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Ele tem um talento divino, e sabe disso

por The Observer — publicado 26/11/2013 09h02, última modificação 26/11/2013 17h07
Por que alguns grandes atletas são amados e respeitados, enquanto outros são Cristiano Ronaldo? Por Tim Lewis, do Observer
Real Madrid
Cristiano Ronaldo

O atacante Cristiano Ronaldo durante a goleada do Real Madrid contra o Almería

Por Tim Lewis

Por que alguns grandes atletas são amados e respeitados, enquanto outros são Cristiano Ronaldo?

Veja um exemplo. Algumas semanas atrás, perguntaram a Sepp Blatter na sociedade de debates Oxford Union em Londres quem ele considera o melhor jogador: Ronaldo, o atacante de 28 anos do Real Madrid e da seleção portuguesa, ou Lionel Messi, seu grande rival no Barcelona e na Argentina? Bem, poderíamos ter esperado que o presidente da Fifa, o órgão internacional que administra o futebol, percebesse a armadilha e se posicionasse em cima do muro.

Mas não. "Lionel Messi é um bom menino, o filho que toda mãe e todo pai gostariam de ter", disse. "Ele é um homem bom... gentil... é isso que o torna tão popular." Blatter não parou aí. Decidiu que era o momento de revelar a imitação de um Ronaldo pretensioso que ele vinha ensaiando a portas fechadas, e declarou: "Um gasta mais com o cabeleireiro que o outro". E concluiu: "Gosto dos dois, mas prefiro Messi".

Foi uma apresentação extraordinária, quase tão ultrajante e chocante quanto a que o próprio Ronaldo fez na semana passada. Mas Ronaldo não precisou de palavras: nos 38 minutos do segundo tempo, marcou o terceiro gol de Portugal contra a Suécia e garantiu um lugar para seu país na próxima Copa do Mundo. Enquanto a torcida sueca gritava "Messi, Messi" – uma tentativa de irritar Ronaldo que costuma funcionar; certa vez ele ergueu o dedo médio em resposta –, o jogador ofereceu um dos grandes espetáculos individuais do futebol.

Na verdade, Ronaldo se manifestou. Depois de marcar o segundo gol, ele parou, apontou teatralmente para o chão e gritou: "Eu estou aqui!" Apesar de basicamente não ter sentido, a declaração pareceu bastante reveladora: lá estava alguém totalmente seguro de sua própria grandeza; um homem demonstrando seu desdém por um esporte supostamente de equipe. É essa arrogância descarada que Blatter e outros acham tão decepcionante em Ronaldo.

É uma questão recorrente em qualquer discussão sobre o jogador. Quando o nome de Messi surge, falamos sobre seus dons sublimes em campo, como a bola parece magnetizada por sua chuteira esquerda, como o pequeno garoto com uma deficiência de crescimento passou a dominar o futebol mundial.

Com Ronaldo é diferente. Somos distraídos pelo uso excessivo de produtos no cabelo e por sua predileção por posar de cuecas. Desdenhamos de sua natureza teatral, seja cavando um pênalti ou derramando lágrimas de crocodilo. Seu físico cinzelado cheira a privilégio de rico, assim como o fato de ele namorar a modelo de maiôs russa Irina Shayk. Manchetes dúbias giram ao seu redor: ele foi preso e liberado sob suspeita de estupro em um hotel em Londres em 2005. Em 2010, anunciou o nascimento de seu filho, Cristiano, em sua página do Facebook; a identidade da mãe continua um mistério, mas reportagens sugerem que ele pagou a uma mãe de aluguel mexicana 10 milhões de libras pela "guarda exclusiva" da criança.

Certa vez perguntaram a Ronaldo por que as multidões o vaiam. Ele revidou: "Porque sou rico, bonito e um ótimo jogador".

Sim, essa última parte: ele é um ótimo jogador, no entanto, bizarramente – por causa das outras coisas, como às vezes usar sungas de banho –, consegue ser subvalorizado. Seu brilhantismo ficou evidente na noite de terça-feira 19 em Estocolmo. Quando gritou "Eu estou aqui!", tinha razão, não tinha? Havia marcado todos os gols de Portugal na vitória por 3 a 2; e também fez o único gol no primeiro tempo da partida. Mesmo que você acredite que seus motivos para querer que seu país jogue na Copa do Mundo fossem totalmente egoísticos – um argumento radical –, você também poderia ver seu desempenho como uma inspiradora demonstração de patriotismo.

Essa foi exatamente a reação em Portugal. Os comentaristas de TV gritavam "Obrigado, Cristiano", enquanto o jornal esportivo diário O Jogo previa: "Se fosse preciso, ele pilotaria o avião [para o Brasil]". Depois de marcar o terceiro gol, Ronaldo foi soterrado por um monte de companheiros de time e reservas em jaquetas acolchoadas, em uma demonstração de exuberância ingênua que se poderia esperar de garotos de 8 anos, mais que de jogadores profissionais.

Não está na hora de deixarmos de lado nossos preconceitos e admitir que Cristiano Ronaldo não apenas é realmente ótimo, como talvez seja o melhor jogador do mundo hoje?

Todo mês de janeiro, a Bola de Ouro da Fifa é concedida ao principal jogador dos 12 meses anteriores. O prêmio é votado por jogadores, treinadores e jornalistas, e se isso faz parecer que tem elementos de um concurso de popularidade os resultados recentes são claros: desde 2009 Messi ganhou todos os anos, com Ronaldo na disputa por três vezes.

