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EUA buscaram brecha para derrubar Jango antes de 1964

por Marsílea Gombata publicado 12/02/2014 14h23, última modificação 12/02/2014 14h45
Documentos da CIA mostram preocupação da inteligência americana com não alinhamento da política externa do governo João Goulart
Reprodução
revista cia jango.png

Revista circulava entre agentes de inteligência

Documentos confidenciais da CIA (agência central de inteligência americana) revelam que o governo americano monitorava os desdobramentos da política brasileira e buscava uma brecha para derrubar o então presidente João Goulart antes do golpe de 1964.

Segundo o texto de 17 de agosto de 1962, divulgado na publicação Current Intelligence Weekly Review, da CIA, "intensas manobras políticas continuam em Brasília enquanto o regime esquerdista de Goulart tenta aumentar seu poder vis-a-vis o Congresso conservador”. O informe dizia ainda que “muitos moderados no meio político e círculos militares desgostam do sistema parlamentar, mas não parecem dispostos a restaurar a presidência por causa das tendências de esquerda do presidente Goulart e do primeiro-ministro Francisco Brochado da Rocha”.

A preocupação com a tendência de esquerda do governo João Goulart era tamanha que autoridades americanas nutriam esperanças de que o então governador da Guanabara, Carlos Lacerda, conseguisse apoio suficiente para fazer frente a Jango. “(...) governador da Guanabara, Lacerda, que lidera o movimento anticomunista no Brasil, está inclinado a apoiar a restauração de poderes da presidência, exceto em relação aos gabinetes individuais de ministros, que poderiam continuar responsáveis pelo Parlamento."

O texto, que está disponível na biblioteca online da CIA, mostra a atenção da inteligência americana em relação a uma chamada "preocupação inusual" de Jango em relação à economia. “Ao mesmo tempo, Goulart - que tem pouco conhecimento ou interesse em economia - parece estar preocupado com a situação financeira crítica do Brasil”, ressalta o informe antes de avaliar: “o custo de vida, que cresceu 18% no Rio de Janeiro nas primeiras seis semanas de 1962, aumentou mais de 37% no mesmo período em Salvador, capital da Bahia e uma cidade chave para o empobrecido nordeste.”

Não alinhamento. O documento, mantido sob sigilo até maio de 2011, mostra preocupação também em relação a novas “movimentações” em relação à política externa “independente” do governo do presidente deposto pelo golpe militar de 1964.

"O ministro do Comércio Exterior da Alemanha Oriental [Julius] Balkow - o primeiro alto oficial da Alemanha Oriental a visitar o continente americano - recentemente visitou o Brasil em resposta a um convite oficial para a abertura das três semanas de exibição industrial da Alemanha Oriental em São Paulo. A Polônia, no fim de julho, abriu um novo consulado em Porto Alegre, capital do estado do Rio Grande do Sul, onde o cunhado de Goulart, Leonel Brizola, é governador.”

Ainda nesse sentido, o relato mostra preocupação em relação ao acordos comerciais do Brasil com a União Soviética, como fica claro no trecho: “O ministro da Aeronáutica brasileiro informou no dia 30 de julho à missão soviética no Brasil que estaria interessado em adquirir um total de três helicópteros. Essa é uma indicação adicional de que o Brasil pode estar indo em direção a uma cooperação com a União Soviética no campo da aviação civil.”

Filho do ex-presidente morto em dezembro de 1976, João Vicente não se recorda de comentários de seu pai a respeito de qualquer monitoramento feito pelos Estados Unidos, mas lembra que o desde 1963 o Ibad (Instituto Brasileiro de Ação Democrática) fornecia material impresso, apoio operacional e dinheiro a candidatos a governador, deputados e senadores anticomunistas e contrários a João Goulart. Através de empresas como Texaco, Esso, Coca-Cola, Bayer e IBM, o dinheiro dos EUA ajudou a eleger ainda mais de 150 deputados na Câmara que fizeram frente ao governo Jango.

“Um ano antes do golpe já se sabia da presença, através da embaixada americana, da circulação de dólares e também da compra de redações de jornal. Entre 1962 e 1964 o Ibad financiou mais de 200 filmetes de propaganda contra o governo João Goulart”, explica João Vicente. “E temos ainda gravações da Casa Branca que mostram o Kennedy, antes mesmo do (Lyndon) Johnson, falando com o (então embaixador norte-americano no Brasil) Lincoln Gordon: ‘Pô, mas estamos acusando o Jango de comunismo, e o Partido Comunista no Brasil é incipiente’. Ao que Johnson responde: ‘Não importa, agora já está montado e ele vai ser acusado da mesma forma’.”