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Cuidado com o vão

por Carlos Leonam e Ana Maria Badaró — publicado 30/04/2010 17h39, última modificação 20/09/2010 17h40
Somos tomados por um sentimento de distância no tempo quando achamos que todos são mais jovens do que nós

Somos tomados por um sentimento de distância no tempo quando achamos que todos são mais jovens do que nós

Começamos a perceber que estamos ficando velhos quando, além das evidências do espelho, principalmente à luz natural, achamos que todos são mais jovens do que nós. Em qualquer lugar e circunstância. Ou que, os aparentemente mais velhos, são mesmo velhos, quase velhinhos.

Então, reagimos de pronto. Aprumamos a coluna e nos iludimos. Ombros para trás, peito para frente, barriga para dentro, quadril encaixado. Tudo voltará ao mesmo lugar errado em segundos. O desmonte esquelético é imperceptível e involuntário. Se você sabe o que isso é, porque é um dos raros (embora as estatísticas digam o contrário) que estão ficando velho.

A mudança postural é uma das tentativas de espanar a idéia de que estamos com um pé na faixa amarela da senilidade. O sinal pintado no chão é o mesmo que nos separa das obras de arte nos museus para que não babemos no Picasso ou rocemos o dedinho num Rodin.

Também no metrô, lá está a faixa amarela sonorizada com uma frase-chiclete, principalmente se dita em inglês, e que ecoa a todo momento. No velho underground londrino gruda nos ouvidos: “Mind the gap”, ou seja, cuidado com o vão.

O vão é esse sentimento de distância no tempo que nos toma quando achamos que todos são mais jovens do que nós. Mas para dizer um grande sim à vida, temos de botar os pezinhos na faixa amarela, sim senhor. Só que esquecemos deste detalhe rapidamente e voltamos a observar basbaques como o mundo é jovem.
O mercado é um dos responsáveis pela sensação de que abriram a gaiola dos pássaros da juventude nas praias, ruas, hospitais, bancos, na RPG, no salão de beleza, restaurantes, aeroportos ou lá seja por onde se pise.

Uma das coisas mais confortantes para quem viaja de avião é ver o rosto da tripulação. Salvo exceções, guarda-se lá no fundo aquele ceticismo sobre o fenômeno que é aquela coisa voar horas e horas sobre oceanos, florestas, cordilheiras e largar a gente a salvo do outro lado do planeta.

Mas por força dos terroristas de plantão, pilotos e co-pilotos ficam trancados nas cabines e não mais passeiam pela aeronave distribuindo simpatia. Pelo sistema de som do avião ficamos imaginando a cara do piloto, como se fosse um ator de radionovela. Mas quando, de soslaio, os vemos embarcando antes de nós, descobrimos que parecem jovens de mais para conduzir máquinas tão poderosas levando nossas velhas e preciosas vidas. Aeromoças e comissários então estão cada vez mais moços. E quando nos oferecem balas e sorvetes, parecem crianças generosas.

Longe de colocar em dúvida o profissionalismo dos menos velhos. Mas a juventude desses belos pássaros é tanta que a sensação de desproteção que toma os passageiros aspirantes a velhos ou, vá lá, velhos pode se confundir com paternalismo. Em caso de emergência, não teriam de cuidar daquela garotada, antes de pensar em agarrar sua máscara que cairá automaticamente em caso de despressurização da cabine? (AMB).

O Hino do Rio – Depois de um desses torós que assolam o Rio desde que Estácio de Sá fundou a cidade em 1565, o sambista Moreira da Silva resolveu relatar sua odisséia, citando especialmente a Praça da Bandeira, que, nos anos 50, já virava uma imensa lagoa. Apropriadamente, o samba de breque se chamava Cidade Lagoa e dizia assim – qualquer semelhança não será mera coincidência:

“Esta cidade, que ainda é maravilhosa,/Tão cantada em verso e prosa,/
Desde os tempos da vovó.../Tem um problema, crônico renitente,/
Qualquer chuva causa enchente,/Não precisa ser toró./
Basta que chova, mais ou menos meia hora,/
“É batata, não demora, enche tudo por aí./Toda a cidade é uma enorme cachoeira,/Que da Praça da Bandeira,/Vou de lancha a Catumbi.
Que maravilha, nossa linda Guanabara,/Tudo enguiça, tudo pára,
Todo o trânsito engarrafa.
“Quem tiver pressa, seja velho ou seja moço,/Entre n'água até o pescoço,
E peça a Deus pra ser girafa./Por isso agora já comprei minha canoa,
Pra remar nessa lagoa, toda a vez que a chuva cai,/
E se uma boa me pedir uma carona,/Com prazer eu levo a dona,
Na canoa do papai.”