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'Diretas Já' online

por Redação Carta Capital — publicado 13/09/2011 18h40, última modificação 14/09/2011 15h53
Site, que vai disponibilizar fotos e vídeos do período, vale como documento histórico e como referência sobre o que aconteceu, anos depois, com os antigos defensores da liberdade

Para quem pegou gosto em sair por aí caminhando e cantando e seguindo a canção durante o feriado para lutar contra “toda essa corrupção”, uma dica. Está saindo do forno um site que pretende reunir o maior acervo sobre o movimento “Diretas Já”, que em abril de 1984 chegou a levar até o Vale do Anhangabaú nada menos do que 1,5 milhão de pessoas com um pedido uníssono (embora derrotado pelo colégio eleitoral): “queremos votar para presidente”. Isso num tempo em que não existia Facebook nem Twitter para agitar os manifestantes.

O lançamento do site (bradoretumbate.org.br) será no dia 19 de setembro, no Museu da Imagem e do Som (MIS), em São Paulo.

Na página, o internauta que quiser saber como se fazia protestos na primeira metade dos anos 1980 poderá assistir a depoimentos de 70 personalidades que se engajaram na campanha já na reta final da ditadura.

O exercício pode ser didático por dois motivos. O primeiro, pelo testemunho de uma época – num período em que nem todas as personalidades, sobretudo artistas, contavam com marqueteiros de frases feitas nem evitavam tomar posições publicamente. O segundo, para saber como eram e o que se tornaram algumas das lideranças que pediam mudanças num tempo de liberdade restrita.

Entre os entrevistados pelo jornalista Paulo Markun, idealizador do projeto, estão Fernando Henrique Cardoso, Marta Suplicy, José Serra, Ricardo Kotscho e Marcelo Tas, que revelam detalhes sobre como contribuíram para que o direito a voto fosse instituído no Brasil.

Quase três décadas após as “Diretas Já”, soa até estranho imaginar como algumas figuras políticas, hoje arquirrivais, conseguiram sobreviver à convivência no mesmo palco. Naquele tempo, petistas e tucanos (que ainda não haviam criado o PSDB) estavam na mesma luta.

Um dos testemunhos é feito por José Serra, que surfou no movimento estudantil com o selo de paladino da liberdade e, em sua segunda tentativa de chegar à Presidência, em 2010, patrocinou uma das mais sangrentas (e medievais) campanhas desde a redemocratização, ao acusar a adversária de planejar, caso eleita, a liberação geral do aborto.

Cassado em 2005 e inelegível até 2016 sob a suspeita de comandar o Mensalão, suposto esquema de suborno a parlamentares em troca de apoio político ao governo de Lula, José Dirceu, hoje réu no STF, também apresenta sua versão sobre a ditadura militar. Na época, era um dos principais líderes da União Nacional dos Estudantes (UNE) e opositor do regime militar. O ex-guerrilheiro estava no grupo de presos políticos libertados em troca do embaixador americano Charles Burke Ellbrick, sequestrado em 1969 pelos grupos armados de resistência ALN (Ação Libertadora Nacional) e MR-8 (Movimento Revolucionário Oito de Outubro).

Outra figura política que dá seu depoimento é a senadora Marta Suplicy, ex-prefeita de São Paulo (2001-2005) que tem até hoje, entre suas bandeiras, a defesa dos direitos LGBT – o que não a impediu de insinuar, em campanha pela prefeitura paulista, em 2008, que seu adversário, Gilberto Kassab, era homossexual, ao pedir que os eleitores se questionassem se ele era casado ou tinha filhos – não era, não tinha.

Hoje nome frequente de escândalos políticos de Brasília, o senador quase biônico José Sarney, maranhense que fez do Amapá seu reduto eleitoral, também dá seu testemunho do período histórico. Com a morte de Tancredo Neves, eleito indiretamente pelo pelo colégio eleitoral, ele se tornou o primeiro presidente civil a comandar o País desde 1964. Hoje é presidente do Senado pela terceira vez e, apesar de tanto prestígio político, não conseguiu fazer do Maranhão (ou do Amapá) um lugar menos miserável e violento para se viver.

