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Sociedade

Contra a Ditadura

Cláudio Perani, um lutador

por Emiliano José — publicado 01/09/2008 18h00, última modificação 01/09/2010 18h00
Morreu Cláudio Perani. No dia 8 de agosto deste ano de 2008, aos 76 anos. Em Manaus.

Morreu Cláudio Perani. No dia 8 de agosto deste ano de 2008, aos 76 anos. Em Manaus.

Jesuíta. Sacerdote. Um companheiro de luta. Um cristão. Lembro-me de Pedro Tierra falando sobre padre Renzo Rossi, sobre quem escrevi um livro. Dizia o poeta que o cristianismo pode fazer bem ou mal às pessoas – depende de como elas absorvem os fundamentos cristãos – e ademais creio que isso vale para quaisquer religiões. E ele completava dizendo que a Renzo o pensamento de Cristo tinha feito muito bem. Ele tornou-se um amante da humanidade. Um grande amante.

Assim foi com Cláudio Perani. Um amante econômico. Econômico com as palavras. Diferente de Renzo. Que até hoje fala pelos cotovelos. Quem conviveu com Perani, mesmo pouco, como eu, sabia-o parcimonioso com as palavras. Sabia que falar é arriscado. E que o silêncio às vezes é o discurso mais denso.

Talvez isso seja uma característica dos mestres. Falar o necessário. Embora haja, também, mestres que falem muito. Renzo, por exemplo.

Perani foi um apaixonado pelo povo brasileiro. E um entusiasmado adepto da soberania popular, uma espécie de Paulo Freire dos movimentos sociais. Sua história de 55 anos como membro da Companhia de Jesus esteve vinculada à luta pela autonomia do povo.

Vivia agora em Manaus. Coordenava o Serviço de Ação e Reflexão Social.

Fui preso no final de 1970 pela ditadura. Saí no final de 1974, em liberdade condicional. Os meus leitores já sabem disso. Não sabem, no entanto, que eu precisava de um documento empregatício que me, digamos assim, legalizasse perante a Auditoria Militar. Quem resolveu isso foi Perani, dirigente então do Centro de Estudos e Ação Social – CEAS. Solidário, sempre. Com os de baixo, com os pobres. E com os perseguidos pela ditadura militar. Nunca vacilou quanto a isso.

Sempre esteve conosco nos momentos difíceis daqueles anos sombrios. Se não morresse agora, estaria na linha de frente na luta pela punição dos torturadores do período ditatorial – ou contra qualquer tipo de tortura.

Era um ser político, de sólido compromisso político. De um compromisso visceral com a libertação da humanidade. Contra quaisquer tipos de opressão e a favor da afirmação da cidadania.

Constituiu-se numa das principais lideranças do Grupo Moisés, ao lado de extraordinários líderes da Igreja Católica na Bahia, como Dom Timóteo Amoroso Anastácio, Paulo Tonucci, Sérgio Merlini, Andrés Mato e Renzo Rossi, surgido ali pelo início dos anos 70. O grupo foi uma espécie de primeiro passo da Teologia da Libertação na Bahia.

Tinha no beneditino Dom Timóteo o seu profeta, sua estrela mais luminosa. Cláudio Perani e Paulo Tonucci formavam a linha de frente, os que iam para os embates mais frontais. Renzo era uma espécie de mediador. Esta era a divisão de trabalho do Grupo Moisés, embora, pela sólida formação teológica, Perani pudesse ser, também, incluído no time dos profetas.

A calma e serenidade, evidentes em Perani, escondiam uma personalidade ativa, um combatente, um guerrilheiro – a seu modo, evidentemente. O equilíbrio sustentava sua liderança. Não gostava dos flashes, do barulho, do espetáculo. Era um personagem voltado à essência. Quem sabe porque o cristianismo fosse nele algo muito verdadeiro. Amar ao próximo como a si mesmo. E o próximo nem sempre era tão próximo. Ao menos ele não exigia que o próximo fosse cristão.

No dia 17 de agosto de 1979, Theodomiro Romeiro dos Santos, certo de que poderia ser morto logo após a anistia, que não o alcançaria, foge da prisão. Theodomiro Romeiro dos Santos foi o primeiro condenado à morte pela ditadura. Renzo Rossi foi parte essencial da fuga, inclusive no financiamento dela. E Cláudio Perani é uma das pessoas que colaboram para que Theodomiro não seja alcançado pela repressão, ainda ativa obviamente. Parceiro de Renzo na operação, portanto.

Conversa com o bispo de Vitória da Conquista, a 500 quilômetros de Salvador, Dom Climério Almeida de Andrade, e obtém dele a permissão para que Theodomiro seja abrigado no Mosteiro das Monjas Medianeiras.
As monjas reagiram, indignadas – que história é essa de um homem ocupar nossas celas, reservadas exclusivamente às religiosas? Isso é impossível.

D. Climério não vacila: afirma sua autoridade, ordena que ele seja abrigado no mosteiro. Igreja tem dessas coisas: democracia tem limites. O centralismo, quando necessário, é usado sem rodeios. E Dom Climério o fez devido aos pedidos, quase súplicas, de Perani que não admitia pudesse Theodomiro vir a cair novamente nas garras da ditadura.

A situação de segurança no mosteiro em poucos dias se agravou. Não era simples manter o segredo. Era uma situação absolutamente inédita: um homem abrigado numa cela antes reservada exclusivamente às freiras. O comentário se espalhava. Perani entrou em ação novamente.

Procura o bispo de Bom Jesus da Lapa, a mais de 800 quilômetros de Salvador, D. José Nicodemus Grossi, e a diocese de Lapa acolhe Theodomiro. De lá, Theodomiro seguirá para o Rio, no dia 24 de outubro de 1979, depois para Brasília, onde se asila na Nunciatura Apostólica para em seguida ganhar o exílio em Paris. Hoje é juiz do Trabalho em Pernambuco.

A ditadura evidentemente mapeava as atividades de Perani, como de resto de todo o Grupo Moisés. E em 1978, antes, portanto, de todo o seu engajamento na fuga de Theodomiro, Perani, ao regressar de uma viagem à Itália, é preso no Aeroporto Dois de Julho e ordenada sua volta, sem mais discussões. Ele era um incômodo para a ditadura. Só não retornou à sua terra natal por conta de uma intervenção decidida, enérgica do cardeal dom Avelar Brandão Vilela.

Durante os anos da ditadura, o Centro de Estudos e Ação Social, dirigido por Perani, foi palco de reuniões da esquerda baiana. Lembro-me das articulações em favor das candidaturas de Francisco Pinto e Adelmo Oliveira pelo MDB em 1978. E de tantas outras do movimento popular, de moradores de bairro, de trabalhadores rurais. O CEAS constituiu-se num centro articulador dos trabalhadores, particularmente dos posseiros e assalariados agrícolas.

Essa abertura tinha tudo a ver com os compromissos profundos de Perani com a luta do povo para derrotar a ditadura e para garantir a autonomia dos trabalhadores. Homens como ele deixam heranças profundas, marcas dos espíritos humanos solidários, fraternos, aqueles espíritos que nunca se conformam diante das injustiças, que não se dobram diante das tiranias. Dele nos lembraremos sempre com imensa admiração.

* Uma parte dos episódios aqui contados está em livros que escrevi – As asas invisíveis do padre Renzo e Galeria F – Lembranças do Mar Cinzento, parte II, ambos editados pela Casa Amarela.