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Craques e brutamontes

por Redação Carta Capital — publicado 23/05/2012 14h07, última modificação 23/05/2012 14h07
Treina-se um jogador para disputar partidas de futebol, não provas de velocidade

Por Afonsinho

Choro, tristeza, desânimo entre os perdedores. Quase não se fala deles, esquecimento. Euforia, festança, parabéns aos campeões, bicampeões, especialmente ao trissantista, pelo seu significado.

Outros campeões nem são lembrados, e são tantos, o que não serve de desculpa. Alguns são de estados que vão sediar o Mundial de 2014. De qualquer maneira, bem-vindos Águia Negra (MS) e Cametá (PA).

A emoção maior ficou para o fim do campeonato inglês, com a incrível história de um time para o qual bastava uma vitória considerada fácil, mas que só veio de virada nos acréscimos, com dois gols milagrosos e a torcida extenuada depois de 44 anos de perseverança. No estádio superlotado, o mais bonito foi o pequeno cartaz na multidão azul “Manchester City é nosso”. Certamente em alusão aos clubes com “donos”. Ah, Tempos Modernos!

Por mais que os clubes passem a ser dominados por empresários, empresas, sejam financiados por dinheiro de qualquer origem, a alma do time é a torcida. Em qualquer sistema político-econômico o torcedor é que os move. Tudo muda, se transforma, mas a paixão por suas cores queridas é o que sustenta tudo. Se o torcedor não se apropria, não conquista sua participação. O fogo pode se apagar, como lembrou Gonzaguinha, “se acabarem seu carnaval”.

Há muitos exemplos até de países que somem do mapa. As pessoas seguem a viver sob jugos diferentes. Acabam-se as copas, a Champions League europeia, a Libertadores, abrem-se as janelas de transferências e pronto, página virada.

Estamos a três meses das Olimpíadas de Londres, fecha-se o quadro de participantes. Convocar a equipe olímpica como base da Seleção de 2014 pode ser boa política. Com os retoques da atualização no tempo e no regulamento, chegamos lá.

Fico animado e já tenho a linha pronta: Lucas, Damião, Neymar e Nem. O treinador que se vire para arrumar os espaços e um lugar para o Ronaldinho. O Gaúcho é o melhor jogador brasileiro em atividade. Não está jogando nada, mas é o melhor. Voltou na hora certa, com tempo de sobra para se reacomodar no futebol de casa.

Duas coisas preocupam nele. Entrou de vez no futebol sem compromisso, um negócio como outro qualquer? Divide-se o produto do bolo e vamos nos exibir, divertir? A outra é saber se ele pode recuperar o rebolado. Está grosso de pernas e pescoço, touro de arena, não dribla curto, às vezes a bola lhe foge, quem diria. Motivação, que é o principal, não lhe falta. Será sua última Copa como jogador e encerrar a carreira como campeão do mundo é o melhor que se pode querer.

Ronaldinho deveria mudar de clube, sair do Flamengo. O desgaste no seu time atual não compensa o que ganha. Uma transferência poderia permitir uma preparação adequada para jogar o Mundial. Quem fala em Seedorf, um grande jogador, como o Fluminense pode pensar em Ronaldinho, ainda mais agora que o Deco dá sinais de boa readaptação.

Em um ambiente de tranquilidade e confiança, Ronaldinho poderá recuperar seu prazer de jogar, voltar a render muito mais e se preparar com vistas à Copa do Mundo.

Vale a pena apostar num jogador de grande categoria que acumulou uma experiência que não se pode dar o luxo de desprezar. Mesmo se não jogar partidas inteiras, será um trunfo imprescindível. É necessária uma liderança de peso capaz de se fazer respeitar por tantas estrelas de egos muitas vezes exaltados.

Voltamos ao dilema. Qual deve ser o papel de um técnico nos dias de hoje? Sabemos que existem os treinadores e os “professores”.

Na construção de um time de futebol, alguns fatores são fundamentais: estratégia, preparação física, talento, estado emocional. Parece simples, óbvio mesmo, mas acontece que eles têm uma ordem de importância e estão embaralhados.

A preparação física é vital, mas continua secundária. Treina-se um jogador para disputar uma partida de futebol, não provas de velocidade, força, resistência etc. Os dois jogadores mais fortes que vi jogar, fora os brutamontes de agora e dos tempos de futebol-força (lembram?), foram Pelé e Garrincha. Garrincha, que nunca entrou numa academia, tinha pernas que eram verdadeiros troncos de árvore.

No time do Olaria, montado de modo artesanal pelo Jair da Rosa Pinto, o meio de campo era Roberto Pinto, Fernando Pirulito e eu. Juntos, não pesávamos 100 quilos, mas escondíamos a bola.

O maior ídolo esportivo dos anos 1990 foi o jogador de basquete norte-americano Michael Jordan. No meio daqueles gigantes, era esguio, elegante, o melhor de todos. No nosso time ainda há lugar para os geniais Garrincha, Puskas, Tostão, Maradona, que num par ou ímpar de pelada seriam os últimos a ser escolhidos.

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