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Brasiliana

Favor não confundir

por Rodrigo Martins publicado 15/02/2011 16h12, última modificação 17/02/2011 15h44
No maior bordel a céu aberto da América Latina, é preciso deixar claro onde não fica a prostituição
Favor não confundir

No maior bordel a céu aberto da América Latina, é preciso deixar claro onde não fica a prostituição. Texto e foto: Rodrigo Martins

Por detrás do muro cinza de mais de 3 metros de altura, uma rústica e espaçosa casa com 300 metros quadrados de área construída. O dobro do espaço é reservado para o quintal de terra batida, onde galinhas convivem harmoniosamente com o bonachão cachorro Rex, sempre espichado à sombra da pequena varanda. Cena corriqueira em qualquer cidade do interior paulista, até mesmo para a inchada Campinas e seus mais de 1 milhão de habitantes. Estranha, na verdade, a placa afixada na fachada da casa, a exemplo de outras tantas espalhadas pelo bairro: “Residência familiar”.
Para os moradores do Jardim Itatinga, a mensagem é necessária para distinguir certas coisas. “Como só existem casas de prostituição por aqui, eu preciso colocar esse alerta para me diferenciar da vizinhança e garantir a paz da minha família”, explica o motorista Aurílio Domingues da Silva, de 61 anos. A precaução não é excesso de zelo.
Apontado como uma das maiores zonas de meretrício a céu aberto da América Latina, o bairro abriga, há mais de 50 anos, dezenas, talvez centenas, de casas noturnas e bares frequentados por prostitutas. Os moradores mais antigos dizem que os inferninhos tomaram conta do lugar depois que, nos anos 60, as autoridades expulsaram as profissionais do centro de Campinas e do bairro Taquaral. Como resultado da política higienista, surgiu uma gigantesca vila periférica de libertinagem.
Hoje, em qualquer dia da semana, em qualquer hora do dia, é possível encontrar mulheres de microvestidos nas calçadas, à espera de clientes da cidade e de outros municípios da região, incluindo Jundiaí, Santa Bárbara, Limeira, Americana, Salto e Itu. “Isso daqui é a Hopi Hari dos homens. Eu sou a montanha-russa”, define uma esbelta morena curvilínea, em alusão ao popular parque de diversões existente na vizinha cidade de Vinhedo. O programa de meia hora custa 60 reais, quarto incluído. Tudo é combinado na rua, basta o carro diminuir a velocidade para a jovem de minissaia se aproximar.
Todo esse movimento , à luz dia, diante do vagar complacente de uma ou outra viatura de polícia, parece não incomodar o motorista Aurílio. O inferno são os outros. No caso, os forasteiros em busca de diversão. “Se eu não coloco essa placa na minha casa, ia ser um festival de marmanjo buzinando para a minha mulher, tocando a campainha de madrugada, dizendo besteiras para a minha filha de 15 anos”, lamenta. “Mas a placa está bem grande aí na frente, então o pessoal passa reto.”
Ele conta que conhece o bairro há 39 anos, quando começou a trabalhar numa lanchonete. Mudou de ramo, casou, teve filhos, mas não abandonou o Jardim Itatinga, atraído pelo baixo preço dos imóveis na região. “Naquela época, era muito mais barato comprar uma casa por aqui, cerca de um terço do valor do centro da cidade. Apenas de uns dez anos para cá, com a vinda de algumas indústrias e a expansão do aeroporto de Viracopos, mais famílias chegaram e os preços subiram.” O motorista vive há 15 anos com a mulher e dois filhos no mesmo casarão de muro cinza, a placa “Residência familiar” à mostra desde então. Mesmo assim, afirma, poucos são os trabalhadores dispostos a viver no meio da zona. “Também é difícil encontrar  casas adequadas. Que família compraria um imóvel com 15 banheiros?”, especula, ao lembrar que sua casa já abrigou um bordel no passado. Hoje, à disposição da família,- há --quatro banheiros. Um para cada morador.
Aurílio garante não enfrentar a oposição da mulher para viver no Jardim Itatinga. “Apesar da prostituição, é um lugar tranquilo. Nunca fomos roubados.” Quem sofre mesmo são os filhos adolescentes. Aurílio Júnior, de 12 anos, fica confinado em casa praticamente todo o tempo em que não está na escola. “Não conto para ninguém que moro aqui. Só tenho dois amigos do colégio que já vieram me visitar”, diz o garoto introspectivo, pouco antes de ser interrompido pelo pai. “Isso é o que me chateia. Minha filha tem 15 anos e ficou estigmatizada na escola quando descobriram que ela mora aqui. É um absurdo. Muita gente mora no Jardim Itatinga e não tem nada a ver com o que acontece nas ruas do bairro. Ela é uma menina séria, estuda pra valer, está na aula de informática agora.”
O antigo casarão do motorista não é o único a esclarecer em placas que ali mora uma família. Várias outras residências da vizinhança adotaram o mesmo expediente. Alguns moradores, diante do soar da campainha, olham ressabiados pela janela e não atendem à porta. Outros, sem esconder o constrangimento, respondem monossilabicamente. “O senhor me desculpe, mas é complicado ficar falando muito”, diz a dona de casa Lucielen Firmino, de 28 anos, ao lado do filho Rafael, de 7.
“Mesmo com a placa , tem muito homem abusado que assovia, fala besteira. Por isso até evito ficar muito na calçada. Quando isso acontece, eu xingo mesmo. Fala sério, não dá para enxergar essa placa?”, pergunta a mulher, apontando para a mensagem “Residência familiar” a ocupar metade do portão de metal. “Não vejo a hora de sair e criar meus filhos em outro lugar (além de Rafael, ela é mãe de uma criança de 2 anos). Estamos juntando dinheiro, mas é difícil.”
O marido, Alex Sandro, de 30 anos, pintor e eletricista, estranha a conversa na porta de casa quando chega do trabalho, de moto. Pede a credencial do repórter e, somente então, desabafa. “Eu tinha colocado um letreiro menor, bem ali. Mas não teve jeito, continuaram mexendo com a minha mulher. Depois, coloquei esse outro, maior. Estou pensando em pintar o muro inteiro.”
Além da falta de espaço para os filhos – a calçada só é ocupada pelos garotos sob a supervisão dos pais –, a principal queixa do casal é o estigma que o nome “Jardim Itatinga” carrega. “Se vou preencher um cadastro numa loja ou preciso informar meu endereço a alguém, sempre me olham de cima a baixo. Não falam nada, mas pensam. E tenho de esclarecer: moro lá, mas não sou puta”, comenta Lucielen. Outro problema é a barulheira dos bares e o movimento de carros pela madrugada, que tiram o sono de Alex. “Isso não é vida. Nem sei por que estou conversando contigo. É mais fácil as famílias saírem do que a prostituição. Aqui sempre foi assim.”

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