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Com padrão de consumo mais alto, brasileiras adiam maternidade

por Clara Roman — publicado 17/11/2011 18h18, última modificação 17/11/2011 18h20
Último Censo constatou que pela primeira vez mulheres estão tendo filhos mais tarde. Para pesquisadora, uma consequência de um alto padrão de consumo
7 bilhões. Que a geração deste bebê brasileiro nascido, entre tantos, em 31 de outubro seja mais consciente. Por Yasuyoshi Chiba/AFP

Último Censo constatou que pela primeira vez mulheres estão tendo filhos mais tarde. Para pesquisadora, uma consequência de um alto padrão de consumo . Foto: Por Yasuyoshi Chiba/AFP

Confirmando o que já era esperado pelos pesquisadores, o Censo 2010 sobre população, divulgado ontem pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostra que as mulheres estão tendo filhos cada vez mais tarde e que a taxa de fecundidade brasileira decresceu ainda mais. Para Maria Coleta Oliveira, do Departamento de Demografia da Unicamp, os dados refletem que, impulsionada pelo alto padrão de consumo, a mãe de família também tenha que trabalhar para o sustento do lar.

A taxa de fecundidade caiu 21,9%, da média de 2,38 para 1, 86 filhos por mulher. Ao mesmo tempo, as mulheres acima de 30 anos tiveram um aumento na participação no número de filhos de 27,6% em 2000 para 31,3% em 2010. As faixas mais jovens ainda concentram a natalidade, mas houve uma redução no total. Os grupos de 15 a 19 anos e de 20 a 24 anos de idade, que concentravam 18,8% e 29,3% da fecundidade total em 2000, respectivamente, passaram a concentrar 17,7% e 27,0% em 2010.

A queda na fecundidade ocorre desde os anos 70, consequência do uso de pílulas e outros métodos anticoncepcionais pelas brasileiras, mas o envelhecimento das mães é novidade. A explicação, segundo a pesquisadora, é que a família brasileira precisa hoje do trabalho da mulher.  “São alternativas de vida que competem entre si”, diz a pesquisadora. A mulher adia a decisão de ter filhos para poder se desenvolver profissionalmente e reduziu a quantidade, tendo em vista o custo de sustentar uma criança. "A classe média não mantem seu padrão de consumo com um só salário - é uma sociedade muito consumista", afirma a pesquisadora.

O mesmo fenômeno de atraso e redução da fecundidade atinge tanto a classe média quanto o que ela chama de “elite da classe trabalhadora”. A classe C, denominada de nova classe média e que atingiu padrões de consumo superiores nos últimos anos com o crescimento do salário mínimo, também sofre com a pressão do consumo. Assim, o salário feminino nas casas é essencial para o sustento das famílias e as mulheres optam por ter menos filhos. A pressão é ainda maior devido ao que Coleta chama de “consumo reprimido”, ou seja, como muitas vezes é a primeira vez que essa população tem acesso a certos produtos (como computadores e TV LCD), o desejo de compra é ainda maior do que na classe média tradicional.

A faixa entre 25 e 19 anos continua tendo um percentual alto de fecundidade, de 17,7%. Ainda há segundo ela, uma diferenciação social. A mulher de classes baixas termina seus estudos mais cedo e, com menos oportunidades, tem filhos antes.

Não são apenas fatores econômicos que explicam essa mudança. Há um perfil diferente de mulher. “Para quase nenhuma mulher hoje no Brasil ter filhos é um destino. Isso faz parte: você tem filhos se você quiser”, diz, uma consequência direta dos anticoncepcionais e métodos abortivos mais seguros. Entre eles, a ingestão do remédio para úlcera misosprostol, vendido no mercado negro e artifício utilizado por grávidas que querem interromper a gestação e com baixo risco de morte se utilizado corretamente.

Cuidar do lar no tempo livre

Coleta aponta para a “rigidez de gênero”. Ou seja, ainda que as mulheres tenham se inserido no mercado de trabalho, culturalmente, cabe a elas uma maior responsabilidade no cuidado da casa e dos fihos. Para o homem, a pressão maior é no trabalho, onde são submetidos com maior frequência a fzer horas extras. “As mulheres sabem o que as aguarda em casa”, diz.

Em suas pesquisas, Coleta constatou que uma das reclamações frequentes das mulheres é de que seus maridos utilizam o tempo vago para ir ao bar com amigos, enquanto elas voltam para casa com o intuito de cuidar do lar. Em todas as classes sociais, as mulheres sofrem com a falta de tempo livre.

Sobre o futuro do país com esse novo perfil populacional, Coleta destacou que as famílias menores sofrerão mais com a pressão de cuidar dos idosos. Se o Estado não oferecer auxílio para uma população cada vez mais velha, caberá aos poucos filhos cuidar dos pais na terceira idade.

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