Apesar de todas as suas supostas diferenças, as origens dos dois jogadores são semelhantes. Ronaldo cresceu pobre, dividindo um quarto com seu irmão e duas irmãs na ilha da Madeira. Seu pai era um jardineiro e sua mãe, cozinheira, e ele deixou a escola aos 14 anos, expulso depois de atirar uma cadeira contra o professor. Ele diz que nunca teve brinquedos ou presentes de Natal, e a primeira vez em que viajou de avião foi em 2003, aos 18 anos, quando foi contratado pelo Manchester United. Quando Ronaldo ganhava espaço em seu primeiro time, em 2005, seu pai morreu de uma doença do fígado causada pela bebida.

Embora Messi possa parecer o mais humilde dos dois – ele só jogou para o Barcelona e diz que sempre o fará –, fora de campo há pouco que os separe. A revista Forbes classificou Ronaldo em nono e Messi em décimo lugar em sua lista de atletas mais bem pagos em 2013: Ronaldo recebeu 23 milhões de dólares do Real Madrid e 21 milhões em merchandising da Nike, Castrol e Konami; enquanto isso, Messi ganhou a mesma quantia de seus patrocinadores (Adidas, PepsiCo e Electronic Arts entre eles), mas teve um salário do Barcelona de 20 milhões de dólares. Enquanto Ronaldo posou para Armani, pode ser uma surpresa saber que Messi tem um relacionamento com a grife de moda Dolce & Gabbana e não é difícil encontrar fotos dele todo azeitado, usando cuecas justas D&G – se você gostar desse tipo de coisa.

Na verdade, quanto mais se mergulha na vida de Ronaldo, mais se percebe como sabemos pouco sobre ele. Quando Cristiano Jr. nasceu, uma postagem no Facebook disse: "Não serão dadas mais informações sobre este assunto" – e ele não cedeu, deixando escapar raros vislumbres de seu relacionamento. Depois do primeiro tempo do jogo de Portugal contra a Suécia, Ronaldo foi interrompido na área de mídia por seu filho de 3 anos, que perguntou: "Papai, posso dormir com você esta noite?" Ele riu, e foi um momento realmente encantador.

É possível que saibamos mais sobre Ronaldo quando ele inaugurar um museu dedicado a sua pessoa em Funchal (Madeira) no ano que vem. Ele vai abrigar suas medalhas – ganhou quatro campeonatos na Inglaterra e na Espanha, uma Liga dos Campeões para o Manchester United e a Bola de Ouro em 2008 – e certamente será popular: Ronaldo tem 65 milhões de fãs no Facebook, mais que qualquer outro atleta do mundo; Messi tem 50 milhões. Um bônus é que todo mundo hoje pode fazer piadas sobre o egomaníaco que abre um museu dedicado a si mesmo.

Depois da semana passada, Ronaldo talvez esteja mentalmente deixando espaço no museu para a estátua da Bola de Ouro 2013. A votação termina na sexta-feira 29, embora haja uma sugestão de que ele vai boicotar a cerimônia, em troco pelas gozações de Blatter. Ronaldo certamente é um forte candidato: até agora nesta temporada marcou 32 gols em 20 partidas, incluindo três gols em cinco delas. Neste ano-calendário, seu total é de 66 gols em 50 jogos. É um desempenho que certa vez levou o ex-atacante do Chelsea Didier Drogba a descrever Ronaldo e Messi como "monstros", por demolirem completamente os recordes modernos de gols.

Perguntaram a Ronaldo na terça-feira 19 à noite se estava jogando melhor que nunca. "Talvez, em relação à quantidade de gols que estou marcando, este seja o melhor momento da minha vida", admitiu. "Talvez esta seja minha melhor temporada, mas acredito que isso acontece todo ano. Não quero mais falar sobre a Bola de Ouro."

Ronaldo talvez ainda não seja amado, mas hoje é impossível não respeitar seu talento. Enquanto isso, Messi está afastado por alguns meses depois de sofrer uma lesão na panturrilha e teve de enfrentar a mancha em sua reputação de ser acusado nos tribunais espanhóis por uma fraude fiscal de 3,4 milhões de libras – ele foi totalmente inocentado no mês passado.

Mesmo que as discussões sempre sejam acirradas sobre seus respectivos méritos, todos podem concordar que a Copa do Mundo 2014 será mais interessante, agora que Ronaldo confirmou sua participação.

Nascido em 5 de fevereiro de 1985 em uma casa de dois quartos na ilha da Madeira. A casa foi considerada feia e demolida há cinco anos. Ronaldo hoje vive em uma mansão de 5 milhões de libras (18,5 milhões de reais) em Madri, com sua marca registrada "CR7" a enfeitar as janelas, a mesa de jantar e os pratos.

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O melhor momento. Desde que entrou para o Real Madrid em 2009, por uma soma então recorde de 80 milhões de libras, ele marcou incríveis 226 gols em 216 jogos.

Pior momento. O Madrid com frequência perde para o Barcelona de Lionel Messi. Ronaldo ganhou apenas cinco dos 20 jogos "clássicos" de que participou.

O que ele diz: "Não tenho de provar nada para ninguém. Acho que mostrei quem sou nos últimos anos, marcando 40 a 50 gols a cada temporada. Estão aí para qualquer um ver e mostram o jogador que sou. Se sou o melhor do mundo? Não sou obcecado por isso."

O que eles dizem: "Ele é uma máquina. Seria uma injustiça se Ronaldo não ganhasse [a Bola de Ouro]". Miguel Veloso, meio-campo do Dynamo Kiev e de Portugal.