Você está aqui: Página Inicial / Sociedade / Coisas de velho

Sociedade

Crônica

Coisas de velho

por Redação Carta Capital — publicado 02/02/2012 11h23, última modificação 02/02/2012 11h29
Você sabe que ficou velho quando sai com guarda-chuva mesmo com sol, escreve Alberto Villas. Saiba quais são os outros sintomas da velhice
velhice

'Você pode se considerar velho quando começa a se irritar quando alguém chama terceira idade de melhor idade'. Kevin Dooley/Flickr

Por Alberto Villas

 

Quando eu tinha dez anos, velho para mim era quem tinha uns 25. Mulher então aos 25 anos já era uma solteirona ficando pra tia, já criando gatos ou pensando em ser freira. O tempo passa, o tempo voa e a gente vai refazendo as contas. Quando chegamos aos 30, velho é quem tem 50 ou mais. Aos 60, considero velho só quem já passou dos 80. E, acredito eu, quem tem 80 deve achar velho, velho mesmo, o Oscar Niemeyer, a Dona Canô e a Tomie Ohtake.

Mas, pensando bem, quando a gente atinge os 60 anos de idade, começa a apresentar uns sintomas de velhice sim. Não é que outro dia eu me peguei apagando todas as luzes da casa, resmungando que eu não era sócio da Light, igualzinho ao meu pai que apagava e resmungava, isso lá pelos anos 50?

 

Velho gosta de fazer listas. Mesmo não tendo praticamente nada para fazer durante o dia, ele tem sua lista de afazeres. Lista os horários dos remédios que tem de tomar, as contas que tem de pagar, as datas dos aniversários dos amigos, lista os telefonemas que precisa dar. Sendo assim, fiz a minha lista dos primeiros sintomas da velhice. Vamos lá!

Você pode se considerar velho quando começa a sair de casa com um guarda-chuva debaixo do braço, mesmo que a Meteorologia anuncie sol para o dia inteiro.

 

Quando insiste em chamar o condicionador de creme rinse.

Quando decide abandonar todos os botões do controle remoto, achando que importante mesmo é só o que liga e o que desliga.

Quando entra de óculos no chuveiro para tomar banho.

Quando coloca no celular o número do urologista, do cardiologista, do dermatologista, do geriatra, sem contar todos os números dos hospitais e emergências: Polícia, Samu, Bombeiro, Eletropaulo, Comgás e por aí vai.

Leia tamvém:

Quando vê um bebum na rua e diz que ele está pinguço.

Quando chega a um laboratório de exames e escolhe apenas alguns folhetos para levar para casa: Osteoporose, AVC, Próstata, Insônia, Alzheimer.

Quando deixa um talão de cheques inteirinho assinado para alguma emergência.

Quando vai direto ao obituário dos jornais ver quem morreu e fica aliviado quando fica sabendo que fulano morreu aos 96 anos e beltrano aos 89.

Quando insiste em chamar calendário de folhinha.

Quando diz que um aparelho doméstico escangalhou e pessoas ao lado olham assustadas e perguntam: Escangalhou? O que é isso?

Quando rega as plantas nas jardineiras das janelas mesmo nos dias de chuva.

Quando começa a desconfiar que um pé está mais inchado que o outro.

Quando esquece sistematicamente a água fervendo no fogão.

Quando começa a dizer “deixa eu anotar senão eu me esqueço”.

Quando começa a organizar as notas de real na carteira todas de cabeça pra cima e por ordem decrescente.

Quando pega o correio debaixo da porta e ainda acha que vai chegar uma carta num envelope verde e amarelo pra você.

Quando alguém diz que vai baixar uma música e você, por um segundo, imagina que ele vai apenas diminuir o volume da vitrola. Sim, vitrola.

Quando você, desconfiado, não faz mais depósito em dinheiro num caixa eletrônico.

Quando começa a achar que os anos 80 foram ontem.

Quando pega o saleiro e vacila em colocar mais sal na comida.

Quando começa a se irritar quando alguém chama terceira idade de melhor idade.

Outro dia me vi esfregando com bucha e sabão uma travessa, tentando desesperadamente tirar a pimenta da travessa. Foi quando percebi que a pimenta era um desenho na travessa. Pensei: “Coisa de velho!”

Mas que bobagem. Pensando bem, eu não estou tão velho assim. Nem mesmo o Oscar Niemeyer, a Dona Canô ou a Tomie Ohtake.

registrado em: ,