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Desafio nas montanhas

por Bruno Huberman — publicado 14/10/2010 16h41, última modificação 14/10/2010 16h41
Brasileiro está prestes a ingressar no hall da fama da ultramaratona mais tradicional do planeta

Brasileiro está prestes a ingressar no hall da fama da ultramaratona mais tradicional do planeta

No interior da África do Sul desponta, imponente e amendrotadora, The Big Five, a cadeia de montanhas infindáveis onde a temperatura costuma ficar abaixo de zero. O frio congela as extremidades do corpo, o ar, rarefeito, parece faltar. Já é difícil enfrentá-las em uma caminhada comum. Imagine em uma corrida. Neste ano, por causa da Copa do Mundo, 24 mil corredores, profissionais e brasileiros, encararam a aventura (nos anos anteriores, a média foi de 15 mil). Entre eles, um brasileiro. Mais do que um competidor comum, uma lenda. Paulo Renato Corrêa do Amaral, o Nato, está prestes a entrar para o hall da fama da Comrades, a ultramaratona mais difícil do mundo. Nato completou os 89 quilômetros da prova nove vezes. Em 2011, se tudo der certo, somará dez participações, feito de poucos. “É uma realização imensa correr a Comrades”, afirma.

Engenheiro de profissão, Nato não é atleta profissional, o que aumenta o peso de sua realização. Não recebe patrocínio e paga do próprio bolso todo o -custo – que inclui passagem, hospedagem, equipamentos e inscrição – necessário para participar da corrida.

A Comrades começa por volta de cinco e meia da manhã. Os atletas estão equipados. Luvas para resistir ao frio. Boné para a hora do sol a pino. Gel hidratante. Dois cronômetros, um em cada pulso. A prova pode demorar até 12 horas. O recordista é o russo Leonid Svetsov com o tempo de cinco horas e vinte minutos. “É surreal a marca dele, quase sobre-humana”, afirma Nato, cujo melhor tempo foi de oitos horas e vinte minutos.

Uma vez Nato quase desistiu. O trajeto é entre Pietermaritzburg e Durban. A cada ano, o sentido da largada se inverte. Naquele em que o brasileiro esteve perto de deixar a prova, a saída foi em Pietermaritzburg. A cidade fica mais próxima de The Big Five e os atletas enfrentam o gelo da cadeia de montanhas logo no alvorecer. Nesse dia, em uma de suas primeiras participações, Nato perdeu as luvas no sopé da montanha. “Não sei como suportei o frio”, lembra.

Quando as subidas começaram a ficar cada vez mais íngremes e o tempo literalmente fechou, Nato arrependeu-se de não ter recuperado as luvas do chão. O frio congelou as mãos, as orelhas e o nariz. A desistência tornou-se uma ideia bem -considerável, porém, naquela situação não adiantaria muito, pois o frio não iria embora. O melhor a fazer seria correr. Foi o que fez, o mais rápido que pôde. “A superação numa competição como essa não é apenas física, mas mental”, diz. Além das dores, o maratonista tem de saber lidar com as alterações de humor. Segundo Nato, atletas que participam de provas de longa duração e alta exaustão física tendem a ficar deprimidos e desistir.

O engenheiro participou da Comrades pela primeira vez em 2001, incentivado pelo atual treinador Branca. Como participava de maratonas havia tempos, Nato decidiu encarar o maior desafio da carreira. “Participar da Comrades é a evolução de qualquer maratonista.” Ao lado do técnico, intensificou a carga de treinamento, que passaram a ser de 80 quilômetros semanais.

Para ingressar no hall da fama é necessário completar a prova dez vezes. “A Comrades premia quem tem uma grande regularidade e não apenas aqueles que terminam entre os primeiros”, comenta Nato, que acumula nove medalhas, cinco do tipo “prata-bronze”, destinada àqueles que completam o percurso entre sete e nove horas, também chamada de Bill Rowan Medal, em homenagem ao primeiro ganhador da competição. Disputada desde 1921, idealizada pelo sul-africano Vik Claphan com o objetivo de homenagear os combatentes mortos na Primeira Guerra Mundial, a Comrades foi a primeira ultramaratona do mundo.

O esforço compensa, diz Nato, ao entrar no estádio e ser recebido com aplausos pelos milhares de espectadores. “É muita emoção participar da Comrades. A vibração da população é incrível.”

A competição mobiliza a África do Sul. As rodovias são fechadas para a passagem dos atletas. Milhares de sul-africanos vão às ruas acompanhar. “São raros os momentos em que não há ninguém torcendo por nós”, conta Nato. A televisão transmite as 12 horas de prova ao vivo.

Com a experiência adquirida ao longo dos anos, os únicos imprevistos são as inevitáveis idas ao banheiro. Na prova deste ano, um pequeno mal-estar obrigou Nato a parar e recorrer a um dos postos de apoio. “É péssimo quando isso acontece, você perde ritmo e o tempo vai lá para cima.” Por isso, a preparação tem de ser muito precisa. Desde setembro deste ano, Nato treina para a prova de 2011. A sua vida gira em torno da Comrades.

O treinamento segue até meados de maio, quando Nato parte novamente para a África do Sul. “Neste ano vou intensificar o treinamento para conseguir o meu melhor resultado”, diz, nervoso e excitado com a ideia de ingressar no Green- Number Club, como é chamado o seleto grupo de competidores que entram para a história da Comrades. No Green Number Club, o atleta tem seu número eternizado e tingido de verde a partir do ano seguinte. No caso de Nato, será o 48.418. “O meu objetivo é comemorar meus 50 anos, em 2020, com o Double Green Number.” E quem duvida?

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