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Depois de um atoleiro, vem outro

Estrada federal que liga o município de São Gabriel da Cachoeira a comunidades indígenas da região está repleta de armadilhas. Culpa dos militares, dizem os locais
por Bruno Huberman — publicado 30/07/2010 10:57, última modificação 02/08/2010 23:12
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Viagem para São Gabriel da Cachoeira segue pela estrada de lama. Foto: Bruno Huberman

Estrada federal que liga o município de São Gabriel da Cachoeira a comunidades indígenas da região está repleta de armadilhas. Culpa dos militares, dizem os locais

Cada vez que o Toyota branco parava na frente de um atoleiro era sinal de preocupação. Coelho, o motorista, fazia uma cara de contrariado, abria a porta, acendia mais um cigarro e ficava olhando para o obstáculo. A cena se repetiu algumas vezes ao longo do dia. A cada atoleiro, lá ia ele mais uma vez, com uma nova dose de nicotina na boca, analisar a situação.

Então é que se juntava a essa prévia Ivo, outro bravo condutor que se arrisca pelo “Estirão do Inferno”, como foi batizada a BR-307. A estrada ligava o município amazonense de São Gabriel da Cachoeira ao de Cucuí, já na Venezuela, logo na fronteira com o Brasil. Agora, por falta de cuidado, a mata fechou perto do quilômetro 100 e a pista só leva até menos da metade dos 250 que separam as duas cidades.

Por aquela estrada ninguém se arrisca sozinho. Ivo e Coelho estão nessa juntos há vários anos. Um reclama do outro, mas, no fim, formam uma dupla inseparável. Pelas dificuldades da estrada, uma viagem pelos seus atoleiros custa R$ 500,00 e nem adianta reclamar. Quem conhece o estado em que a rodovia se encontra nem pestaneja.

À beira do lamaçal, após a rápida análise, Ivo, Coelho e quem mais quisesse ajudar, com pás e picaretas nas mãos, se sujavam de lama para fazer uma trilha para seguir viagem. Apenas as Toyotas, todas com tração nas quatro rodas, conseguem chegar ao outro lado e continuar pela estrada de terra até o próximo atoleiro.

A ponte inexistente

O objetivo da nossa viagem era a Comunidade do Balaio, localizada dentro da Terra Indígena do Balaio. A história de lá contamos depois. Conosco e o Coelho estavam o Thiago, capitão do Balaio, com sua esposa e enteado, Rosimere, professora e irmã de Thiago, Vitória, a filha de Rosimere e a indiazinha mais fofa de todas, o seu Casemiro, pai de Thiago e Rosimere, e um casal de cariocas que conhecemos no barco de Manaus para São Gabriel, Juliana e Marcelo. Tivemos que juntar toda essa turma para conseguir pagar a nossa viagem ao Balaio.

Outro problema para depois que cruzássemos todos os atoleiros era a ponte de Ia-mirim, que recebe esse nome graças à comunidade que fica a poucos metros do encontro da estrada com o rio. O problema era que não havia ponte. Por ser uma estrada federal, é responsabilidade do governo de tal ordem a sua manutenção. E a mais forte representação do governo para arcar com a responsabilidade na região, talvez a única, é o Exército. O batalhão de engenharia do Exército, ligado à 3a Brigada de Infantaria de Selva, é o responsável pela construção da ponte e pela manutenção da estrada.

A pista é um dos maiores problemas dos moradores da comunidade do Balaio e das outras comunidades da região. Mesmo quem tem carro não se arrisca sozinho, porque corre o risco de atolar e não ter ninguém para o resgate. Também não dá para depender da dupla Ivo e Coelho ou do Exército, porque os primeiros são muito caros e o segundo, se lhe der uma carona, estará sempre fazendo um favor.

E essa história da estrada e a sua alcunha são um problema para a região há pelo menos seis anos. Quando passamos por ela em janeiro, estava ótima. O exército havia acabado de cuidar da pista. Em menos de três horas ia-se de São Gabriel ao Balaio. Dessa vez, demoramos mais de seis horas para ir apenas até o Ia-mirim.

O Exército entra em cena

Os maiores culpados por essa situação, segundo os moradores da região, são os militares. Os locais dizem que o Ministério dos Transportes libera o dinheiro para a engenharia do Exército realizar as reformas, mas os resultados das obras não duram. O motivo é um: piçarra. Piçarra é um tipo de solo que se coloca nas estradas desse tipo para que não se formem atoleiros, já que ela sedimenta. Os militares, no entanto, só usam barro. Com tratores eles retiram os atoleiros, aplainam a estrada e a nivelam com a lama. Com o tempo e as chuvas, os atoleiros vão se formando novamente e a história recomeça.

Voltando à viagem. Após essa aventura de mais de seis horas debaixo de um sol de rachar [Nota: a estrada cruza a Linha do Equador – tem placa e tudo mais – apenas para se ter uma idéia do calor que passamos], cansados e com dores após um longo tempo sentados nas caçambas dos veículos, sujos de lama depois de ficar empurrando a caminhonete para fora de atoleiros e cavando feito tatus, chegamos ao Ia-mirim. Realmente, a ponte não está lá. É apenas um projeto, em construção há mais de dois meses.

Um destacamento da engenharia do Exército está hospedado na Comunidade do Balaio desde o início da obra. Para Thiago, “tempo demais”. Quando serviu ao Exército Brasileiro na década de 80, ainda sob o regime da ditadura, Thiago também fez parte da engenharia. Na sua época, eles demoravam não mais de um mês para construir uma ponte. Agora, Thiago vê corpo mole nos militares, que ainda estão longe de concluir o acesso no Ia-mirim.

Atravessá-la foi um tanto “sinistro”, como disse nossa amiga carioca Juliana ao realizar tal proeza. Carregando malas e sacolas com comidas, roupas e outros utensílios, cruzamos o projeto de ponte por um caminho formado por duas tábuas postas lado a lado de uma margem à outra, seis metros acima do rio. Cair não seria nada bom. Felizmente, não tivemos problema.

Do outro lado, um caminhão do Exército nos levaria até o Balaio. De novo dentro da caçamba. Só que o intenso calor das horas anteriores fez com que viesse a tempestade. Resultado: todos molhados e nossas malas e sacolas idem. E os atoleiros? O caminhão os ignorava, passando por cima sem dó nem piedade. Debaixo de muita chuva, finalmente conseguimos chegar à Comunidade do Balaio, por volta das quatro horas da tarde. Levamos um dia inteiro para cruzar menos de 100 quilômetros. A vida no extremo oeste da Amazônia não é fácil.

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