Você está aqui: Página Inicial / Sociedade / Desleixo, imprudência e sangue nas estradas

Sociedade

Pinhão & Prosa

Desleixo, imprudência e sangue nas estradas

por Aurélio Munhoz — publicado 15/03/2011 08h58, última modificação 16/03/2011 13h35
Um dado de extrema relevância à Nação passou distante dos holofotes direcionados às curvas das madrinhas das escolas de samba, na semana do Carnaval: os números de mortos nas estradas brasileiras. Por Aurélio Munhoz
Desleixo, imprudência e as estatísticas do Carnaval

Um dado de extrema relevância à Nação passou distante dos holofotes direcionados às curvas das madrinhas das escolas de samba, na semana do Carnaval: os números de mortos nas estradas brasileiras. Por Aurélio Munhoz. Foto: Vanderlei Almeida/ AFP

Um dado de extrema relevância à Nação passou distante dos holofotes direcionados às curvas das madrinhas das escolas de samba, na semana do Carnaval: os números de mortos nas estradas brasileiras. São estatísticas que provocam sentimentos opostos aos dos sorrisos gratuitos da festa de Momo.

No levantamento que consultei para a redação deste artigo, o aumento do número de vítimas fatais no Carnaval subiu 32% em relação a 2010; o de feridos, 12%. Foram 189 mortos em 2011 nas rodovias e 143 em 2010. Comparando-se à semana do Carnaval de 2009, o primeiro ano de vigência da Lei Seca, o crescimento foi ainda mais absurdo, de 48%.

O excesso de álcool nas veias e de chuvas nas pistas são duas explicações para a origem do problema. A imprudência de boa parte dos motoristas (o mais conhecido bode expiatório das estradas), outra. Mas há uma última causa, oculta, por trás destes números: o desleixo de certas autoridades públicas no desenvolvimento de ações de educação de trânsito.

O mais grave é que estas ações são exigência legal. Primeiro, por conta da Resolução 215/2010, do Conselho Nacional de Seguros Privados, que garante ao Denatran (Departamento Nacional de Trânsito) 5% do valor arrecadado pelo DPVAT – o seguro obrigatório que todo proprietário de veículo automotor terrestre recolhe anualmente em conjunto com o IPVA (Imposto sobre a Propriedade de Veículos Automotores) ou com o licenciamento do veículo.

Segundo, graças ao parágrafo II do Artigo 1º do Decreto 2867/98, que é taxativo a respeito desta exigência: 50% do valor bruto recolhido do segurado ao Denatran deve ser aplicado exclusivamente em programas destinados à prevenção de acidentes de trânsito.

Agora, o dado que mais assombra: os 5% citados acima equivalem a uma bolada de aproximadamente R$ 250 milhões apenas em 2010; em 2011, o valor deve chegar aos R$ 270 milhões, devido ao aumento da frota de veículos no País. Estes dados foram fornecidos por uma fonte altamente qualificada do setor de seguros de veículos.

Não que o Estado não tenha desenvolvido ações educativas de trânsito. Recentemente, o Ministério das Cidades patrocinou campanha na TV a respeito do tema e foi assim também inclusive no governo de Fernando Henrique Cardoso. Ocorre que a prevenção de acidentes nas estradas, assim como qualquer ação de cunho educacional, exige uma campanha massiva e permanente. Não foi o que ocorreu. A campanha educativa exposta na telinha, como geralmente acontece com ações com este perfil, surgiu e desapareceu com a rapidez de um bólido na Autobahn, a estrada alemã  sem limite de velocidade.

Para tornar a solução do problema ainda mais distante, o mesmo Denatran revela, por meio do Renavam (Registro Nacional de Veículos Automotores), que o Brasil fechou 2010 com uma frota de 64,8 milhões veículos. Em dez anos, o aumento acumulado atingiu a impressionante marca de 119%, o que equivale a mais 35 milhões de veículos nas ruas e estradas. Mais carros nas ruas e estradas significam, claro, mais acidentes – e mortos.

Encarar este problema, obviamente, não é só responsabilidade do Estado - e sim de todos nós. Mas cabe aos organismos estatais afetos ao tema, como o Denatran, cumprir melhor seu papel na solução do problema. Se há recursos para isto, como apontam os citados dados, o que falta é aprimorar e tornar permanentes as campanhas educativas. As estradas não precisam mais do sangue de tanta gente. Precisam, apenas, de motoristas bem educados para a vida estressante e violenta no trânsito.

Aurélio Munhoz no Twitter: http://twitter.com/aureliomunhoz

registrado em: