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Sociedade

Clara Averbuck e Nádia Lapa juntas em novo blog

por Kelly Cristina Spinelli — publicado 25/06/2013 10h07, última modificação 25/06/2013 10h44
"Feminismo pra Quê?" estreia no site de CartaCapital, abordando as mais variadas questões de gênero, indo direto ao ponto
Arquivo Pessoal
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As escritoras Clara Averbuck e Nadia Lapa

Algumas mulheres se tornam feministas porque conhecem suas limitações: querem fazer algo – votar, no século passado, ter direito a abortar, nesse século – e sabem que não podem. Outras se descobrem feministas porque desconhecem essas limitações: dão a cara à tapa agindo como querem sem levar em conta o que é socialmente esperado delas, e perplexas com a reação da sociedade conservadora, se tornam militantes.

Clara Averbuck, de 34 anos, e Nádia Lapa, de 33 anos, são escritoras e espécies de anti-heroínas da internet brasileira. Conquistaram em igual medida admiradores e desafetos ao publicar em seus blogs e livros suas ideias e experiências fora do padrão. Clara nunca teve pudor de descrever em seu blog a vida de rock, bebidas e sexo, além de dar opinião sem rodeios sobre tudo, seja religião, música, aborto, ser mãe ou morar sozinha.

Nádia passou um ano descrevendo no blog suas experiências sexuais, quando se propôs a transar com cem homens diferentes em 365 dias – desistiu da "missão" no meio do caminho, mas provocou uma intensa discussão sobre a liberdade sexual da mulher e virou o livro "Cem Homens em um ano". Nádia, aliás, tem outro livro na agulha, Inquietação, também feminista, que deve ser lançado no começo do ano que vem.

“Nem eu nem a Clara antigamente escrevíamos sobre feminismo, meu blog não nasceu feminista, o considero meu blog pessoal onde eu falo da vida, de depressão, de sexo”, diz Nádia. “Eu era naturalmente feminista, mas não parava para pensar nisso. Me faltava embasamento teórico, contato com as manifestações. O meu blog pessoal me fez pensar que estruturas da sociedade faziam com que eu fosse xingada daquela maneira”. Nádia está, inclusive, fazendo pós-graduação em gênero e sexualidade. No pulso dela, há um ano figura uma tatuagem do movimento feminista.

Clara chegou a "ganhar" um blog criado só para criticá-la, que à época se chamava odeioclaraaverbuck. “Publico desde os 17 anos e desde os 17 anos tenho que lidar com machismo e com ‘ofensas sexistas’ - entre aspas porque não me ofendem em absoluto", diz.

"Quando publiquei meu primeiro livro, Máquina de Pinball, as pessoas me xingavam muito porque concluíam que minha personagem, uma mulher sexualmente livre, era eu, então eu era uma puta. Quer dizer, as pessoas conseguem fazer julgamento moral até de personagem”, diz.

Clara é autora de 5 livros: Máquina de Pinball, Das Coisas Esquecidas Atrás da Estante, Vida de Gato, Nossa Senhora da Pequena Morte e Cidade Grande No Escuro. O primeiro deles, Máquina de Pinball, ganhou adaptação para o teatro, roteirizado por Antônio Abujamra e Alan Castelo, em 2003, e para o cinema: Nome Próprio esteve em cartaz entre 2006 e 2007, com Leandra Leal no papel principal.

Nicole Bahls e estupro

“O machismo está tão entranhado em nossa sociedade que a maioria das pessoas não consegue nem enxergar - mulheres estão incluídas aí”, diz Clara. “Eu sempre fui independente e sempre quis ser 'igual' aos meninos, poder fazer o que eles faziam, não entendia aquela coisa de menina não pode e isso é coisa de menino e nunca aceitei. Depois fui entendendo que a igualdade que eu procurava era outra. Não queria ser igual aos meninos, queria ser livre pra ser a mulher que eu quisesse, do jeito que eu quisesse”.

Nádia recebeu tantos ataques pessoais às suas escolhas sexuais que chegou a considerar desistir de postar. Depois, reuniu seus posts em um livro e criou um tumblr, o Cem Homens Sem Noção onde reproduz as mais bizarras das mensagens que recebeu. Em vez de recuar, ambas se tornaram cada vez mais militantes.

Recentemente, Nádia escreveu sobre a cultura do estupro no país, texto reproduzido no site da CartaCapital, depois de o diretor Gerald Thomas decidir colocar a mão debaixo do vestido de Nicole Balhs, do Pânico. Clara falou do Estatuto do Nascituro, como sempre sem meias palavras, dizendo que “quem se fode” nessa história de dar direitos ao um óvulo fecundado é a mulher. Foi compartilhado à exaustão nas redes sociais. Seu próximo livro, Toureando o Diabo, é “sobre uma moça que sai de um longo relacionamento abusivo, começa a redescobrir e liberdade e o sexo e se depara com o mundo machista travestido de moderninho”.

Juntas, elas agora lançam o blog Feminismo Pra Quê? no site de CartaCapital, em que pretendem centralizar suas opiniões – nem sempre concordantes – sobre as diversas questões feministas com que toparem pelo caminho, em linguagem acessível e sem amarras de qualquer tipo, como é do costume delas.

“Meu blog já tem muitos textos feministas, mas achamos importante ter um espaço voltado apenas para isso”, resume Clara. “As pessoas não sabem direito o que é feminismo, acham uma bobagem ‘agora que temos uma presidente mulher’, acham que não é mais necessário. Acontece que o mundo ainda é extremamente machista e nós queremos falar disso”.