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Entrevista - Vinícius Lages

"Copa é oportunidade única para o turismo"

por Rodrigo Martins publicado 16/04/2014 05h02
Para o ministro do Turismo, problemas na infraestrutura não vão afetar a realização do mundial
Divulgação
Vinícius Lages

Para Lages, não vão faltar vagas em hoteis durante o mundial

A dois meses da Copa, o governo federal reconhece que parte das obras de mobilidade urbana não ficarão prontas a tempo do evento. É o caso do VLT de Cuiabá, previsto agora para 2015, e uma das linhas de BRT de Fortaleza, com menos de 10% das obras concluídas. O atraso no aeroporto de Confins, em Minas Gerais, é mais um foco de apreensão. Alguns voos da Copa deverão seguir para Pampulha. Mas o aeroporto alternativo não resistiu ao temporal que castigou Belo Horizonte no início do mês, e teve o seu saguão inundado pelas águas da chuva.

O ministro do Turismo, Vinícius Lages, minimiza, porém, os gargalos na mobilidade e na infraestrutura aeroportuária. “O carnaval mobiliza uma quantidade maior de turistas do que a Copa. Mesmo com algumas obras inconclusas, faremos uma grande festa”. Além dos 600 mil turistas estrangeiros esperados para o evento, Lages prevê a ampliação do número de visitantes anuais do País para 7,9 milhões até 2016. Atualmente, são cerca de 6 milhões por ano. “A Copa mobiliza mais de 2 bilhões de telespectadores espalhados pelo mundo. É uma oportunidade única de consolidar o Brasil como um destino internacional”.

Confira, a seguir, os principais trechos da entrevista concedida a CartaCapital.

CartaCapital: Qual é a importância de sediar uma Copa do Mundo para o turismo nacional?

Vinícius Lages: É uma oportunidade única. A Copa mobiliza torcedores de todo mundo. Durante os jogos, há ao menos 2 bilhões de telespectadores. É uma publicidade gratuita em escala global. Além disso, a Copa de 2014 e as Olimpíadas de 2016 permitiram que o turismo entrasse em agendas importantes da infraestrutura. O turismo passou a receber recursos do PAC e vai se beneficiar dos equipamentos que estão em construção, dos projetos de mobilidade, dos portos e aeroportos. Foi possível mobilizar o setor privado para investir na área de hospedagem, melhorando a oferta. Houve investimentos de qualificação profissional. Até porque a Copa é muito efêmera, concentra-se num período de 40 dias. É evidente que haverá muita gente que se beneficiará nesse período, como bares, restaurantes e hotéis. O mais importante, contudo, é sair da Copa mais qualificado para receber grandes eventos e um número cada vez maior de turistas.

CC: Houve, de fato, expansão da oferta hotelaria? Normalmente, a decisão de construir um hotel envolve um planejamento de longo prazo. Parece pouco provável que uma empresa faria esse tipo de investimento pensando apenas nos 40 dias da Copa.

VL: O Brasil já vem melhorando sua posição no ranking de eventos internacionais. No ano passado, por exemplo, o circuito de Interlagos, em São Paulo, foi eleito o melhor da Fórmula 1. O prêmio foi entregue por Bernie Ecclestone, da Federação Internacional de Automoblismo. Isso prova que temos competência para realizar eventos de grande porte, assim como ocorreu na Jornada Mundial da Juventude, com a visita do papa Bento XVI ao Brasil. Também temos o carnaval e as festas regionais, como a de São João, que mobilizam grande número de turistas. Por isso houve, sim, muitos investimentos privados. Rio de Janeiro e Recife, por exemplo, já tinham uma taxa de ocupação dos hotéis muito elevada. Precisavam aumentar a oferta. Não é apenas para a Copa, mas para atender o crescente número de turistas que visitam essas cidades nas mais variadas datas.

CC: Haverá vagas suficientes durante a Copa?

VL: Sim, claro. Havia muita dúvida, na verdade, se haveria vagas suficientes na categoria econômica, com um preço mais acessível. E o Ministério do Turismo tomou a iniciativa de mapear as hospedagens alternativas nas 12 cidades-sede. Identificamos quase 60 mil leitos em hostels, casas, aluguel de quartos, bed and breakfast (cama e café). Então, até mesmo essa oferta foi contemplada. De modo geral, o setor hoteleiro já vem se preparando há muito tempo, e não só para a Copa. Nunca houve um número tão grande de brasileiros viajando pelo País como agora, fruto da emergência dessa nova classe média. Também temos levas expressivas de turistas europeus, mexicanos, canadenses, americanos... Mas podemos receber bem mais.

CC: A expectativa é ampliar em quanto o número de turistas estrangeiros no Brasil?

VL: Hoje, temos perto de 6 milhões de turistas ao ano. A expectativa é chegar a 7,9 milhões até 2016. Mas não queremos apenas ampliar a oferta. É preciso qualificar os serviços, melhorar os equipamentos de turismo, investir nos parques, aprimorar a qualificação profissional. O Fórum Econômico Mundial coloca o patrimônio natural como um dos principais atrativos do Brasil. No entanto, ainda temos uma infraestrutura insuficiente. Ninguém vai visitar a Amazônia, o Pantanal, o Jalapão, se não houver um bom hotel para ficar hospedado, um parque com instalações adequadas, com trilha, com guias. Precisamos ter os serviços turísticos organizados e disponíveis na prateleira, transformar essa vantagem comparativa que temos, no caso as belas paisagens, em vantagens competitivas, pacotes de turismo que geram renda.

