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Falta de liderança

por Socrates — publicado 11/11/2011 08h30, última modificação 06/06/2015 18h15
O Corinthians de hoje não tem referência. Não tem quem dirija seus passos, não tem quem cobre sua postura
Corinthians

Corinthians. Foto: Agência Brasil

Como é que pode sobreviver uma equipe sem líder, sem comando? É o que percebemos no atual time do Corinthians. Outro dia, depois de uma substituição, notamos uma reordenação na colocação dos zagueiros que me pareceu incoerente com tudo aquilo que tínhamos visto até ali. Não demorou nem um minuto para que a formação anterior se restaurasse sem que tivesse sido orientada pelo banco de reservas. Um claro caso de iniciativa (positiva) de quem estava em campo que, porém, não foi assumida por ninguém. Muito menos pelo capitão da equipe, que me parece, além de ser tecnicamente um dos jogadores mais discretos da equipe, não possuir ascendência sobre os demais e muito menos um caráter adequado para tal.

O Corinthians de hoje não tem referência. Não tem quem dirija seus passos, não tem quem cobre sua postura. É um time muitas vezes sem alma, sem vontade de vencer; acomodado naquilo que já fez e sem coragem de buscar mais e melhor. E de uma tristeza que volta e meia se apresenta, para desespero de seus integrantes.

Ora, não dá para fazer arte sem alegria, sem liberdade, sem prazer extremo. Quando o sentimento é esse, melhor nem tentar. Mas, em futebol, não dá para escapar ou fugir dos compromissos, não dá para marcar hora ou esperar que a inspiração se apresente. É necessário estar sempre pronto para realizar aquilo a que se propôs sem pestanejar, sem ter a mínima dúvida de que pode e deve fazê-lo. E, pior, com o agravante de trabalhar com o público, que, principalmente no caso corintiano, cobra, e muito, a postura da equipe e os resultados decorrentes. Uma verdadeira pedreira que não é para qualquer um. O que é definitivo e absolutamente fundamental é que exista um líder que assuma essa responsabilidade.

Há vários tipos ou arremedos  de liderança. A que menos funciona é aquela induzida, extemporânea, que tenta fazer com que alguém sem o mínimo de tendência para essa função se apresente para fazer esse papel. É a escolhida de cima para baixo, sem se dar conta de que a liderança é um cargo de confiança determinado pelos liderados e jamais uma imposição. É claro que, em futebol, esse exemplo se repete sempre que se contrata um treinador. O que nem sempre ocorre é uma resposta coerente com o que se espera por parte dos jogadores que comanda. O que não é possível acontecer é a escolha de um capitão de equipe que não represente seu papel em campo, que não seja respeitadocomodeveria por seus companheiros.

Tudo isso depende da forma e do contexto em que ele está inserido. Esse comandante contratado, o mais das vezes, não consegue se tornar um líder. Sendo ali colocado por uma decisão de terceiros, geralmente cria conflitos com quem trabalha. No mínimo, jamais será uma unanimidade. Sempre haverá quem se ache desprezado ou menosprezado por ele. Muito pior é se o treinador acreditar que é mais importante do que qualquer dos seus jogadores. Então, para ser aceito ainda que temporariamente por seus comandados, ele se transfigura em algo que não é, o que é facilmente percebido pelos demais, mesmo que ele próprio não perceba. Essa realidade nesse meio é mais tendência do que se pode imaginar.

Um líder de verdade deve ser ouvinte, não falante; deve ser cordato e assumir todas as responsabilidades maiores, ser aquele que bate o pênalti no último minuto e que briga pelo coletivo e nunca por ganhos pessoais. O líder autêntico tem de ser o melhor, o exemplo; o que protege seus liderados, que enfrenta as dificuldades resguardando os demais. Jamais foge das responsabilidades tentando transferi-las e suporta toda e qualquer crítica que se faça ao ambiente em que está inserido. Deve ser o esteio, afortalezaonde os outros podem se sentir seguros e protegidos. Deve encaminhar o time para o lugar correto, que lhes ofereça mais possibilidades de sucesso, e exigir posturas compatíveis com a expectativa de todos. Deve respeitar as diferenças e muitas vezes estimulá-las e torná-las de conhecimento solidário, para que as potencialidades possam emergir sem limitações.

Um líder não pode ser fraco ou omisso, não pode ser negligente nem apresentar imperícia naquilo que faz. Não pode deixar que as coisas andem sem o seu dedo demarcando o caminho a seguir. Não pode ser um impostor tirano, que agride, oprime e destrói aqueles que devem ser tratados com carinho e afeto para que possam ter desempenhos adequados, para que um time chegue à vitória final. Por fim, cuidado com os falsos líderes. Eles são um perigo. •

 

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