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Eagleton, Tostão e a Copa

por Luiz Gonzaga Belluzzo publicado 18/07/2010 18h43, última modificação 28/07/2010 16h44
É o jogo do ilusionismo em que o jogador famoso não joga nada, o artilheiro não faz gol, mas continua garantido no imaginário popular

É o jogo do ilusionismo em que o jogador famoso não joga nada, o artilheiro não faz gol, mas continua garantido no imaginário popular, como um espectro de si mesmo

Mais do que jogos, a grande maioria tediosa e desinteressante, a Copa da África nos ofereceu um amplo painel de opiniões e palpites midiáticos, alguns com pretensões de alta conjectura sobre o futebol e a vida contemporânea. Preferido das massas urbi et orbi, o jogo da bola com o pé não explica o mundo, como argumenta um livro recente, mas sua evolução reflete, sem dúvida, os abalos que ora transtornam as sociedades.

Em meio ao cipoal de reflexões perfeitamente esféricas em sua indiferenciação, presto homenagem a alguns articulistas que nos acompanharam durante esta Copa modorrenta. Muitos deles conseguiram equilibrar, em tempos de furor patriótico, um “brasileirismo” moderado e a observação crítica do novo mundo do futebol. Nesse maravilhoso mundo da bola, o jogo, fora do campo, envolve as hierarquias políticas e esportivas e suas façanhas mercadistas, enquanto no gramado a espontaneidade criativa e lúdica é sacrificada em nome da vitória esquálida. Na plateia, não poucos notaram que os apreciadores da habilidade e da inteligência deram lugar às massas torcedoras utilitaristas, para quem só importa é vencer.

Tostão atacou de “mediocrizar”, com autorização de Pasquale Cipro Neto: “O mundo está cada vez mais medíocre e igual. Imagino que tenha se inspirado em Terry Eagleton. Implacável crítico da pós-modernidade, Eagleton descreve o atual estado de coisas como ‘um processo’ em que a diferenciação de atitudes, estilos, modos de ser e de governar são tão semelhantes entre si que, afinal de contas, não há nenhuma diferença entre eles”. Eagleton constata corretamente que no mundo globalizado as leis de movimento do conjunto vão se tornando mais abstratas e “controladoras” das subjetividades, ao mesmo tempo que as pretensões individualistas tornam-se grotescamente infladas. No caso do futebol, é cada vez maior o contraste entre a qualidade do espetáculo e a promoção dos figurantes como celebridades siderais.

No futebol, a má disciplina coletiva gera as péssimas individualidades, como a banda podre de si mesma. Quanto mais intensa a adesão às forças “homogeinizadoras”, mais funda é a cova em que será enterrada a imaginação irreverente, já sufocada nas escolinhas, primeira etapa da ditadura do esquema sobre a espontaneidade criativa. Em sua versão “boleira globalizada”, a dialética do universal e do particular- torna-se sofisticadamente cruel. É o jogo do ilusionismo em que o jogador famoso não joga nada, o artilheiro não faz gol, mas continua garantido no imaginário popular, como um espectro de si mesmo, vagando pelas manchetes à custa das repetições midiáticas e dos patrocínios milionários.

Nos anos 30 do século XX e até recentemente, os campeonatos mundiais de futebol e as Olimpíadas serviram à competição entre as potências e seus sistemas políticos. Hitler tratou de transformar as Olimpíadas de 1936 em uma celebração da superioridade da raça ariana e do Reich de Mil Anos. Não contava com o talento de “Jesse” Owens, o incrível atleta negro que passou a simbolizar a vitória sobre o racismo e seus ideólogos.

Os que já viviam em 1958, tempos de Guerra Fria, hão de lembrar a primeira Copa vencida pelo Brasil. Mistérios rondavam a seleção da União Soviética coordenada pelo médio-volante Igor Netto. Os soviéticos cuidaram de divulgar lendas a respeito da superioridade do futebol científico. Encaradas com temor e respeito pela imprensa e pela comissão técnica da Seleção Brasileira, as alegadas virtudes do futebol de proveta desabaram aos 3 minutos de jogo: o inigualável Zito recuperou um rebote da defesa russa, já apavorada com o chute de Garrincha na trave, e lançou Vavá na entrada da área. O Peito de Aço matou no próprio e fuzilou Yashin, o Aranha Negra.

Nas últimas décadas, na toa-da da globalização e do poder incontrastado da mídia, o futebol transfigurou-se em mercadoria cobiçada. O jogo da bola com os pés atrai bilhões de torcedores apaixonados por suas paixões, tão humanas quanto incompreensíveis.

Não é surpreendente que a paixão dos apaixonados tenha sido apropriada e domesticada por um formidável aparato midiático-mercadológico, coordenado de forma racional pela Fifa. Afirmo que não se trata de um embuste, de uma falsificação das finalidades “verdadeiras” do futebol, senão de uma forma de ser, de um modo de existência do entretenimento contemporâneo.

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