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Dez anos de século 21

por Carlos Leonam e Ana Maria Badaró — publicado 08/01/2010 18h30, última modificação 20/09/2010 18h31
Vamos a um lugar comum: parece que foi ontem. Faz uma década, estávamos entrando no século 21. O ano de 2010 nos dá conta de que o século 20 é coisa realmente de outro século e não mais um surrado modo de dizer

Vamos a um lugar comum: parece que foi ontem. Faz uma década, estávamos entrando no século 21. O ano de 2010 nos dá conta de que o século 20 é coisa realmente de outro século e não mais um surrado modo de dizer. Os primeiros tempos do século 21 passaram muito rápido, talvez mais céleres do que os últimos tempos do século 20, quando se imaginava beirar o imponderável com a chegada do terceiro milênio. (Embora o Ano 1 do novo século tenha sido 2001, mas todo o Mundo antecipou o fato. Mas essa é outra história.)

Mesmo as cabeças mais céticas se perguntaram como será o amanhã? E tememos, em algum lugar de nossas almas, pequenas ou imensas catástrofes místicas e tecnológicas. Não teve bug para bagunçar o coreto do mundo que, mais uma vez, não acabou. No raiar do século 21, livramo-nos de pragas bíblicas e ganhamos novos vírus em nossos computadores. E tudo ficou como era, com melhoras e pioras.

A impressão é de que à medida que o planeta esquenta, ou esfria, o tempo encolhe. Haveria alguma relação entre a natureza maltratada e a hipótese de que há algo estranho entre interregnos dos solstícios? Conseguiremos fazer um levantamento do patrimônio emocional e material acumulado nessa década que passou num estalar de dedos?

Não há respostas padrão a dar a um tempo tão perguntador. O que fizemos ontem, o que faremos amanhã. O que fazemos hoje? Agora, o que fazer? Mãos à obra, qualquer obra, que a ampulheta de cintura de pilão não para de mandar os átimos de segundo para a parte de baixo. E como escorrem rápido por um espaço tão apertado. Essa corrida de grãos de areia é um dos poucos casos em que menos não é mais.

No presente, até as crianças e os adolescentes admitem que o tempo vôa e que, logo logo, seus aniversários estarão se repetindo, pois é assim que eles, os pequenos, medem a passagem dos dias. Ainda no terreno das idiossincrasias, também os adolescentes engolem seus dias com o mesmo apetite com que devoram uma saborosa e venenosa junk food, acompanhada de uma coca com gelo e limão. Aplain coke, please. Coca zero, não.

No seu tempo, quanto tempo se levava para fazer 18 anos e poder ver os filmes proibidos fosse por sacanagem, fosse por profundidade bergmaniana? E para namorar escancaradamente, entrar na faculdade (se possível), arranjar um emprego, pensar em casar ou desbundar pelo mundo? O desbunde não deu muito futuro, como provou Arembepe e Woodstok. Lá na frente, veio a fatura do que foi feito com aquele tempo de parangolés. Sonhos de areia e lama. Depois do desbunde, veio o rebunde.

Inexplicavelmente, e bem antes dos dez anos do século 21, tempo a escorrer entre os dedos não era mais coisa de adultos ou de idosos que a partir de algum momento começam a perceber a vida em contagem regressiva. A subtração é uma espécie de esperança ao contrário. O calcular inevitável é uma grande receita para começar a relativizar os problemas, valorizar as soluções e a perdoar a si mesmo, como se perdoa o próximo.

Nos dez anos do terceiro milênio, o carrossel acelerado que anda a desfolhar os calendários de seres de qualquer idade é mais um mistério da tão falada mudança dos tempos. Um outro lugar comum que justifica o que não se explica.