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Empresas de alimentos ignoram a fome em suas cadeias de fornecedores, denuncia ONG

por Gabriel Bonis publicado 28/02/2013 16h38, última modificação 28/02/2013 17h37
Estudo de ONG mostra que companhias sequer sabem que parte das matérias-primas de seus produtos vem de terras com conflitos agrários

Um estudo da ONG britânica Oxfam (leia AQUI) divulgado nesta semana mostra que as dez maiores empresas do setor de alimentação e bebidas do mundo não adotam políticas adequadas para eliminar a fome e a pobreza em sua própria cadeia de fornecedores. Outro dado alarmante apresentado pelo relatório é que as companhias pagam baixos preços pelos produtos e ignoram, ou sequer sabem, que parte das matérias-primas de seus produtos vem de terras tomadas de forma conflituosa de pequenos agricultores em países pobres.

 

A Oxfam analisou, por meio de dados públicos e oficiais, as políticas sociais e ambientais das empresas Associated British Foods (ABF), Coca-Cola, Danone, General Mills, Kellogg, Mars, Mondelez International (antiga Kraft Foods), Nestlé, PepsiCo e Unilever. Juntas, elas geram mais de 1,1 bilhão de dólares por dia. “Não saber com detalhes se compram de lugares com conflitos agrários é tão ruim quanto não buscar entender esse tipo de problema”, defende Rafael Cruz, assessor de políticas públicas da Oxfam, a CartaCapital.

Em um mercado com 7 bilhões de consumidores e 1,5 bilhão de produtores de alimentos, o setor está avaliado em 7 trilhões de dólares, ou 10% da economia global. E o poder destas empresas é ainda maior, pois pouco mais de 500 delas controlam 70% das opções presentes nos supermercados. Uma concentração que dificulta o rastreamento pelos consumidores de quem são os produtores, além de diminuir a capacidade de barganha dos pequenos agricultores que têm um leque menor de compradores.

Mesmo com o poderio financeiro, todas as empresas tiveram notas abaixo de 40, dos 70 pontos possíveis no relatório. Unilever e Nestlé tiveram melhor desempenho, enquanto ABF e Kellogg foram as últimas colocadas.

Os programas implementados pelas empresas foram considerados centrados em projetos de redução do uso da água e capacitação de mulheres agricultoras, sem que sejam efetivos para diminuir a fome e pobreza. “Essas empresas podem resolver a fome e a pobreza em suas cadeias de fornecimento com pagamentos de salários adequados aos trabalhadores, preço justo para os agricultores e avaliação e eliminação da exploração abusiva da terra, da água e do trabalho são medidas que definitivamente estão ao alcance dessas poderosíssimas empresas”, diz o estudo.

     

Demanda por terra

A disputa por terra que o mundo observa hoje tem suas raízes no aumento da popularidade de novas marcas no século XX. Neste período houve um impulso para aumentar a produção de matéria-prima em antigas colônias. O Reino Unido, por exemplo, usou a Índia para produzir chá e plantou cana-de-açúcar no Caribe.

Neste processo, muitas terras foram concedidas de maneira contestável para as plantações, quase sempre excluindo os mais pobres do acesso à terra. Uma prática que ainda gera conflitos sobre a titularidade destas áreas após a independência das colônias.

À parte o efeito colonizatório, os arrendamentos e vendas de terra são importantes no setor. Segundo a Oxfam, desde 2000 foram registrados mais de 900 acordos por grandes propriedades rurais. A maioria ocorreu em 32 países com níveis “alarmantes” ou “graves” de fome. “Mais de 60% dos investidores em terra são estrangeiros que pretendem exportar tudo que produzem”, indica o documento. “Apenas entre 2008 e 2009, os acordos com terra agrícola envolvendo investidores estrangeiros nos países em desenvolvimento aumentaram cerca de 200%.”

A busca por terra leva à procura por água, cuja escassez já afeta quase 20% da população mundial. E a agricultura é o setor que mais consome isoladamente água doce no mundo. A área também é responsável por 54% dos contaminantes orgânicos da água.

Outro problema são as condições de trabalho no setor. Mesmo com leis mais rígidas, há registros de casos de exploração de mão de obra. O estudo destaca famílias que por gerações plantam chá em grandes propriedades do Sri Lanka, recebendo baixos salários e com altas taxas de desnutrição. Desde a década de 1890, a Unilever mantém e comercializa terras na região.

A Nestlé também é apontada como relapsa ao trabalho escravo. Em novembro de 2011, a empresa disse não ter informação sobre os trabalhadores envolvidos na produção de 20% do cacau que compra da Costa do Marfim. Precisou descobrir diversos casos de exploração adulta e infantil para desenvolver um plano contra o problema. “Sem conhecer a própria cadeia de fornecedores, não é possível criar políticas para ajudar os trabalhadores dela”, explica Cruz.

Segundo Cruz, as empresas devem trabalhar para melhorar a qualidade de vida de seus funcionários, mas também dos fornecedores. O primeiro passo para isso, diz o assessor da Oxfam, é começar a fazer contratos mais justos com esses fornecedores. Essa política acarretaria mais custos, mas cujo impacto não seria tão grande para as grandes companhias. “Será que os 80% que passam fome no campo têm que assumir esse custo ou os que lucram mais de 1 bilhão de dólares por dia?”, questiona.

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