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Sociedade

‘Água gourmet’ é lançada com champanhe e sem água

por Wanderley Preite Sobrinho — publicado 13/12/2014 09h26, última modificação 13/12/2014 09h47
Sem amostra da água retirada do ar da Amazônia, sócios do empreendimento lançaram o conceito do produto na noite de terça com vinho, uísque e vodca
cobertura bar the view

Sem água "premium", convidados admiram vista panorâmica em festa na cobertura regada a uísque, champanhe e canapés

Sem nome na lista não entra. A frase foi a mais ouvida na noite de terça-feira (9) por quem tentou jantar na cobertura de um dos prédios mais altos da Avenida Paulista, onde funciona o bar The View, conhecido – como sugere o nome em inglês – pela vista deslumbrante da capital paulista. A razão era simples. Todo o andar foi reservado para o lançamento do conceito de um dos produtos nacionais mais polêmicos do ano: a água gourmet, retirada do ar da Amazônia, engarrafada e vendida por módicos 21 reais.

Marcado para começar às 20h, o coquetel para 155 pessoas estava lotado às 21h. Recebidos no térreo, os convidados embarcavam em um elevador exclusivo acompanhados de uma hostess, que os introduziam à cobertura depois de uma viagem sem parada pelos 30 andares do edifício.

Antes de pisar no bar, uma pausa para foto diante de um painel com o logotipo da marca: Ô Amazon Air Water. Esse é o nome da água a ser engarrafada em junho do ano que vem, quando o primeiro lote desembarca no porto de Roterdã (Holanda). Embrulhada com o selo de sustentabilidade, a água gourmet destinará 95% de sua “safra” para o mercado de luxo europeu.

Os quatro empresários da água para “paladares sensíveis” esperam envazar 60 milhões de garrafas até 2022 ao lucro de 100 milhões de euros. “É como um ar condicionado: o ar é atraído, bate em uma serpentina congelada, resfria e a água pinga”, descreve Cal Júnior, principal sócio e dono da ideia.

A Festa
Convidados circulam pela cobertura em festa que durou até as duas da manhã

Por volta das 22h, um vídeo com o Arco do Triunfo como cenário apresentou o conceito da água, projetada para ser vendida em hotéis seis estrelas e restaurantes mais caros da Europa. “Você não está fazendo uma água para vender no mercado da esquina, né? Para o público dela, 21 reais nem é tão caro”, acredita a atriz Simone Sampaio. “Morei um ano na Europa, já devo ter provado alguma água gourmet.”

Encostada no piano de cauda, uma convidada lamentava o destino da amiga, prestes a chegar: “Coitada, precisou vir de taxi”. Na varanda ou no salão principal, a nata do “mercado sustentável”. “Eu já tomei água gourmet uma vez e parece água mineral”, admitiu Elaine Shoen, gerente de uma clínica de estética. “Achei que ia ter a água aqui hoje”, lamentava ela entre um gole no champanhe e uma mordida em um vol-au-vent de shitake, uma iguaria francesa.

Um dos mais entusiasmados, o artista plástico Duda Penteado exagerava ao comparar os empreendedores a Steve Jobs e Bill Gates. “São uns visionários”, rasgava-se ao mencionar seu naco no projeto: uma escultura em forma de planeta com as futuras declarações e fotos dos consumidores. “Sabe o [Marcel] Duchamp? Ali nasce a arte conceitual, como a minha bioarte.”

Em tempos de torneira vazia em São Paulo, os convidados não enxergavam contradição no lançamento de uma água brasileira para milionários europeus. “Polêmico é, mas o importante é que o projeto é inovador”, contemporizava Lu Saraiva, administradora de empresa e mulher de um dos sócios.

Único com ares de peixe fora d’água,  o coordenador de designing Marcos Lansnaster dizia-se interessado no sabor da água gourmet. “Mas não vai ser o meu drink de toda noite. Acho intimidade comprar uma água de 21 reais sabendo que tem uma pessoa morando a dez metros de mim sem esse recurso. É como se ela tivesse sido excluída do direito de uma vida saudável.”

Poucos convidados permaneciam na cobertura por volta da meia-noite. A festa, no entanto, seguiu até as duas da madrugada, mas como a água exclusiva, só ficaram os sócios, esposas e amigos íntimos. “Não temos nada a esconder”, comemorava um deles.

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