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Sociedade

Descargas aéreas

por Carlos Leonam e Ana Maria Badaró — publicado 26/07/2010 18h39, última modificação 26/07/2010 18h39
Voar cada vez mais tem se mostrado ser uma grande roubada

Voar cada vez mais tem se mostrado ser uma grande roubada

Os tempos de aviões com assentos vazios voaram para longe. Cruzando os oceanos ou o território nacional, é difícil um lugar sem dono. Nos vôos internacionais mais de 300 pessoas desconhecidas são praticamente obrigadas a ficar até por mais de nove horas sentadas desconfortavelmente. Os passageiros da primeira classe não contam. Não dá para entender por que esses rebeldes sem causa deixam um rastro de desordem quando desembarcam. Na econômica, voar com uma patota nem sempre solidária, com a sensação de estar em lugar nenhum, é como pegar um busão, um ônibus para o buraco negro.

O que é o céu à noite, a não sei quantos mil metros de altura? De dia, o céu também é nada. Visto da janela do avião é apenas o tal espaço aéreo, diga-se, de um trânsito infernal, cheio de rotas e cruzamentos perigosos, acima, abaixo, ao lado. Somente nos damos conta disso quando do lado de dentro vemos filas intermináveis de aviões turbinados, nos cascos, para decolar. Esperam a vez, digamos num quadragésimo lugar, isso quando um piloto, senhor de seu dever, resolve explicar o porquê da demora e a tripulação começa a servir água. Ou quando sobrevoam as cidades aguardando e uma vaga para pousar. Melhor nem pensar nisso. Uma vez lá dentro, há mais o quê pensar.

A senhorinha ao lado pode ser uma terrorista que escapou aos carrancudos revistadores e xerocadores de bagagens de mão, que nos despem, descalçam e nos apalpam (e somos gratos por isso), antes da entrada em operação do scanner.

Desde que aumentaram o peso máximo das bagagens de mão, antes eram delicadas frasqueiras ovais, nos vôos internacionais o pessoal abusa. Passageiros complementam sua quota máxima de peso com aquelas malas de rodinhas bem fornidas. Um casal, por exemplo, pode acrescer 16 quilos em trapiches.

De repente, é a corrida ao bagageiro. Jogam-se mochilas sobre a mala do outro, que reclama porque vai entortar a armação dos óculos novos, ou prejudicar o precioso Ipad. Esses dramas obstruem o corredor. O escarcéu se arma em pleno céu. O aeromoço com educada impaciência, acostumado a mediar barracos pressurizados, leva a incabível bagagem para os fundos da aeronave. (Na verdade, o espaço nos bagageiros se destina aos passageiros dos lugares correspondentes a eles, ou seja, logo abaixo, e não de quem entra primeiro no avião).

Preso à cadeira e com uma cinemateca emburrecedora a bordo, as coisas menos complicadas para os insones de avião são ouvir música, ler, comer, ir ao banheiro e ter o pensamento elevado. Se a viagem é de volta à rotina, pode-se concentrar no momento de dormir na própria cama. Simples assim. No ar, todas as tarefas requerem aptidões especiais. E como dormir sem uma nesga de “sossega leão” é para abençoados, é melhor não se ater em como os felizes ressonam quando é inevitável desfilar pelo corredor para ir ao banheiro. É a intimidade coletiva em momento supremo.

No Galeão, a mulherada do vôo faz a fila no toalete. Uma senhora rememorando sua viagem adverte a amiga: - “Ih, este aqui está com a descarga quebrada e não tem papel.” Uma voz ao lado replica: - “Nessa hora dá saudade das descargas automáticas”, referindo-se às válvulas fotoelétricas de banheiros de alta rotatividade em museus e aeroportos internacionais.

Quando ambas se cruzam diante do espelho a primeira diz à segunda: - “Mesmo com descarga quebrada e sem papel eu prefiro este primeiro mundo aqui porque é meu.” A interlocutora lava as mãos e sorri, antes que comece um embate ideológico a partir da descarga do vaso sanitário.

O melhor é rezar para que as malas que não vieram socadas no bagageiro aparecerem logo na esteira.

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