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Felipão, cinco anos lusos

por Socrates — publicado 18/02/2008 16h22, última modificação 20/09/2010 16h25
Técnico demonstra maturidade, singeleza e dignidade, respeita e é respeitado por todos que com ele se relacionam

Técnico demonstra maturidade, singeleza e dignidade, respeita e é respeitado por todos que com ele se relacionam
O técnico Luiz Felipe Scolari completou, há pouco, cinco anos no comando da seleção portuguesa de futebol. É sempre interessante notarmos as diferenças culturais ligadas a este esporte, quando analisamos a forma como os treinadores são tratados nos dois lados do Atlântico e particularmente em nosso país. Na Europa, esses indivíduos são profissionais tidos na mais alta conta, desde que tenham competência, é claro, mas que possuam principalmente respeito às bandeiras que comandam. Que se envolvam plenamente com os objetivos dos seus contratantes e busquem a excelência. Já por aqui vemos muitas vezes indivíduos que demonstram pouco conhecimento de futebol para exercer essa função, além de muitos deles possuírem desvios de comportamento que prejudicam sobremaneira o relacionamento com seus comandados e com a direção da instituição onde trabalham.

Estive com Felipão apenas uma vez, quando ainda treinava a equipe do Palmeiras e muito antes de se tornar campeão mundial em 2002, porém, ele é tão transparente em sua personalidade que me foi possível fazer uma avaliação de quem ele realmente é. Certamente, é um ser iluminado e que é capaz de iluminar o ambiente em que vive, lutando por seus objetivos ainda não alcançados mesmo sabedor que, para isso ocorrer, deve enfrentar extremas dificuldades inerentes à sua função, dedicando-se de corpo e alma àquilo que faz. Ele sempre me parece o ponto de equilíbrio de sua equipe, que nele deposita as esperanças e certezas – o foco definidor da trajetória que deverá ser seguida. Enfrenta os obstáculos com raça e, apesar da sua exagerada sensibilidade, distribuída em um imenso corpanzil, em momento algum se esconde das responsabilidades. Em determinados atos, chega a exagerar na forma e na concepção, mas sempre buscando a realização coletiva. Ele é o ponto centralizador de todas as articulações construtivas e serve de modelo como profissional. 

Demonstra maturidade, singeleza e dignidade, respeita e é respeitado por todos que com ele se relacionam, porque tem na Verdade a sua companhia mais perceptível. É dedicado e trabalhador, sempre em busca de progressivas melhorias para suas capacidades. Conquista seu espaço com talento, sem ultrapassar determinados limites que poderiam prejudicar a quem quer que seja. O clube ou a seleção que defende o tem como o mais importante personagem do período em que lá esteve ou está. Corre, briga, luta, extrapola, irrita-se, chora e se diverte na defesa de suas cores. Seu sorriso nos permite visualizar alguém que tem caráter e personalidade de gente grande, com sensibilidade e carinho de criança, que nos passa sempre muita coisa de bom e de honesto, irradiando paz e tranqüilidade. Quando exagera na utilização de seus recursos, chega a se autopenitenciar, porém, sabe que esses pequenos artifícios são importantes na construção de uma confiança coletiva que ele espera possa levar todos ao objetivo perseguido.

Apesar de relativamente jovem e de ter muito tempo pela frente nessa profissão, acredito que, gradativamente, ele se aproxima do auge de sua carreira, que tudo tem a ver com esse povo que hoje o acolhe e protege, permitindo usufruir, na totalidade, a realização dos seus sonhos. Ele, acredito, reconhece que soube aprender com as transformações que a vida nos oferece, tornando-as positivas. E isso só acontece se realmente as merecermos. 

O mundo em que ele hoje vive é muito diferente de suas origens, mas nem por isso esqueceu-se dos imensos obstáculos ultrapassados e que acabaram por moldar o seu interior. Não disfarça o orgulho de ter se transformado em um ser humano respeitado, principalmente, por ter convivido no início com intenso e absurdo preconceito que, no entanto, jamais lhe deixou qualquer sinal de revolta. Suas conquistas são divididas com a beleza de suas convicções espirituais, que lhe oferecem quase sempre conforto e serenidade. Daqui a alguns meses estará disputando mais uma importante competição, a Eurocopa, e defendendo o vice-campeonato de quatro anos atrás. Vestirá mais uma vez e com muito orgulho as cores portuguesas, ainda que não seja um genuíno representante do povo de além-mar. Venceu seu mais difícil desafio utilizando as mesmas armas de sempre: a honestidade e a sinceridade. 

Por outro lado, o que encontramos por aqui? Muito pouco dessas qualidades e muitas almas indiferentes e pouco qualificadas a agregar. Muitos dos nossos treinadores poderiam aprender com o Felipão que a arrogância não leva ninguém a canto nenhum.