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Estado de agonia

por Rafael Nardini — publicado 14/10/2013 15h24
Sem definição sobre o futuro do Hospital Glória, em SP, médicos e funcionários cruzam os braços em protesto contra cortes de recursos e demissões
Rafael Nardini
Hospital Glória

Funcionários do Hospital Glória cruzam os braços em protesto contra corte de recursos e demissões

Funcionários do Hospital Glória, na Liberdade, região de São Paulo, cruzaram os braços nesta segunda-feira 14 em protesto contra a diminuição de recursos, demissões sequenciais de funcionários e o fechamento da unidade, previsto para dezembro deste ano.

De acordo com informações obtidas por CartaCapital, a Sociedade Assistencial Bandeirantes, mantenedora do hospital que opera dentro da chamada rede terceirizada, deixará de administrar a unidade que atende exclusivamente aos pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS). O fechamento será feito de forma gradativa dentro dos próximos dois meses e meio.

As transferências dos pacientes internados ainda não foram definidas, mas seguirão a determinação da Secretaria Municipal de Saúde (SMS).

Dentro de todo este cenário, quem tinha retorno marcado para esta manhã acabou sem atendimento. O gráfico Luciano Pereira Dias, de 36 anos, foi um deles. Ele passou por uma operação no fêmur esquerdo no dia 26 de setembro e deveria retirar os pontos pela manhã. “Já me disseram que nem plano de saúde nem hospitais públicos pode dar prosseguimento ao processo cirúrgico porque precisam do meu laudo médico”.

Situação parecida aconteceu com a cobradora de ônibus Raquel Siqueira Fernandes, de 51 anos. Operada no último dia 31 de maio, ela segue afastada do trabalho e reclama que seu pé esquerdo está inflamado.

“Ninguém passa informação alguma e todo mundo acaba sem saber para onde ir”, conta.

A auxiliar de serviços gerais Eva Soares Falcão, de 56 anos, conta que uma jovem tomou sua bengala, usada justamente em seu período pós-operatório, e tentou atacar um segurança do hospital. “Essa bengala que está comigo não é a minha. Essa aqui é levinha, fraca”.

A falta de atendimento no Hospital Glória é fruto de um impasse entre a administração municipal e a instituição filantrópica Sociedade Assistencial Bandeirantes, que se arrasta desde o começo do ano.

Enquanto a secretaria afirma que a entidade parceira não cumpriu as chamadas metas físicas - consultas de especialidades e internações clínicas e hospitalares - em pelo menos cinco meses do ano passado, a responsável pela unidade, por sua vez, aponta que o desativamento “atende às novas diretrizes” da gestão paulistana.

Segundo um convênio firmado pelo SUS, o descumprimento das metas gerou uma grave diminuição nos repasses. No ano passado, de acordo com a secretaria da capital, foram repassados exatos 24.978.261,62 reais referentes aos serviços ambulatoriais e de internações de média e alta complexidade prestados.

Em 2013, os números caíram drasticamente. Foram repassados 8.342.631,97 reais correspondentes aos procedimentos de média e alta complexidade prestados até agosto e outros 4.743.722,80 reais para cobrir os procedimentos financiados pelo Fundo de Ações Estratégicas e de Compensação (FAEC) até julho.

Nos dois últimos anos, a instituição manteve média mensal de 600 internações, segundo dados divulgados pela prefeitura. Os atendimentos ambulatoriais ao mês, no entanto, caíram de 24.788 em 2012 para 21.760, entre janeiro e agosto.

Sem a confirmação do que pode acontecer com a unidade, os trabalhadores decidiram cruzar os braços.

“Sem o nosso atendimento, outros hospitais da cidade acabarão sobrecarregados nos serviços de ortopedia”, conta a médica Adriana Brito. André Cedroni, que chefia o pronto-socorro e atua como plantonista há 15 anos no Glória. Ela é uma das líderes da iniciativa. “Tenho quatro filhos. Médico ganha por atendimento, não tem um contrato. Se eu não atendo, eu não recebo. O maior dos problemas é essa indefinição do que vai acontecer. A administração não se manifesta.”

Ele afirma que o quadro de funcionários vem sofrendo cortes cada vez maiores. “Lá dentro temos apenas o suficiente para cuidar dos pacientes internados.”

Fundado em 24 de maio de 1999, o Hospital Glória realiza 400 atendimentos ambulatoriais diários em média. Cerca de 95% dos pacientes atendidos passam por especialistas em traumatologia e ortopedia. São realizadas até 700 cirurgias traumato-ortopédicas ao mês. Exames como endoscopia e ultrassonografia também são outros oferecidos com boa regularidade. Só não se sabe até quando.