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Esperado e justo

por Socrates — publicado 27/07/2010 12h26, última modificação 27/07/2010 12h51
Iniesta, o craque espanhol, é um símbolo do coletivismo. Joga para o time, jamais busca o protagonismo. Um verdadeiro homem de equipe
Craque da espanha

Iniesta é um símbolo do coletivismo. Joga para o time, jamais busca o protagonismo. Um verdadeiro homem de equipe. Por Sócrates. Foto: AFP

Na final da copa, durante o tempo regulamentar, encontramos tudo o que o futebol contemporâneo infelizmente costuma nos apresentar: um jogo truncado, violento, com excesso de faltas, contato e reclamações, pouco interesse pelo espetáculo, poucas chances de gol, todas perdidas — algumas, de maneira bisonha. Um medo absurdo, das duas equipes, de perder e, por consequência, de ganhar.

O melhor futebol da Espanha não se traduziu em vantagem nem mesmo territorial. Pior foi o comportamento da Holanda, que abdicou de tentar enfrentar de igual para igual — e poderia, sem dúvida — o oponente. O time de laranja, no entanto, teve mais e melhores possibilidades de definir a partida e o título.

O gol perdido por Robben ao chutar nos pés do goleiro Cassilas foi característico de quem não tinha se preparado para decidir, mas, sim, para esperar um acidente de percurso e chegar à vitória. Ele que muitas vezes nessa temporada foi fundamental para o seu time na liga nacional e na dos campeões da Europa.

Na prorrogação, só deu a Espanha, que poderia ter feito mais de um gol – o único que saiu deu com justiça o título aos espanhóis. Algo mais que esperado para quem gosta do bonito futebol dessa seleção nos últimos anos.

Homem de equipe - E o gol do título caiu muito bem no colo de Iniesta, o meia do Barcelona e da seleção espanhola. E digo o por quê. No futebol atual, a estrutura coletiva é fundamental para que uma equipe se torne diferente, especial, incomparável. Precisa, é claro, de jogadores que façam a diferença quando a chance se apresenta como necessária para transformar um equilíbrio em vantagem para determinada equipe. O coletivismo é, porém, muito mais importante.

Quando um time se apoia em determinado jogador, apostando em seu desempenho para suplantar algum adversário, se torna absolutamente dependente do mesmo. E nunca é bom ser escravo de um único patrão ou ter em um único cliente a origem de boa parcela do faturamento de uma empresa. Exatamente porque, quando da falta deste, a estrutura toda se fragiliza, quando não sucumbe.

Iniesta é um símbolo do coletivismo. Joga para o time, se desloca para todas as posições — muitas vezes é quase um ponta-esquerda. Seus toques são sempre para preservar o domínio da bola, mesmo que seja para começar de novo uma jogada e, melhor, jamais busca para si o protagonismo. Um -verdadeiro homem de equipe, tão fundamental em qualquer estrutura social. Uma raridade que merece ser presenteada.

Lembrança - Na final do campeonato paulista em que o Santos se tornou campeão, eu declarava: “O Santo André foi mais time nos dois jogos finais, mas não levou porque não merecia. Não merecia mesmo, pois do outro lado estava a equipe que devolveu o prazer de ver futebol como brasileiro.

Brasileiro que tem na alma criatividade, alegria, talento e até insolência, como os meninos nos mostraram. E tudo isso é prazer. Santos que provocou até um arranjo para lá de nacional do hino deste nosso país, que é muito mais que um território, é um nascedouro de gênios como este gênio que é o brilhante maestro João Carlos Martins. Um jogo de futebol que depois do que nos foi apresentado por sua filarmônica nem sequer precisaria ter sido realizado. Mas foi!

E o jogo manteve o mesmo nível dos acordes e da harmonia idealizada pelo maestro. E mostrou a quem tem tino especial o maior jogador de futebol deste país, desde geniais Pelés, Garrinchas, Gersons, Ademires e Tostões. E seu apelido é Ganso, quando deveria ser Leão. Não como os animais que só sabem rugir contra os infelizes, negros, pobres e afins, até porque suas maiores medidas são racismo e machismo sem ser exatamente aquilo que vocês imaginam.

Este Leão, não! Este é macho na acepção da palavra. Ganhou o título e ganhou o coração de quem acredita, ainda que só um pouco, no ser humano. Constrangeu seu técnico, mas certamente construiu um dos mais belos contos da história do nosso futebol. Se Dunga não o levar à Copa depois dessa partida, só pode ser por cegueira, ciúme ou, pior, raiva... da beleza”.

E não é que o treinador da Seleção optou por não levá-lo à Copa? Lembrou-me do esquecimento de Falcão no Mundial da Argentina de 1978. O técnico Claudio Coutinho alguns meses depois afirmou que aquele talvez tenha sido o seu grande erro durante a convocação. Uma postura que mereceu o aplauso de todos os que gostam de futebol como o do grande Paulo Roberto Falcão.