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Diário de um cartola

por Socrates — publicado 10/02/2008 15h36, última modificação 10/09/2010 15h44
Felizmente me dou às mil maravilhas com o governo. Quem diria! Só mesmo no Brasil

Felizmente me dou às mil maravilhas com o governo. Quem diria! Só mesmo no Brasil 

(Coluna originalmente publicada em CartaCapital 469, de 7 de novembro de 2007)

Como eu estou feliz! Também, pudera, concretizamos a grande jogada de nossa vida: trazer uma Copa do Mundo para o Brasil. Finalmente! Tudo isso começou há muito tempo, quando fui estimulado pelo meu sogro a ocupar o lugar que foi dele por muitos e muitos anos. Não conhecia nada de futebol e creio que até hoje pouco melhorei nesse quesito, mas em outros acho que me tornei um profundo especialista. De qualquer modo, apesar das críticas de que eu deveria saber mais sobre o jogo que comando, não vejo nenhuma necessidade. Afinal, o meu interesse nada tem a ver com o esporte em si, e sim com as oportunidades de negócio que ele oferece. 

E que negócios! Fiz de tudo nestes anos todos, mas sentia que aquilo era pequeno para os meus sonhos de grandeza. Ganhar uma ninharia de meio milhão de dólares por jogo da equipe que comando me deu, é claro, uma condição especial de caixa para controlar meus opositores. Sangrar até o fim as contas da entidade que presido, também. Muitos se contentam com pouco, porém quero sempre mais e mais. E é por isso que faço tudo para manter o poder que adquiri e que, se Deus quiser, o manterei até o fim dos meus dias. 

Lembro que há alguns anos fiz um laboratório para entender melhor como trazer o Mundial para cá. Fiz uma falsa candidatura, na qual, além de conhecer melhor o processo, pude auferir alguns bons ativos de algumas empresas que se interessavam em participar. E, melhor, nem mesmo prestei contas. Ali, tive a certeza de que seria um gigantesco negócio e não poderia perder tempo em atrair para a empreitada lideranças políticas que ofereceriam respaldo no Congresso para as minhas pretensões.

Nesse período, fiz algumas besteiras que quase me derrubaram. Foi quando instalaram uma tal de CPI no mesmo Congresso para investigar a minha relação com aquela marca de material esportivo que veste a equipe que capitaneio. Mesmo com todos os companheiros que tenho por lá, quase a vaca foi pro brejo. Sorte que estamos no Brasil. Mesmo com tantas evidências pude escapar de uma devassa em minhas atividades, o que fatalmente me levaria para longe desta empresa, que não é empresa e nem é minha, que administro com total liberdade. Já pensou o desperdício que seria perder esta boquinha em que me encontro há quase 20 anos? 

Depois da trágica experiência resolvi intensificar o relacionamento com os parlamentares, mas ainda existe muita resistência às minhas práticas por parte de alguns que até hoje tentam me pegar de qualquer jeito. Até mesmo uma nova CPI eles querem inventar, só para mexer comigo (o assunto Corinthians é só pretexto).
Esse povo de São Paulo parece um bando de amadores e não sabe fazer essas coisas direito. Podiam ter me contratado para uma consultoria. Tenho certeza de que nada disso estaria acontecendo e ganharíamos muito e por bastante tempo. Mas, quanto à essa CPI, estou tranqüilo. Já providenciei uma rede de proteção que vai impedir que ela ande. Senão, coloco a Fifa nessa história, pois morrem de medo deles.

Por outro lado, o governo atual tem me dado muito mais do que nem sequer imaginaria tempos atrás. Tive até o prazer de ter a meu lado, quando da minha última reeleição – por aclamação, é claro –, um ministro de Estado. Que moral, hein? Pois é, o ministro do Esporte resolveu aceitar o convite para comparecer, o que muito me surpreendeu, mas não posso negar que fez um bem danado ao ego e à minha carreira esportiva. Não é todo dia que algo assim acontece. E eu que achei que seria o contrário e que fariam tudo para me derrubar. Felizmente me dou às mil maravilhas com o governo. Quem diria! Só mesmo no Brasil. 

Consegui, veja só, levar o presidente da República e vários governadores de peso à solenidade que proclamaria o Brasil como sede da Copa de 2014. Senti-me como o imperador dom Pedro – será que era o primeiro ou o segundo? – que levantou a espada e disse: “Independência ou morte!” Aquilo sim era poder. Acho que um pouco parecido com o meu. Bom, agora é trabalhar para levantar muuuuito dinheiro para o evento e, é claro, ver se sobra um pouquinho aqui pro papai, hehehe. Ainda bem que eles estão que é só felicidade, mas no fim, não sei não, pois adivinha quem vai pagar esta conta, hehehe. Bem, caro diário, passou da hora de tomar um porre para comemorar mais uma grande iniciativa deste gênio que sou. Obrigado a todos.