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Sociedade

Casamento real

Era uma vez, há 30 anos...

por Carlos Leonam e Ana Maria Badaró — publicado 29/04/2011 09h08, última modificação 29/04/2011 14h23
Este é o texto que Carlos Leonam escreveu sobre as núpcias de Lady Diana Spencer e Príncipe Charles, como enviado especial do jornal O Globo, em 1981. Aquele conto de fadas se transformou em tragédia, esperemos que o mesmo não aconteça com Kate Middleton e William

“O importante no casamento não é a noiva ou o noivo.
É o próprio casamento.”
(Nelson Rodrigues - O Casamento)
Ali do lado de fora da Catedral de São Paulo, aguardando que as portas se abrissem, às nove horas, nobres e plebeus se confundiam, em sua ansiedade pelo momento em que Charles Phillip Arthur George, Príncipe de Gales e futuro Rei da Inglaterra, se casaria com Lady Diana Frances Spencer - acontecimento impossível, nos séculos XVIII e XIX, por duas razões: os Spencers desempenham um papel importante na vida política do país e (apesar de a noiva ser descendente de três reis da Inglaterra) a tradição de a realeza só casar com a realeza ainda continua  de pé.

Dentro da catedral tudo estava pronto para a cerimônia, mas alguns operários de jeans e t-shirts ainda procuravam retocar aquilo que já parecia o cenário perfeito para um acontecimento aparentemente sem mais lugar neste século. O Deão da Catedral de São Paulo, Reverendo Alan Webster, cravo na lapela, ia de um lado para outro, cumprimentando seus conhecidos e até mesmo a imprensa credenciada, que estava num lugar considerado por ele como “de pouca visibilidade”.

Mais distantes, discretas como convém, modernas Florence Nightingales escondiam duas macas, enquanto alguns doutores circunspectos conferiam seus instrumentos: eram as equipes médicas de emergência.  Temia-se, por exemplo, que o Conde de Spencer, pai de Diana, cardíaco, pudesse passar mal, pela emoção de levar sua filha ao altar, para se tornar Princesa e futura Rainha da Inglaterra.

Precisamente, como rezava o cerimonial, entra a procissão eclesiástica, em que se destacavam as crianças das capelas reais da Rainha e os meninos do coro, responsáveis, mais tarde, por alguns dos mais belos momentos de um dia inesquecível.

E chamavam a atenção de todos, principalmente, representantes de outras igrejas, entre eles o Arcebispo católico de Westminster, Basil Hume, o primeiro Cardeal a participar de uma cerimônia da monarquia inglesa, desde que Henrique VIII brigou com Roma e fundou a Igreja Anglicana.  Naquele momento, três minutos fora do protocolo, chegava também a seu lugar a mãe da noiva, divorciada do Conde de Spencer, Mrs. Shand Kydd, muito elegante no vestido azul criado por Bellville Sasson.

Enquanto a mãe de Lady Di se ajoelhava e fazia uma rápida oração a procissão das cabeças coroadas ainda no trono entrava na Catedral de São Paulo.  Embora o lugar principal coubesse aos Reis da Bélgica, não há dúvida de que o desfile de reis, rainhas, príncipes, princesas e grão-duques era fechado por dois dos personagens mais populares do dia: a ex-atriz e Princesa Grace de Mônaco e seu filho, o Príncipe Albert.

Desta vez, a licença para a Rainha entrar na City, tradicionalmente concedida pelo Prefeito de Londres, foi dada no alto das escadarias da catedral.  Mas a Rainha Elizabeth II e o Duque de Edimburgo, seu marido, não foram pontuais, já que saltaram de sua carruagem às 10h45m, ou seja, com três minutos de atraso.  No cortejo real, percebia-se que a Rainha-Mãe Elizabeth, avó de Charles, estava bem disposta.  Que a Princesa Margareth, tia dele, fazendo-se acompanhar pelo filho, Visconde de Linley, não parecia muito feliz, e a Princesa Anne, tendo ao lado o marido, Capitão Mark Phillips, usava um chapéu de gosto discutível, criado por John Boyd - bem de acordo com o estilo de vestir das mulheres da família real britânica.

