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Especial - 50 anos do golpe

Desastre planejado por mais de quatro décadas

por Darcy Rodrigues — publicado 05/04/2014 05h43
Lembro-me de uma frase de Lamarca: “Morrer é fácil, difícil é carregar os fantasmas dos que se forem”. Ainda hoje penso com tristeza não estar com ele nos anos 70 e 71

Recebi de meus pais uma educação baseada em muitos princípios. Quais foram os princípios de vida mais importantes que aprendi?  Essa era a pergunta que eu me fazia desde que decidi ingressar no Exército e seguir a carreira das armas, cursando a formação de Sargento na Escola de Sargento das Armas (ESA), na cidade de Três Corações, no sul do estado de Minas Gerais.

Comecei a pensar que acertara na escolha, pois teria as condições para defender os poderes constituídos e o progresso da sociedade como um todo.

Como recruta, comecei a notar as primeiras contradições. Um general legalista que havia defendido a Constituição em 1955, general Lott, tinha o apoio dos sargentos e um político demagogo, populista contava com o apoio dos oficiais, Jânio Quadros.

Jânio é eleito e eu ingresso da Escola de Sargentos. No dia do soldado, 24 de agosto de 1961, Jânio renuncia e a vacância do cargo abre o apetite de poder de muitos militares que vinham conspirando juntamente com a União Democrática Nacional, com o objetivo de assaltar o poder.

O governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola, com o apoio do III Exército sediado naquele estado, tendo a frente o general Machado Lopes resiste, e o movimento golpista é derrotado.

É importante entendermos qual a origem dessa ganância.  Hermes da Fonseca recebe a incumbência de modernizar o exército, do então presidente Afonso Pena.  Com a ajuda do ministro de Relações Exteriores Barão do Rio Branco, envia, em 1907, 1909 e 1910 turmas de cadetes para a Alemanha, para passar por estágios no Exército daquele país.

Não é de se estranhar que os militares alemães estivessem preparando-se para deflagrar a 1ª Guerra Mundial (1914-1918), e no movimento dos tenentes, em 1922, tivessem no primeiro momento, influência direta daqueles estagiários, num segundo momento essa influência perdeu força com a adesão do capitão Luis Carlos Prestes e uma plêiade de tenentes progressistas. Esse foi o motivo do racha do tenentismo. Tenentes em 22 e generais em 64.

Voltemos ao nosso assunto. Prestes comete um grave erro quando convidado por Getúlio para ministro da Guerra não aceita e indica Góes Monteiro. Este nunca escondeu sua aversão ao poder civil e deixou plasmado no pouco que escreveu que os militares iam muito jovens para as escolas militares e não tinham tempo de se corromper, coisa que não acontecia com os civis.

Não tenho medo de errar quando afirmo que os cadetes/ estagiários na Alemanha, chamados “jovens turcos”, foram fundamentais no golpe de 64.  Senão vejamos, o general Mourão Filho atropela o planejamento de golpe e desce de Pouso Alegre, em Minas Gerais, em direção ao Rio de Janeiro, o seu chefe de Estado Maior, o general Meira Matos, dá uma declaração no dia 8 de abril de 1964, afirmando que para acabar com a subversão dentro do Exército teria de serem fechadas as portas da Escola de Sargentos das Armas.  Em outras palavras os “sargentos formados pela EsSa contaminavam o Exército” pelo convívio com a sociedade civil.  Seu reconhecimento se dá com a sua nomeação para o comando da AMAN (Academia Militar das Agulhas Negras), encarregada de formar oficiais.

Chego a São Paulo em 1962, no 4º Regimento de Infantaria, em meio à turbulência causada pela derrota momentânea da tentativa de golpe de 1961.  Os sargentos se enchem de brio e começam a se organizar no clube dos Subtenentes e Sargentos do II Exército, o sargento Onofre Pinto organiza uma chapa de oposição que visa romper a continuidade da subserviência ao comando do II Exército e me convida para compor a chapa como vogal, ao que aceito. A máquina do comando exerce seu poder e somos derrotados.

Em Quitaúna, dois saudosos sargentos, Simões e Seiller, iniciam a elaboração de um Estatuto do Futuro “Círculo dos Subtenentes e Sargentos da Guarnição de Quitaúna”. Sou convidado e participo das discussões.

Os sargentos do Rio de Janeiro elegeram o sargento Garcia Filho deputado federal, e no Rio Grande do Sul o sargento Almore Zoch Cavalheiro, deputado estadual.