CC: Preocupa o fato de parte das obras de mobilidade ou de infraestrutura aeroportuária não ficarem prontas a tempo da Copa? Vários projetos estão atrasados, outros foram retirados da Matriz de Responsabilidades. Não é um risco receber um evento desse porte sem estar com todas as obras previstas concluídas?

VL: Temos condições de receber muito bem todos os torcedores. O carnaval mobiliza uma quantidade maior de turistas do que a Copa. É verdade que há um aumento do fluxo num período que não estamos acostumados habitualmente, mas isso não chega a ser um problema. Em Natal, por exemplo, nem todas as obras de mobilidade ficarão prontas. Mas vários trechos, como o acesso ao aeroporto, estarão. Mesmo com algumas obras inconclusas, faremos uma grande festa.

CC: Ajuda o fato de ser decretado feriado em dias de jogos?

VL: Sim, sim. O conjunto de medidas planejadas pelas prefeituras e pelos governos estaduais, em articulação com o governo federal, vão compensar alguns gargalos que poderiam existir. Qualquer país do mundo tomaria medidas como essa, caso fosse necessário. E elas vão evitar problemas que poderiam ocorrer em dias de pleno funcionamento. Uma cidade como São Paulo, por exemplo, tem muitos eventos nessa época do ano, mas fez ajustes para acolher a Copa. Não há nada de errado nisso.

CC: A rede hoteleira de São Paulo chegou a se queixar, pois teria uma taxa de ocupação maior com turismo de negócios.

VL: São Paulo tem uma Copa por mês (risos). É uma coisa realmente impressionante. A cidade já tem uma movimentação do tamanho de uma Copa habitualmente. Mas estamos atentos, acompanhando tudo de perto. Tem questões relacionadas aos aeroportos, aos portos, chegarão grandes levas de turistas de navio. Também tem a questão do abastecimento. Não posso dizer que este não é um assunto que preocupa. Preocupa, sim. Mas estamos tomando todas as medidas necessárias, correndo atrás para finalizar todas as obras e projetos, como os mais de 160 mil profissionais qualificados pelo programa Pronatec.

CC: Há uma grande preocupação dos grupos de direitos humanos com o turismo sexual e a exploração de crianças e adolescentes. Como o governo se preparou para prevenir esse tipo de crime durante a Copa?

VL: A violência contra a criança e o adolescente é crime. Não aceito dizer que isso é uma modalidade de turismo. É crime previsto no Código Penal. Quem for pego terá de prestar contas à Justiça. O que fizemos? Em articulação com a Secretaria de Direitos Humanos, com o Ministério da Justiça, com os conselhos tutelares, montamos uma ação articulada, com campanhas, cartilhas de esclarecimento à população, capacitação dos profissionais que lidam com turistas. Engajamos aos donos e funcionários de bares, restaurantes e hotéis nessas campanhas, não apenas para que cumpram a lei, recusando, por exemplo, a hospedagem de crianças sem autorização dos pais, mas também para denunciar. Criamos o Disque 100, que hoje tem uma média de 300 denúncias por dia, aumentou muito nos últimos anos.

CC: E isso é bom?

VL: Ao contrário do que possa parecer, sim. Temos mais denúncias agora porque antes havia uma grave subnotificação. As pessoas viam esse tipo de crime ocorrer, mas permaneciam caladas. Agora, não. Os conselhos tutelares estão preparados para acolher e amparar os vitimados. Há campanhas mais incisivas em áreas de vulnerabilidade. A sociedade brasileira não tolera esse tipo de violência. E o alerta é bastante grande, não apenas para proteger nossas crianças, mas também porque isso realmente pode causar um dano à imagem do Brasil como um destino turístico para a família, para quem não compactua com esse tipo de crime.

CC: De acordo com a Fipe, a Copa das Confederações movimentou 20,7 bilhões de reais, dos quais 9,7 bilhões foram ao PIB em 2013. Para a Copa do Mundo, a perspectiva é de um retorno três vezes maior. No entanto, o Datafolha aferiu que 55% da população acredita que a Copa trará mais prejuízos que benefícios. Como o senhor interpreta esse fenômeno? Será possível reverter essa percepção negativa da população?

VL: As críticas sobre o elevado gasto público e as obras inacabadas tiveram uma superexposição na mídia, o que influencia na percepção negativa da população em relação à Copa. Uma pesquisa feita nesse momento pode captar uma avaliação distorcida. Diferentemente dos anos 1970, quando tínhamos 90 milhões em ação cantando “Pra frente, Brasil”, a sociedade hoje é muito mais complexa e pode, entre os 200 milhões de habitantes, ter muita gente que não gosta de Copa, não gosta de futebol, não gosta de carnaval, enfim, que não concorda.

CC: Até porque, nos anos 1970, vivíamos numa ditadura. Ninguém podia se opor abertamente aos projetos do governo.

VL: Sim, é verdade. Eram 90 milhões juntos e quietinhos. É natural, hoje, haver discordância, dissenso. Mas eu realmente acredito que, durante a Copa ou um pouco depois do evento, a população vai perceber os benefícios. A Copa gera emprego, vai trazer mais empresas capacitadas, atrair investimentos, gerar renda. O povo brasileiro sabe acolher, gosta de festa, adora futebol. As pesquisas vão mostrar esses benefícios. E eu acredito que essa percepção negativa será revertida. Vamos mostrar que a Copa é boa para o País e será ainda melhor para o nosso futuro.

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