10h50m: É o que se pode chamar de pontualidade britânica. O Príncipe Charles chega à igreja escoltado por um de seus escudeiros, seu irmão, o Príncipe Andrew, ambos vestindo uniformes de oficiais de Marinha.  Edward, o outro escudeiro, que aguardava os irmãos numa das capelas da catedral, incorpora-se ao cortejo.  Tirando seu quepe, Charles passa a mão nos cabelos, para arrumá-los; depois, um lenço no rosto, (o calor estava mesmo de lascar).  Cumprimenta algumas pessoas, sorri para outras, não parece nervoso como qualquer noivo plebeu.  Quando os três irmãos se aproximam do altar, seu pai, o Príncipe Phillip, diz alguma coisa à sua sogra, a Rainha-Mãe, que sorri e consulta o livreto do cerimonial.

10h55m: Lady Di e seu pai descem da carruagem.  Como toda noiva, ela está atrasada.  Mas apenas um minuto.  Diana revela uma aparência etérea, com o vestido dando-lhe aquele ar de pureza e inocência que se espera de uma noiva no dia de seu casamento. A população em frente à catedral grita de entusiasmo, os corneteiros da cavalaria a saúdam com uma espetacular fanfarra, mas Diana, o Conde de Spencer, as damas de companhia, os pajens e todo o cortejo ainda levam três minutos para aparecer:  a cauda e o véu da noiva se prendem na passarela da escadaria.  Às 11 em ponto, porém, como mandava o cerimonial, o cortejo da noiva entra pela nave principal.  Duas repórteres francesas torcem o nariz para o vestido concebido por Emanuel de Brook Street.  Uma americana diz que o falso divulgado na véspera, parecia mais bonito, “pelo menos no croquis”. Começa então a cerimônia religiosa.  Todos cantam, contritos, o hino com palavras escritas no Século VII e musicado por Henry Purcell, no Século XVII - a Rainha, seu consorte, os demais membros da família real e até mesmo o Conde de Spencer, agora um pouco mais calmo.  Depois do pequeno e belo sermão do Deão de São Paulo, o Arcebispo de Canterbury, Reverendo Robert Runcle, segue o ritual (quase idêntico ao da Igreja Católica) e oficia o casamento.  As 11h15m pergunta a Charles Phillip Arthur George se ele promete viver pelo resto da vida com Diana Frances.  O Príncipe de Gales diz, sério:- I will.

Repete o ritual com a noiva e ela responde, em vozinha quase infantil:

- I will.

Dois minutos depois, eles estão casados e o Conde de Spencer deixa a filha com Charles, para sempre. Emocionado, tropeça mais uma vez, sendo ajudado por um dos filhos.

Após a leitura da Epístola de São Paulo aos Coríntios, pelo speaker da Câmara dos Comuns, George Thomas, M.P., o Arcebispo de Canterbury fala aos noivos.  Um sermão simples, curto, com os princípios e ensinamentos cristãos.  Segue-se a antífona, com música de Party, bela, altissonante, e não menos emocionante. Depois, todos se ajoelham, nobres e plebeus, e começam as orações. É um momento de devoção e de importância também histórica: O Cardeal Hume faz, em intenção de Charles e Diana, uma oração especial, do mesmo modo que o Reverendo Lorde Coggan e o Moderador da Igreja Escocesa.

Charles e Diana já estão casados. São instantes finais de alegria em que até a Rainha apanha o livreto do serviço religioso, para cantar com os demais.  Depois os noivos e seus parentes saem para assinar as certidões de casamento.  Sentados nas cadeiras principais, ficam apenas Margareth Rose, seu filho, o Visconde de Linley, o Capitão Mark Phillips e os irmãos de Diana, além de sua avó.  O soprano Kirl Te Kanava canta uma ária de Sansão, de Handel (diga-se que o mau gosto da roupa da divina cantora deve ter causado inveja à Princesa Anne).  Então, aos dois minutos do meio-dia, 29 de julho do ano da graça de 1981, o futuro Rei da Inglaterra e a Princesa Diana deixam a Catedral de São Paulo como marido e mulher.

O escritor brasileiro Caio de Freitas, que viveu muitos anos na Inglaterra, dizia que “um canal separa o mundo”.  Na verdade, para um brasileiro, e talvez para os outros povos, a monarquia inglesa representa hoje, o último símbolo britânico que parece imutável.  Este casamento é uma prova disso. (1981)

Modus in rebus,

Membro do Parlamento.

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