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Entrevista

Dono de si

por André Siqueira — publicado 16/05/2011 12h46, última modificação 17/05/2011 14h33
Pesquisador do Programa de Condições de Trabalho e Emprego da Organização Internacional do Trabalho (OIT), Jon Messenger defende que o trabalhador controle seu próprio tempo. Foto: Istockphoto
Dono de si

Pesquisador do Programa de Condições de Trabalho e Emprego da Organização Internacional do Trabalho (OIT), Jon Messenger defende que o trabalhador controle seu próprio tempo. Foto: Istockphoto

Pesquisador responsável pelo Programa de Condições de Trabalho e Emprego da Organização Internacional do Trabalho (OIT), em Genebra, na Suíça, Jon Messenger é especialista no estudo da carga horária e novas formas de organização no ambiente profissional. Em resposta às perguntas enviadas via e-mail por CartaCapital, Messenger defende que a tecnologia seja usada para dar ao trabalhador mais controle sobre o seu próprio tempo.

CartaCapital: Estamos trabalhando mais do que os nossos pais?
Jon Messenger: A jornada de trabalho média declinou gradualmente no último século. Entretanto, nas décadas recentes, o horário dos regimes de tempo integral se estabilizou em muitos países, enquanto uma crescente proporção de trabalhadores, principalmente mulheres, está trabalhando em tempo parcial (especialmente nos países desenvolvidos). Esta é parte da tendência de diversificação das jornadas, com parte substancial dos empregados trabalhando
por períodos que podem ser tanto mais longos quanto mais curtos do que as horas regulamentares de cada país.

CC: Esse fenômeno ocorre em qualquer lugar ou varia conforme o desenvolvimento da economia e o tipo de ocupação?
JM: A “confusão” das fronteiras entre trabalho remunerado e vida pessoal é o que mais afeta certos tipos de trabalhadores, como os de nível gerencial ou altamente qualificados. Esses profissionais tendem a cumprir maiores jornadas tanto nos mercados desenvolvidos quanto naqueles em desenvolvimento. No entanto, em muitos países em desenvolvimento, as longas jornadas e os baixos salários andam de mãos dadas, já que trabalhadores com baixo nível educacional têm de encarar muitas horas para ganhar o bastante para si mesmos e suas famílias.

CC: Como governos e sindicatos deveriam lidar com as atividades intelectuais, que podem ser executadas em qualquer
lugar?
JM:
É muito mais difícil medir a produtividade em serviços do que na manufatura, particularmente quando se trata de trabalho intelectual. É por isso que o esforço de trabalho nessas posições é frequentemente medido por autoavaliações e indicadores de intensidade de trabalho, estresse e pressão. A pior combinação é a elevada carga de trabalho combinada com o baixo nível de autonomia, a chamada “organização de trabalho de alta pressão, que tem sido associada a inúmeras doenças ocupacionais. Daí a importância de manter as cargas de trabalho em níveis razoáveis e oferecer ao trabalhador o máximo de autonomia possível de acordo com o tipo de posição. E os governos e sindicatos deveriam estimular práticas de trabalho que deem aos trabalhadores mais controle e influência sobre quando, onde e como desempenhar suas tarefas, a chamada time sovereignty (soberania sobre o tempo, em livre tradução).

CC: Em sua opinião, a tecnologia é ou não uma aliada dos trabalhadores?
JM:
As tecnologias emergentes de comunicação e informação (TCI) são uma via de mão dupla. Num sentido, permitem que o trabalho seja realizado a qualquer hora e local. No outro, essas TCI podem oferecer aos trabalhadores a oportunidade de escolher quando, onde
e como vão trabalhar, bem como de poupar tempo e dinheiro gastos no transporte, especialmente em cidades como São Paulo e Rio de Janeiro. Os trabalhadores devem pressionar por práticas que de fato ofereçam mais controle e influência sobre suas próprias atividades, como acordos de tempo flexível, bancos de horas e teleconferências.

Confira na edição impressa de CartaCapital a reportagem de capa "Escravos da tecnologia", sobre como o tempo dedicado às atividades profissionais tem avançado sobre a vida pessoal dos trabalhadores.

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