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Crônica / Daniela Lima

"E se fosse com a sua família?"

por Daniela Lima — publicado 08/02/2014 08h58, última modificação 08/02/2014 09h00
Moradora do Flamengo, reduto dos "justiceiros, escritora reflete sobre o "pânico, justificado e exagerado", dos moradores da região
Daniela Lima
Rio dos justiceiros

Fim de tarde de sexta-feira 7 na praia do Flamengo, o "inferno na Terra" na visão dos "justiceiros" que passaram a agir na região

Um dos argumentos insistentemente repetidos em redes sociais pelos defensores dos "justiceiros do Flamengo" é: “e se fosse com a sua família?”. Ou seja: como alguém atingido diretamente pela violência reagiria diante da possibilidade de fazer justiça?

Repito o fato já amplamente divulgado: um grupo de jovens esfaqueou, arrancou as roupas e prendeu um adolescente negro pelo pescoço a um poste, nas proximidades da Avenida Rui Barbosa, no bairro do Flamengo. Partimos então da negação da condição de sujeito do adolescente agredido. A autorização para este ato decorre de o adolescente ter passagens pela polícia e, pelo que se sabe, morar nas ruas do bairro. Ele seria, portanto, uma "peça". E uma "peça" pode ser movida de um lugar a outro, dilacerada e até privada de sua existência sem que isso configure um dilema moral.

"Mas e se ele agredisse à sua família?". Para os defensores da agressão, o fato de ter sofrido um ato de violência legitimaria a barbárie. E qualquer pessoa que tivesse sido assaltada ou agredida concordaria com uma reação de vingança contra o agressor – ou contra qualquer um que se assemelhasse a ele fisicamente. Já que parece indispensável sofrer algum tipo de violência para redefinir conceitos morais (e até jurídicos) e opinar sobre os fatos, afirmo que meu pai foi vítima violência do bairro do Flamengo. Foi com a minha família.

No último mês, meu pai, um senhor de pouco mais de 60 anos, foi perseguido por um grupo de três jovens enquanto corria no Aterro do Flamengo. Como não havia nada para roubar, quiseram levar seus óculos de grau e a sua aliança de casamento. Casado há 30 anos, meu pai se recusou a entregar a aliança ou os óculos e correu em direção às pistas do Aterro. Confusos diante do número de carros, os adolescentes desistiram. Nenhum deles era negro. Estavam em bicicletas e não aparentavam morar nas ruas do bairro.

O Parque do Flamengo, um dos maiores do mundo, margeia cinco bairros: Botafogo, Flamengo, Catete, Glória e um trecho do Centro da Cidade. Existem apenas dois postos policiais, próximos à saída da Rua dois de Dezembro, no Flamengo. O patrulhamento da área é feito por policiais de quadriciclo e a pé – e é mais intensivo aos domingos, quando as pistas do Aterro são fechadas para os carros e transformadas em área de lazer. Meu pai pratica corrida no Parque há pouco mais de 30 anos, mudando apenas o horário: durante o horário de verão, corre às 18 horas. Fora dele, um pouco antes das 6 horas da manhã. Neste período, sofreu apenas um assalto e presenciou outro: um grupo de três adolescentes roubou uma bicicleta nas imediações da Praia de Botafogo, no fim do Parque. Mais uma vez, não eram negros nem moradores de rua.

Somos vítimas de um estranho fenômeno: apesar de morarmos na região e de vivenciarmos o fato de que ela não é mais perigosa nem menos policiada do que outros bairros mais nobres da Zona Sul, temos medo. Sobretudo, à noite.

No entanto, depois de ler a biografia da escritora Elizabeth Bishop, que narra alguns detalhes do projeto de iluminação do Parque, propostos pela urbanista Lota de Macedo Soares, tive curiosidade de visitá-lo à noite.

Quando comentei com os amigos que faria isso, o pânico se instaurou: “você vai ser morta”, diziam. Mas de onde vinha esse pânico, se nenhum deles fora assaltado no Parque?

O pânico é externo. E não é firmado no real. E renova um ciclo de medo não exatamente injustificado, mas certamente exagerado.

Fui ao Parque à noite, acompanhada de um amigo – tão corajoso ou louco quanto eu. E percebi que muitas pessoas praticam esportes na orla ou passeiam por lá em qualquer horário. O Parque não dorme. No início, senti um medo inexplicável, era como se um inimigo invisível fosse nos atacar a qualquer instante. Era um terror sem nome. Depois, consegui estar apenas lá e quebrar o ciclo do medo.

O Parque realmente fica lindo sob a luz dos postes, que foram planejados para reproduzir o efeito da lua cheia. Tudo é iluminado suavemente. Menos, é claro, uma zona escura que se alimenta do medo de cada um. E que não está localizada no bairro do Flamengo. Nem em bairro algum. E que parte de um higienismo introjetado culturalmente e não de qualquer reação contra a violência.

De acordo com a lógica dos apoiadores dos agressores, o fato de ter ocorrido na minha família me autorizaria a opinar sobre sua conduta. Afinal, foi comigo. Atender a um chamado de justiça pressupõe não só cumprir o que está num texto legal (que pode ser interpretado de várias formas e até desconstruído), mas entender que as diferenças que separam os moradores do bairro, como eu, de alguém que habite as suas ruas não nos autoriza a negar a sua condição de sujeito. Para haver justiça (essa, sim, não-construtível) é preciso reconhecer o outro plenamente como sujeito. É preciso estar num terreno ético-afetivo que nos permita experimentar o lugar do outro sem que seja necessário vivenciar suas experiências. Antes de tudo, é preciso perceber que violência contra a violência não é sinônimo de justiça. É apenas mais violência.

 

Daniela Lima é escritora