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Doutor Sócrates e as mulheres

por Redação Carta Capital — publicado 11/12/2011 09h34, última modificação 11/12/2011 12h11
Memória sentimental da democracia corintiana e da emancipação feminina

Por Bia Abramo

“O futebol me disse: qual é a minha parte?
O futebol me disse: eu quero a minha parte.”

Alex Antunes

 Na copa de 1982, a Seleção Brasileira conseguiu recuperar o lugar que havia conquistado em 1958 e perdido a partir de 1970: a de um time capaz de enfrentar uma competição dura e ao mesmo tempo operar com beleza e graça. Ao lado de Zico, Falcão, Júnior, estava ele, Sócrates.

Ele também estava antes, em São Paulo, mais precisamente no Corinthians; aquele da Democracia Corintiana. Na experiência extraordinária, inédita e, salvo engano, jamais repetida de conduzir um grupo de atletas de um esporte tão emblemático quanto o futebol de uma forma avessa ao clima de autoritarismo e truculência, estava ele, o Sócrates (mais Biro-Biro, Casagrande, Basílio, Wladimir...).

Esses dois momentos foram decisivos para tingir o futebol da pátria de chuteiras de algumas nuances e malemolências de cunho feminino e feminista. Na real, a paixão pelo futebol nunca excluiu totalmente as mulheres, desde que espectadoras ou, no máximo, coadjuvantes.

 

Por que organizados  em torno da palavra liberdade – cara ao Dotô, no apelido carinhoso de nosso amigo em comum, Xico Sá –, esses dois momentos permitiram que muitas mulheres e meninas encontrassem também no futebol portas de entrada (e saída) para suas questões de identidade. E, sim, para mulheres da minha geração, nascidas um pouco antes, pouco depois dos anos 60, identidade não era um tema simples.

Os rompimentos iniciais com o patriarcado e o primado da reprodução na vida sexual estavam de certa forma disponíveis desde a metade dos anos 60 em diante. Certas barreiras educacionais e profissionais para que a prisão doméstica não fosse o único destino reservado a nós até já tinham começado a afrouxar um pouco antes. Não que o fato de existirem tornasse essas condições objetivas acessíveis a todas, mas, mesmo que de forma desigual, elas já estavam lá. Restava uma tarefa ainda difícil de entender, construir e definir o que fazer a partir disso – e como incorporar tudo isso numa subjetividade nova e outra.

 

No pedaço que me  coube dessa confusão, acompanhar e jogar futebol constituiu uma das arenas livres para a experimentação da(s) identidade(s) possíveis.  Filha do privilégio, como Sócrates sempre afirmou que o era, porque, por exemplo, pude entrar na universidade pública, frequentei uma escola regida por inquietações democráticas da classe média intelectualizada de esquerda. E onde se falava e jogava muito futebol.

A escada que dava acesso às salas de aula vivia cheia de adolescentes, de todos os gêneros, lendo o Jornal da Tarde – o melhor noticiário de esportes, à época.  A quadra poliesportiva, chão de concreto, vivia cheia de gente jogando futebol no recreio. Os meninos dominavam, mas algumas meninas mais habilidosas entravam, por vezes. E havia, claro, o campeonato de futebol feminino quando a quadra era nossa e todas as classes competiam.

Não era um futebol perna de pau de menina. Ali tentávamos emular o que nossos ídolos faziam em campo – dribles, lançamentos em profundidade, defesas sensacionais, arranques para receber a bola. Uma das craques da minha época, corintiana (claro), acho que pensava no Rivelino. A melhor goleira, santista se eu bem me lembro, esticava-se como o Leão. No dia a dia, usávamos meiões coloridos com minissaia e camisetas dos nossos times. No final de semana, botávamos nossos vestidinhos de chita e sandálias de couro compradas na Bahia e íamos para as festas dançar Mutantes, Melodia e Stones.

Era assim que, garotas de 14, 15, 16 anos, tentávamos viver as contradições de gênero que nos cabiam historicamente: com liberdade para combinar, experimentar, transgredir – e até voltar atrás se fosse o caso. Minha escola era um espaço de resistência educacional, política e, sim, sexual; bem como o Corinthians do Sócrates também o foi.

Quando ele foi para a Copa em 1982, aquela minha aldeia gaulesa do colegial fazia parte de várias outras aldeias gaulesas mais combativas, mais politizadas e que, como a nossa, faziam seu trabalho de resistência da maneira que dava e, bom, estávamos já num momento, de fato, mais democrático – depois do Mundial, eu votaria pela primeira vez. Lula para governador encabeçando a minha cédula de papel e meu título de eleitor novinho.

 

Naquela Copa, precisávamos mostrar, depois da truculência do Mundial do Videla em 1978, que se podia jogar bonito e vencer. Que o Brasil acabrunhado dos anos da ditadura tinha sido capaz de criar beleza, graça e elegância, ainda assim. Que um futebol expressivo era melhor que um futebol vencedor, ainda que termos sido derrotados tenha doído e muito. Num time de craques, Zico em primeiro lugar, ele era o craque fora de lugar, que não deveria estar lá, porque era o cara que insistia na jogada de efeito, mesmo se fosse necessário sacrificar a objetividade, a eficiência e, até, o gol. Como se a subjetividade de quem estava jogando e de quem estava assistindo fosse mais importante do que o resultado. Talvez com exceção do Falcão, um dândi em campo, era o Sócrates quem melhor encarnava e, depois saberíamos, quem calculava melhor todo esse efeito simbólico. E quer coisa mais simbólica do que perder, depois de tudo isso?

Todo esse drama futebolístico desenrolava-se aos olhos de uma geração (não só de mulheres) que havia precisado de liberdade para experimentar, para criar, para ser de uma maneira menos careta e menos truculenta. Que já tinha conquistado espaços coletivos e públicos importantes, mas que ainda queria mais possibilidades de inventar suas identidades – e, de certa forma, nunca se deu por satisfeita.

E o Sócrates nunca, mas nunca mesmo, parou de reinventar sua identidade. Como as meninas e mulheres da minha geração – e, acho, que das que vieram depois.

 

 

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