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Contrastes

por Socrates — publicado 27/07/2010 12h23, última modificação 27/07/2010 12h23
No Brasil, ou mergulhamos sem avaliar os riscos no oceano do amor cego e destemperado ou assumimos uma postura exclusivamente negativista

No Brasil, ou mergulhamos sem avaliar os riscos no oceano do amor cego e destemperado ou assumimos uma postura exclusivamente negativista, minimizando o futebol em sua importância cultural
Neste momento em que se encerra mais um Mundial de Futebol, é interessante voltar a discutir esse esporte por sua importância estética, social, política e tudo o mais que diz respeito às organizações e agrupamentos humanos. Sim, pois é neste megaevento que suas características se manifestam com toda intensidade.

Basta ler as análises extraordinariamente interessantes de José Miguel Wisnik, em Veneno Remédio, um livro imperdível, em que o futebol envolve uma exagerada espetacularização e o endeusamento de suas estrelas como paradigmas do consumismo. E de certa forma suporta o que de mais alienante e manipulador existe na sociedade contemporânea — além de uma excepcional dose de autenticidade, paixão e liberdade, popular e real.

No Brasil, essa dicotomia toma ares de verdadeira obsessão, na qual percebemos uma imensa incapacidade de carrear- simultaneamente paixão e crítica. Ou mergulhamos sem avaliar os riscos no oceano do amor cego e destemperado ou assumimos uma postura exclusivamente negativista, minimizando o futebol em sua importância cultural. Isso ficou claro na incompreensível disputa e nos sérios conflitos entre o treinador e a imprensa durante toda a permanência da Seleção em solo africano.

De um lado, a visão crítica, ainda que muitas vezes manipulada para dar respaldo à organização, mas agredida no supremo direito de informar seu público, e, do outro, uma personalidade irascível e sensível, estimulando o confronto, defendendo causas que, se por acaso foram de certa forma abraçadas quatro anos antes, acabaram por se tornar ultrapassadas pela forma como foram tratadas pelos próprios gestores nos últimos tempos.
Ou seja, de um lado a crítica e do outro a paixão, que nesta metáfora apequenada da sociedade se manifesta na incapacidade de lidar com o contraponto, com a discórdia, enquanto essa não se aproxima do bem-estar.

O embate também nos mostra em toda sua plenitude a realidade conflituosa exposta no futebol, no qual coletivo e individual, pragmático e liberto, alegre e trágico se alternam em um eterno redemoinho que parece nunca acabar. Que leva uma nação pouco habituada ao nacionalismo a estender suas bandeiras a cada quatro anos, como se dela fosse íntimo ou amante.

A mesma torcida que imediatamente após os jogos descarta a bandeira verde e amarela como pano de fundo de uma frustração sem-fim, renegando até a associação de suas cores mais características, como se as mesmas representassem apenas uma região do País distante daquele em que vive e habita, sofre e cora, chora e resmunga. Que enche os bares da vida com o sorriso contagiante característico e que os faz desertos somente porque não conseguimos derrotar um adversário, por melhor que consigamos demonstrar a nossa excelência. Que defende a arte do jogador brasileiro, mas que entende o conservadorismo de jogar pelo resultado, mesmo que abra mão da forma como se vê, se sente e de como é. Afinal, a contradição também faz parte do nosso ser brasileiro.

Voltemos ao consumismo desenfreado, estratosfericamente manipulado nesta Copa do Mundo, ainda que na África, preta, pobre, desprovida de respeito e tradição, por não ser nada mais que um submundo, mas que no futebol podemos considerar como continente emergente e que talvez um dia não muito distante seja participante errático dos que poderiam pleitear o título desta competição, porém só dela, já que o atraso que lhe foi imposto custará séculos de resgate em outras áreas mais nobres e necessárias.
Distorção que também nós, brasileiros, apresentamos, já que representamos o grande império do meio do futebol, exportando gente não só para a Europa – Espanha, Inglaterra, Alemanha e Itália –, como também para os povos mais simples e escondidos do planeta futebol.

Parafraseando o britânico, podeos dizer que no império futebolístico brasileiro “o sol também nunca se põe”. Pois é contrabalançando o grande mercado que se tornou o futebol, voltado para o consumo de massa de todos os coadjuvantes do espetáculo ou que estão no entorno dele, que podemos entender que o ritual, o espetáculo, a dramaticidade, as habilidades estéticas, o coletivismo e a socialização podem perfeitamente fazer repensar quais-quer excrescências sociais.

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