“Eu não queria assumir. Recebi telefonemas a madrugada inteira, com a posse marcada para a manhã. O Ulisses (Guimarães) era o nome para assumir”, afirmou Sarney sobre os momentos anteriores à sua posse como presidente da República.

Fernando Henrique Cardoso, que dez anos depois da campanha foi eleito presidente da República e mudou as regras do jogo, aprovando (de forma suspeita) a emenda da reeleição e patrocinando o processo de privatização de serviços públicos (como telefonia) no País, é outra figura política a deixar seu testemunho histórico.

Mas nem só de políticos foi feito o movimento. Entre os jornalistas, Ricardo Kotscho conta, em seu relato, como era trabalhar naquele período, quando cobria os eventos e “torcia”, ao mesmo tempo, para que a população fosse ouvida. Por causa da ditadura, Kotscho precisou se mudar para a Alemanha em 1977 após coordenar uma série de reportagens conhecida “Mordomias”, nas quais denunciava as regalias dos superfuncionários do governo militar e de pessoas ligadas a eles. Após as Diretas, foi assessor de Lula na campanha presidencial de 1989 e se tornou Secretario de Imprensa e Divulgação da Presidência em 2003. Franklin Martins, que se tornaria anos depois ministro da Secretaria de Imprensa do governo Lula, também participa do documentário.

Entre os artistas, destaque para o vocalista da banda Ultraje a Rigor, Roger Moreira – que já declarou ter sofrido ameaças durante o regime por causa de suas músicas. Uma delas, “Inútil”, tornou-se o símbolo das “Diretas Já” com uma letra despojada e irônica, cheia de erros propositais, que dizia: "a gente não sabemos escolher presidente, a gente não sabemos tomar conta da gente". A banda manteve o sucesso nos anos 90, antes de perder espaço no cenário do rock nacional.

Quem também não voltou a ter o brilho daqueles anos é a cantora Fafá de Belém, que emocionou multidões ao cantar sua versão do hino nacional e ganhou o apelido de “musa das Diretas”. A militância, com o tempo, também diminuiu – e a maior exposição da cantora desde então foi quando cantou para o Papa João Paulo II durante sua visita ao Brasil, em 1997.

Vale também saber como Marcelo Tas, o onipresente apresentador de hoje – que encabeça um programa semanal na tevê para constranger políticos eleitos e congêneres – destaca sua participação na luta pela abertura democrática de 1984. Para quem hoje é convidado pela juventude do DEM para falar como uma espécie de guru da nova geração, não deixa de ser um choque. Didático, mas um choque. Parte do jogo.

Também gravaram vídeo para o projeto nomes como Eduardo Suplicy, Lucélia Santos, Maitê Proença, Agnaldo Timóteo, Almino Afonso, Marcio Thomaz Bastos, Pedro Simon, Rodolfo Konder e Vladimir Palmeira.

Além de disponíveis gratuitamente no site, os depoimentos serão entregues ao acervo digital do Museu da Imagem e do Som, do governo de São Paulo, e da Cinemateca Brasileira, do governo federal.

O site é uma realização do Instituto de Cultura Democrática (ICD) e tem o patrocínio da Uninove. Participaram de sua produção o jornalista e escritor Manoel da Costa Pinto, o roteirista Luiz Bolognesi, a historiadora Brisa Cristina Corrêa de Araújo, a socióloga Aline Borghoff Maia, entre outros. A produção dos vídeos foi da agência Atelier de Imagem e Comunicação.

O espaço disponibilizará também fotos, mais de duas mil páginas de texto, linha do tempo e biografia dos principais personagens envolvidos neste período (Tancredo Neves, Mario Covas, Miguel Arraes, Dante de Oliveira, Luiz Inácio Lula da Silva, Franco Montoro, Dom Paulo Evaristo Arns, entre outros).

Na página, haverá um espaço para que os brasileiros que participaram do movimento de alguma forma também deem seus depoimentos, com o envio de textos, imagens e vídeos.

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