e restrições metodológicas. Poucas servem para desenvolvimento teórico ou aplicação prática. Seu destino é mofar nos depósitos das universidades locais: as bibliotecas.

Para que serve tal sistema, que ilude e frustra os noviços, e ainda trai a sociedade que o sustenta? Primeiro, para manter o emprego dos mestres e doutores. Segundo, para legitimar as instituições de ensino diante aos reguladores brasilienses. Terceiro, para perpetuar o próprio sistema, concedendo títulos (de duvidoso valor) a futuros mestres e doutores. Quarto, para dar uma chance aos noviços de aprender alguma coisa que deviam ter aprendido antes: ler, escrever e pensar em linha reta. E, finalmente, na quinta prioridade, para gerar conhecimento útil para o País. Infelizmente, mesmo à custa de sangue, suor e lágrimas, e do uso de fundos públicos, são poucos os profissionais que chegam ao final dessa lista.

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