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Brasileiros e argentinos se irmanaram no Maracanã

por Samantha Maia — publicado 15/07/2014 18h49
Na final do Mundial, a repórter Samantha Maia relata a rivalidade das torcidas daqui e de lá
Fernando Pereira/SECOM SP
Torcida do Brasil vira alemã contra a Argentina

Torcida do Brasil vira alemã contra a Argentina

O acesso ao Maracanã era tranquilo no domingo de sol em que a final da Copa do Mundo de 2014 seria decidida entre a Alemanha e a Argentina. O bloqueio no bairro da Tijuca começou no sábado à noite com um policiamento ostensivo. As ruas enfeitadas com fitilhos verdes e amarelos e as bandeiras brasileiras penduradas nas janelas das casas davam um ar nostálgico a uma Copa que para o Brasil havia terminado. Foram dez gols sofridos pela Seleção nos dois últimos jogos. Na semifinal, sete bolas da Alemanha na rede ficarão na história.

Era preciso passar por três barreiras policiais até a entrada do estádio, onde eram checados os ingressos e feitas as primeiras revistas. Os torcedores chegavam aos poucos, em sua maioria brasileiros, na partida de 75 mil espectadores. A Argentina perderia o título no gramado para a implacável Alemanha, mas nas arquibancadas, o jogo era contra o Brasil. “Por que os brasileiros torcem pela Alemanha, se perderam de sete para eles?”, perguntava uma incrédula argentina.

Os hermanos precisavam responder antes porque torciam contra o Brasil se o adversário em campo era outro. A mídia argentina também não poupou críticas aos anfitriões. O jornal esportivo Olé desancou a comemoração brasileira à vitória alemã. “Vestir a camiseta só para torcer pelo rival da Argentina, não devem ter noção de dignidade."

No lado da arquibancada ocupada pelos argentinos, o coro entoado era por uma vitória em solo brasileiro. Em uma música preparada especialmente para esta Copa e cantada à exaustão no estádio, os argentinos eram o “papá” que chegava em casa e sentenciava que o Brasil chorava desde 1990 a derrota para a sua seleção em uma oitavas de final.

Na canção, ignoravam a derrota justamente para a Alemanha naquele mundial na Itália, última final da Argentina até então, enquanto a Seleção brasileira conquistou mais dois títulos, em 1994 e 2002. Torcedores do azul e branco aludiam à goleada da Alemanha sobre o Brasil e enalteciam o adversário em campo.

Os brasileiros não deixavam por menos. Cantavam os mil gols de Pelé e xingavam Maradona. Apesar das provocações, o clima de festa predominava. Fora das arquibancadas, os ânimos se acalmavam. Filas para comprar bebidas e comidas, e mais filas nos banheiros. Mas nada fugiu à organização. O ambiente era limpo. Máquinas fotográficas e celulares sempre a postos registravam as manifestações mais empolgadas das torcidas, além dos milhares de selfies a todo o momento.

O show de encerramento estrelado por Carlinhos Brown, Shakira, Santana, Alexandre Pires, Ivete Sangalo, Wyclef Jean e pela bateria da escola de samba Acadêmicos do Grande Rio durou 20 minutos. O estádio ainda não estava lotado. Até então escondido pela organização do evento, o mascote Fuleco teve algum destaque ao lado da cantora baiana. A torcida queria jogo.

Os espectadores argentinos faziam barulho e agitavam ao alto a camisa azul e branca. Os alemães estavam do lado oposto do campo com manifestação mais contida. Os brasileiros cantavam contra a Argentina e em ao menos um momento durante a partida a vaia à presidenta Dilma Rousseff ganhou força, com a mesma deselegância demonstrada no jogo de abertura no Itaquerão.

Aos 30 minutos do primeiro tempo, o gol de Higuain agitou os torcedores por alguns segundo antes de perceber a anulação por impedimento. Impropérios foram lançados contra o juiz. A partida acirrada em campo refletia nas arquibancadas, e brigas entre argentinos e brasileiros pipocavam em meio a provocações. Insultado, um flamenguista partiu para cima de um argentino e acabou golpeado pelas costas por outro estrangeiro.

Os poucos alemães presentes naquele espaço pareciam alheios à confusão, à exceção de um que apanhou de três adversários depois do gol no fim do segundo tempo da prorrogação. Um argentino corpulento, de cabelo comprido, jurava um brasileiro de morte. Copos voavam, empurra-empurra, e os seguranças apareciam para retirar os mais exaltados. Não havia mais esperança para a Argentina e a torcida se calou. Pouco tempo restou até o juiz encerrar o jogo.

Uma longa estrada aguardava os argentinos na volta triste de “papá” para a casa, mas muitos cantaram ao fim como reconhecimento à sua seleção. A Alemanha consagrou uma campanha vitoriosa. Na hora da entrega da taça, os brasileiros quase mancharam a comemoração com novos xingamentos à presidenta. Mas os fogos explodiram, o som da música subiu, e o barulho abafou a desfeita. Os jogadores alemães encerravam as comemorações em campo, enquanto um torcedor argentino permanecia ancorado no muro de proteção a chorar.

Na Copa de 2014, o Brasil e a Argentina se irmanaram no Maracanazo.