Acontece o levante dos subtenentes e sargentos, em 1963, em Brasília – DF. Vários sargentos são presos, em Quitaúna, acusados de contatos com os revoltosos de Brasília. Estava quebrada a regra de ouro das Forças Armadas – a hierarquia.

O jornal O Estado de S. Paulo solta um editorial menosprezando os sargentos, chamando-os de inocentes úteis a serviço de potências estrangeiras e outras idiotices.

Os sargentos organizam um protesto na avenida São Luiz, em frente à sede do jornal e em poucas horas colocam entre 300 e 500 sargentos fardados no local, exigindo retratação que não veio. Foram feitas fotos da manifestação e todos os reconhecidos foram punidos. Foi minha única punição político / disciplinar.

O então tenente Lamarca compunha o Batalhão Suez, e eu nem me alistei a esse batalhão priorizando minha permanência no quartel.

Eu possuía uma sólida formação profissional, exercendo funções de destaque, tanto como instrutor quanto como monitor em mais de um curso de formação de cabos.

Veio o golpe, e fui preso no dia 7 de abril junto com mais 21 sargentos da mesma unidade. Sabia que qualquer correspondência seria censurada e criei uma espécie de código com minha esposa, se aparecesse a palavra agasalho em qualquer correspondência significava que eu estava preso.

Recomendaram que os presos escrevessem que estavam de serviço fora da guarnição. Bingo!  “Aqui onde estou, a serviço, faz muito frio, me mande um agasalho!”  Estava dado o recado, estou preso.  Em 20 dias, aproximadamente, estive preso no Forte Itaipu, na Base Aérea de Itapema, e no Navio Raul Soares. Vencido o prazo regulamentar de Inquérito Policial Militar, sessenta dias, me reconduzem ao Forte Itaipu, então conheço o major Erasmo Dias de triste lembrança. Por força de regulamento, retorno ao 4º RI para reengajar.

Reencontro o então 1º tenente Lamarca logo promovido a capitão. Nutríamos um profundo respeito um pelo outro que logo se transformou numa amizade que cultivo e carregarei para o resto de minha vida.

Lembro-me de uma frase de Lamarca: “morrer é fácil, difícil é carregar os fantasmas dos que se forem”.  Ainda hoje penso com tristeza não estar com ele nos anos 70 e 71.

Fui preso no final do mês de abril de 70 juntamente com José Lavechia.  Inicialmente fomos mantidos presos no acampamento militar no Vale do Ribeira. Quando não estávamos sendo torturados com pau de arara e choques, permanecíamos estaqueados, ou seja, deitados no solo com pernas e braços abertos com pulsos e tornozelos amarrados a estacas.

Durante dez dias as únicas refeições foram uma caneca de café com leite e um pedaço de pão, e uma marmita de arroz com feijão sem nenhuma mistura. Na Operação Bandeirante eram torturas três vezes ao dia, manhã, tarde e noite, durante as folgas das torturas ficava numa cela forte (uma caixa de metal minúscula).  Foi assim até a transferência para a Base do Galeão.

No sequestro do embaixador alemão eu estava preso na Base Aérea do Galeão.  Os quatro presos do Vale do Ribeira só foram incorporados aos 36 outros prisioneiros na hora do embarque para a Argélia.

Os portugueses degredaram os heróis da Inconfidência. Os banidos foram os degredados do regime militar. A diferença é que os portugueses formavam um poder colonial estrangeiro. Nós fomos degredados por brasileiros e pior, colegas de profissão.

Para homenagear os 50 anos do golpe militar de 64, a minha proposta é a de que a sociedade homenageie aqueles “patriotas” instituindo as medalhas:

a) “Joaquim Silvério dos Reis” - para os arquitetos das aberrações jurídicas como os Atos Institucionais, complementares, banimentos e as constituições outorgadas.

b) “Calabar” - para os diligentes torturadores e mandantes, por trabalhos prestados à memória de Hitler, Mussolini, Franco, Salazar, Pinochet, etc.

*Darcy Rodrigues formou-se em pedagogia antes de 1968 e, depois da anistia, em economia em Cuba e bacharelado em direito em Bauru (SP). Exerceu cargos comissionados na Prefeitura de Bauru. Seu relato é parte de uma série de artigos para o especial Ecos da Ditadura, sobre os 50 anos do golpe militar