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Cultura de paz e o novo Nobel

por Wálter Maierovitch publicado 30/10/2010 10h31, última modificação 30/10/2010 10h31
O oportuno prêmio a Liu Xiaobo, preso na China por delito de opinião e laureado pela Academia Sueca

O oportuno prêmio a Liu Xiaobo, preso na China por delito de opinião e laureado pela Academia Sueca

Em oslo, no começo deste mês e em face da correlação entre direitos humanos e cultura de paz, a comissão encarregada do Prêmio Nobel de 2010 elegeu o chinês Liu Xiaobo, de 54 anos. Esse primeiro chinês a vencer um Nobel da Paz encontra-se encarcerado em Jinzhou, na Manchúria, onde desconta a pena de 11 anos de detenção por reincidência em crime de subversão.

Na verdade, trata-se de condenação por delito de opinião. Xiaobo, um professor de estética e de literatura chinesa, elaborou a denominada “Charta 2008”, um documento com críticas ao governo por não permitir a livre expressão de pensamentos e por descumprir o disposto no artigo 35 da Constituição da República Popular da China: “Os cidadãos gozam da liberdade de expressão, de imprensa, de assembleia, de associação, de passeatas e manifestações”. O documento circulou inicialmente com 303 assinaturas e quando apreendido pelos 007 da inteligência chinesa já estava com 10 mil. A condenação e prisão de Xiaobo é de 25 de dezembro de 2009, ou seja, um ano depois da circulação do documento de protesto.

O ativista chinês tornou-se internacionalmente conhecido em junho de 1989, por ocasião de uma manifestação de estudantes e de operários na Praça da Paz Celestial. Eles protestavam contra a corrupção desenfreada na administração pública e a falta de liberdade. À época, Xiabo foi preso e dado como um dos principais líderes da “Revolta da Praça Tiananmen”. No curso dos protestos, o ativista fez greve de fome por 72 horas. Isso não lhe tirou as forças para, quando os tanques de guerra e batalhões de soldados cercaram a praça, negociar com os agentes do governo, tudo para evitar confrontos e derramamentos de sangue.

A propósito, ao saber da preparação da manifestação na Praça Tiananmen, Xiaobo deixou os estudos na Columbia University, em Nova York, e rumou para Pequim. Pela participação na revolta ficou preso de 1989 a 1991. Posteriormente, por protestos escritos e difundidos, recebeu e cumpriu pena de trabalhos forçados em 1999.

Com efeito, o governo chinês se enfureceu com a notícia de Oslo e considerou a escolha do Nobel da Paz uma “provocação indecente” à Justiça, que declarou Xiaobo um criminoso. O país proibiu a divulgação do prêmio e ordenou o isolamento em casa de Liu Xia, esposa de Xiaobo. Por enquanto, ela ainda tem autorização para se deslocar mensalmente para visitar o marido na prisão, pelo tempo de 60 minutos. Apesar dos bloqueios, uma mensagem de Xiaobo acabou difundida pela internet: “Quero dizer ao governo, que me tirou a liberdade, aquilo que venho repetindo há 19 anos, isto é, não tenho inimigos e não conheço o ódio”.

Não se trata de novidade a escolha recair num dissidente. Em 1991, venceu o Nobel a pacifista Aung San Kyl, filha do herói da independência da Birmânia e vítima dos abusos e das arbitrariedades da narcoditadura militar que se apoderou do governo do país dos diamantes, rebatizado de Mianmar. Aung Kyl, hoje com 64 anos, encontra-se presa, ora em cela, ora em domiciliar, há 14 anos.

Bem antes dela, em plena Guerra Fria, levou o Prêmio de 1975 o físico soviético Andrei Sakharov, apenas reabilitado no governo Mikhail Gorbachev (1985-1991). A iraniana Sharim Ebadi, vencedora do Nobel da Paz de 2003, é uma opositora da teo­cracia iraniana, sem nunca ter sido uma admiradora do corrupto xá da Pérsia. Ela acaba de fazer considerações pertinentes sobre o acerto da escolha de Xiaobo, cuja luta não violenta em prol dos direitos humanos afirmou ter sempre acompanhado atentamente. O contrário afirmou o ministro brasileiro Marco Aurélio Garcia, assessor para Assuntos Internacionais do presidente Lula, que em entrevista ressaltou nunca ter ouvido falar do chinês Xiaobo. E a recíproca deve ser verdadeira.

Para Ebadi, numa crítica aberta aos países que incensam a China, “o progresso econômico não é suficiente para legitimar um regime político. Deve ser levado em consideração o que esse país faz em respeito à dignidade humana. E a China é um dos maiores violadores dos direitos humanos no mundo”.

Como se sabe, a China é o país que mais condena e executa sentenças impositivas de pena de morte. Em 2009, foram enforcados 5.619 chineses. Só para lembrar, já que foi citada Ebadi, o Irã ocupa o segundo posto na tabela dos Estados assassinos, com 402 execuções capitais em 2009: a Justiça norte-americana, em 2009, cumpriu 52 sentenças de pena de morte, com injeção letal, considerado, pelos norte-americanos, como avanço humanitário.

E não deixou Ebadi de lembrar o apoio do governo chinês a países violadores de direitos fundamentais dos seres humanos, casos de Sudão, Coreia do Norte e Mianmar. Aos fervorosos regimes de fé capitalista, Ebadi alertou: “Os que acreditam na importância dos direitos humanos deveriam fazer menos negócios comerciais com a China”.

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