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Feiticeiros da Vila

por Rosane Pavam publicado 03/05/2010 16h28, última modificação 15/09/2010 16h35
A liderança de Ganso na final do Paulista talvez seja demais para o velho coração de Dunga

A liderança de Ganso na final do Paulista talvez seja demais para o velho coração de Dunga

São Januário, final do quinto campeonato brasileiro de seleções, 13 de novembro de 1927. Jogam paulistas contra cariocas. O juiz marca um pênalti inexistente para os donos da casa. Os jogadores paulistas se revoltam. O centroavante Feitiço, que estreara no Santos Futebol Clube sete meses antes, não deixa a penalidade máxima ser batida. Segue-se o tumulto no gramado. Nas sociais, acomoda-se o presidente da República, Washington Luís. Ele manda um assessor ao campo, com uma determinação: “O Excelentíssimo Senhor Doutor Presidente da República manda dizer aos paulistas que deixem bater o pênalti para que a partida possa continuar.”

Feitiço, cujo apelido nascera em razão de seus pés mágicos, em grande parte responsáveis pelo ataque de cem gols de seu time, retrucou ao assessor: “Pois diga ao Senhor Doutor Presidente que ele manda no Brasil, mas quem manda no selecionado paulista somos nós.” O pênalti foi batido, mas sem o time paulista em campo, que perdeu o jogo por 2 a 1, e também o campeonato.

Uma santista como eu identifica-se com Feitiço além da conta. Torcedora, estou entre os poucos e loucos deste Brasil que às vezes parece vestir com gosto os velhos fardões. Habituamo-nos a um majoritário não-querer, ao deboche conservador dos outros, como se nada tivéssemos produzido no mundo do futebol a não ser o talento maior-que-a-vida do menino de Três Corações, como se não tivessem ostentado a camisa daquele que por pouco não foi o África Futebol Clube jogadores como Mengálvio, Pepe, Coutinho, Pagão, Zito, Pita, Toninho Guerreiro, Ailton Lira, Giovanni, Diego, Robinho, Gilmar, Feitiço e tantos. Como se Bob Marley um dia não houvesse vestido a camisa com o distintivo de duas estrelas amarelas.

Paulo Henrique Ganso deve intuir esta e outras razões históricas para a luta constante de todo santista. Mas este meia, o maior camisa 10 entre todos o que há hoje, “ouro”, segundo disse dele o insuspeito grande-jogador Sócrates, é, antes de tudo, um fleumático da bola. Um professor de 20 anos, articulado até a medula do pensamento e dos pés, entre a categoria de um Ademir da Guia, a raça e a liderança de um Gerson e a visão categoricamente habilidosa de Zico, com a sabedoria que Sócrates acrescentou ao futebol (e Ganso, como este, também quisera ser médico, coisa que o destino ainda não lhe provou). O que Ganso fez no domingo, dia 2 de maio, na final contra o Santo André, não tem preço.

Não falo, obviamente, do toque de letra que rendeu no chute no canto esquerdo do agudo Neymar, lance transformado em belíssimo segundo gol. Não falo tampouco de suas especiais características dentro de campo, maestro da visão, como não há igual neste futebol que hoje jogamos em toda parte. Nem mesmo à bola mandada por ele de longe com tal cálculo que algum comentarista de televisão, durante a transmissão do jogo, dela não se deu conta. O grande lance futebolístico, aliás, de toda a final em que perdemos por 3 a 2 e ganhamos o título paulista de 2010, foi, a meu ver, exatamente a bola que não entrou.

E não entrou quando o time perdera três de seus jogadores, um deles, Leo, expulso inadvertidamente quando lhe bastaria um cartão amarelo, a ele e ao valente Nunes, do Santo André, que batiam uma boca natural para as circunstâncias. Contra o time ótimo do ABC, que tinha Gil, Carlinhos ex-Santos e, principalmente, Branquinho, sacado graças a Deus do time pelo treinador Sergio Soares, Paulo Henrique Ganso sabia, em comunicação com outro moleque da raça, Arouca, não haver qualquer outra saída a não ser chamar para si a responsabilidade pela resolução das coisas.

Ele já dissera, até sorrindo, no intervalo para o segundo tempo, já perdendo o jogo, que ninguém tiraria o título do Santos, enquanto o comentarista de televisão Neto, lamentoso, pedia sua saída, de Neymar ou de Robinho, para que o Santos pudesse ser corretamente defendido. O boleiro Neto estaria certo, certíssimo, não fosse o futebol menos que uma ciência, além do cálculo, batalha numa guerra duradoura, viciante como a paixão e a religião.

No futebol, além disso, um mero juiz dá o tempero das coisas, e este Sálvio Spíndola, sabe-se lá por que escolhido para o embate, estava muito aquém de qualquer consideração técnica. Não só invalidou um gol para o Santo André como ignorou um claro pênalti sobre Arouca e deixou Neymar ser caçado em campo, um pouco à moda de Pelé diante dos portugueses de 1966, sem que faltas sobre ele fossem necessariamente atribuídas. Claro, entre outros pecados que cometeu.

E, finalmente, o momento do qual não esqueceremos neste jogo é aquele em que, como fez Feitiço diante do presidente de 1927, Ganso disse a seu técnico de 2010 que quem mandava no campo era ele, as duas mãos em direção ao próprio peito. Sofrido, cansado e solitário, peça de um time desvalido, ele contestou a ordem de Dorival Júnior para que saísse da partida no final do segundo tempo, em que mais um gol do Santo André selaria a derrota santista. Sabia que tudo seria decidido por ele lá na frente, chamando faltas, fazendo a bola render. Mande dizer ao senhor professor que este jogo é meu...

O técnico Dorival depois arrumaria as coisas, afirmando que só decidira por sua saída em função do visível cansaço do jogador, e que sua determinação de ficar só poderia ser considerada “louvável”, jamais uma mostra de insubordinação. Mas também são louváveis as insubordinações! A história está cheia delas, professor.

Curioso ver como Ganso trabalha historicamente, em sintonia com os grandes momentos do passado. Além de repetir Feitiço, reedita a atitude de Carlos Alberto Torres, Gerson e Pelé, que se impunham ao Zagallo de 1970 naturalmente. Mas Dorival, ao contrário do que ocorrera a Zagallo, usufruidor das escolhas de João Saldanha, realmente fez este time, trabalhou os talentos que o técnico anterior do Santos obscurecera. Até um soldado pode resolver uma batalha, sabe Dorival, o sobrinho do meia Dudu, astro sóbrio de um antigo e excelente Palmeiras.

O Santos não jogou bem? Não. Jogou maravilhosamente, com a raça, o espírito de luta do combatente. Espírito que um torcedor santista, ainda mais temeroso agora que seu time lutou até as últimas forças, espera ver ressurgido quarta-feira, dia 5, contra o Atlético Mineiro de Diego Tardelli. Seja o que deus quiser ou não quiser nesta Copa do Brasil.

Por enquanto, o que me diverte é imaginar Dunga, nosso técnico para a Copa do Mundo, diante desta celeuma. Ganso não cabe no seu time porque é maior do que ele. Que Ganso fique, então. Partam Gilberto Silva, Felipe Melo, Kleberson e o responsável Adriano para mais esta missão canarinho, resumida à sólida defesa aqui atrás e a todo ato de inspiração de Luís Fabiano e Império do Amor lá na frente. Tempo haverá para que ocupe o lugar de elite o futebol feiticeiro dos santistas.