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Família de Jango quer ouvir agentes dos EUA sobre Operação Condor

por Marsílea Gombata publicado 11/02/2014 15h27, última modificação 11/02/2014 16h19
Filho de ex-presidente, João Vicente teme que exumação seja inconclusiva
Marsílea Gombata
 João Vicente Goulart

João Vicente Goulart, filho de Jango, durante o depoimento

Em meio a expectativas sobre os resultados da exumação do corpo de João Goulart, a família do ex-presidente pede uma oitiva dos agentes norte-americanos envolvidos na Operação Condor (aliança entre regimes ditatoriais na América do Sul para reprimir e eliminar opositores) que teriam relação com sua morte. Segundo João Vicente Goulart, filho de Jango, a exumação - solicitada pela Comissão Nacional da Verdade, Secretaria de Direitos Humanos e Ministério Público Federal do Rio Grande do Sul - é um dos meios para se chegar às circunstâncias verdadeiras em relação à morte de seu pai, mas não deve ser a único caminho.

“A exumação, dependendo do tipo de composto usado para matá-lo, e também devido ao tempo, pode trazer uma resposta inconclusiva. E essa é nossa preocupação. Quando apresentamos o pedido de investigação ao Ministério Público solicitamos também a oitiva dos agentes americanos que ainda vivem lá, assim como a desclassificação de documentos do Departamento de Estado dos EUA sobre o monitoramento do presidente no exílio”, explicou nesta terça-feira 11 o filho do presidente deposto pelo golpe militar de 1964. “Exigimos que o Ministério Público abra essa ação cautelar para podermos fazer essas oitivas, até porque essas pessoas já estão com certa idade e daqui a pouco podem não estar mais vivas.”

Segundo João Vicente, que prestou depoimento à Comissão da Verdade Vladimir Herzog, da Câmara Municipal de São Paulo, ao pedir a oitiva com os agentes, o Brasil se colocará de forma soberana, a exemplo de países como o Chile, que solicitou pelo Judiciário investigações sobre a morte do presidente Frei Montalva e, e mesmo a Espanha, que através do juiz Baltasar Garzón pediu informações sobre o desaparecimento de espanhóis pela ditadura argentina. “Não queremos que a exumação seja apenas uma resposta à opinião publica, mas que as nossas autoridades tenham a suficiente independência de pedir ao governo americano essas oitivas", ressaltou.

Diretor do Instituto Presidente João Goulart, João Vicente contou que não são poucas as evidências de que seu pai foi monitorado e, posteriormente, assassinado. Além do esclarecedor depoimento do agente uruguaio Mário Neira Barreto de que Jango fora envenenado, há documentos de um “agente B” que teria entrado em sua casa no exílio no Uruguai para roubar cartas trocadas com o ex-presidente Juscelino Kubitschek e com o deputado Ulysses Guimarães, além de fotos tiradas pelo Serviço Nacional de Informações (SNI) no aniversário do presidente deposto.

O monitoramento de seu pai no exílio, no entanto, se intensificou depois da Frente Ampla – grupo político que reunia Jango, JK e Carlos Lacerda. Com a vitória de Jimmy Carter nos EUA, muitos temiam que figuras como Jango, JK e o chileno Orlando Letelier “influenciassem seriamente a estabilidade do Cone Sul” ganhando apoio contra os regimes militares, como comprova a carta enviada no dia 28 de agosto de 1975 pelo chefe do serviço de inteligência de Augusto Pinochet, o coronel Manuel Contreras Sepulveda, para João Baptista Figueiredo. JK morreria em 22 de agosto do ano seguinte, Letelier em 21 de setembro, e Jango em 6 de dezembro do mesmo ano. À época da sua morte, Jango mantinha reuniões com outros exilados, chegou a se encontrar com JK na Europa e falava em voltar ao Brasil.

A versão oficial é que Jango tenha morrido de problemas cardíacos. O resultado da exumação, segundo João Vicente, pode demorar de seis meses a um ano.