Você está aqui: Página Inicial / Sociedade / Doces personagens são patrimônios das praias

Sociedade

Rio de Janeiro

Doces personagens são patrimônios das praias

por Edgard Catoira — publicado 07/03/2012 12h45, última modificação 07/03/2012 12h50
Na Avenida Atlântica dominical, um cenário deslumbrante, sonoro e colorido, vive-se momentos em que dá para ser feliz
eduardo paes garis

Os biscoitos Globo passaram a ser oficialmente “patrimônio cultural e imaterial do Rio” em decreto de Eduardo Paes, que este ano pretende se reeleger. Foto: site da prefeitura do Rio

Desde a década de 50 as praias de Copacabana, Ipanema e Leblon ficaram famosas pelas mulheres maravilhosas, usando biquínis ousados, bebendo um copo de mate-limão e mastigando os biscoitos Globo. Nos dias de sol, são marcas registradas da orla carioca.

No dia 5 de março, eles passaram a ser oficialmente “patrimônio cultural e imaterial do Rio”, por decreto assinado pelo prefeito Eduardo Paes, na Praia do Leme, no meio deles. O prefeito, mais uma vez, apareceu bem na foto, neste ano em que pretende se reeleger.

Agora, os vendedores de mate, com seus pesados bujões, vão continuar, aos berros, vendendo seus produtos. Alguns dos mais velhos continuam famosos e os banhistas ainda os reconhecem, mesmo fora das praias, como o Gato, que ainda novo tinha varizes salientes nas pernas e um vozeirão. Ele enchia os copos da garotada e mandava guardá-los. Quando voltava do circuito que fazia, enchia os copos dos meninos, de graça, e ia embora alegre. Agora, por não agüentar o peso dos galões, é guardador de carros na Rua Constante Ramos, em Copacabana, onde recebe os carros de seus antigos clientes da praia. Tem também o Antonio, com seu largo sorriso de dentes alvíssimos, trabalhando hoje, ainda forte, vendendo rosas na Rua São João Batista, em Botafogo, onde cumprimenta, com alegria jovial, seus conhecidos dos tempos do mate. Tinha um outro adorável, que passava com um chapelão enorme de palha gritando números – 1157, 1329, 1548. Os frequentadores recebiam o recado, que não era de jogo de bicho ou ataque de loucura do vendedor. Ele, na verdade, cantava as horas, só que juntando todos os algarismos de horas e minutos.

Intercalados com os homens do “limão”, até hoje circulam vendedores dos biscoitos Globo. Todos gritando “Grobo”.

E todo carioca adora mastigar os biscoitos, doces ou salgados, embrulhados em saquinhos de papel. Eles só não são apreciados é pelos motoristas: quando eles aparecem em ruas e avenidas, é sinal de que estamos entrando em um engarrafamento. Ao lado deles, com caixas de isopor, também surgem os vendedores de água gelada, refrigerantes e “cerveja”, vendida assim mesmo como está grafado, ma surdina – todos conhecem o rigor da Lei Seca.

Como o Globo apareceu no Rio, nós sabemos: um padeiro paulista quis aproveitar o Congresso Eucarístico no Rio, em 1950, e mandou seus filhos venderem os biscoitos na cidade, que estava lotada. Foi o suficiente para cair no gosto popular, o que levou a família a abrir uma padaria no Rio – usando, sem autorização do Globo, jornal, a figura de um bonequinho que indica se um filme é bom ou não. O boneco continua nas páginas da publicação e nos sacos de papel.

Mas as praias ainda têm outras muitas figuras maravilhosas, como a baiana de acarajé, agora com barraca nova que ela abre aos domingos, no calçadão, quase em frente ao Edifício Chopin, “residência dos ricos e famosos”, ao lado do Copacabana Palace. Apesar de ela ter sotaque hispânico e feições de índia andina, suas roupas, colares e atitudes denunciam que ela é firmemente religiosa, de candomblé, como devem ser todas as vendedoras de acarajé, que cumprem seu culto a Yansã. A obrigação manda que, antes de começar a fritar os bolinhos de feijão, sete pequenos, devem ser preparados e dados à entidade. Nossa baiana faz isso e, como toda religiosa, não comenta por que faz esses sete bolinhos iniciais. Segredo é segredo!

Esta figura também tem que ser cuidada e protegida para não acontecer como na Bahia, onde elas desapareceram das ruas depois que passaram a ser ameaçadas por adeptos de religiões fundamentalistas que não admitem a presença do candomblé. Os acarajés, aliás, passaram a ser chamados de ‘bolinhos de Jesus’ – uma verdadeira afronta à cultura afro brasileira.

Tem mais um patrimônio da orla, que temo perder. É o Carlinhos Verdadi, que roda nos fins de semana toda a ciclovia que se estende do final do Leblon, passando por Ipanema, Copacabana e Leme. Seu velho triciclo carrega, no bagageiro, um gerador e uma caixa de som... Com boné sob um chapéu de palha pequeno e outro de abas enormes, ele vai pedalando, ao som das músicas de seus seis CD´s, com músicas compostas, cantadas e gravadas por ele. Agora, Carlos diz que está vendendo pouco. E ainda nem conseguiu pagar a produção de seu último disco. Anda cansado e sem estímulos de vendas. Conta – e isso entristece – que pretende parar, quando o gerador não agüentar mais.

Para continuar alegrando a cidade, porém, podemos considerar sempre as folclóricas e adoráveis figuras dos barraqueiros de praia, vendedores de sorvetes, escultores de areia e estátuas vivas. Valem até as alegres figuras dos conjuntos de sambistas que ficam tocando sem serem convidados, antes de passar o pandeiro para recolher “um trocadinho” – uns chatos!

O conjunto todo, incluindo os camelôs que ficam correndo o tempo todo para salvar suas mercadorias da fiscalização municipal – invariavelmente contando com o apoio dos banhistas – faz que esta orla seja realmente única no mundo.

Tudo em meio a bicicletas, atletas, skatistas e caminhadas de apoio ou protesto – político, religioso, ou social.

Estando na Avenida Atlântica dominical, qualquer um fica envolvido e se abstrai dos problemas da vida. Neste cenário deslumbrante, sonoro e colorido, de preferência saboreando uma boa batidinha ou um choppe geladíssimo, vive-se momentos em que dá para ser feliz.

registrado em: