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Chuva para não esquecer

por Carlos Leonam e Ana Maria Badaró — publicado 07/04/2010 17h44, última modificação 20/09/2010 17h48
A chuva dos cariocas deu no New York Times – e em todos os jornais importantes do mundo, é claro. Não será por isso que o amanhecer da terça-feira terá tecido um dia inesquecível. Como aqueles que guardamos nas nossas memórias da infância, mocidade e idade madura. O dia em que o circo pegou fogo em Niterói; que o viaduto em construção na Avenida Paulo de Frontin caiu; que os prédios desabaram em Laranjeiras, soterrando gente da classe média porque... choveu demais no Rio.

A chuva dos cariocas deu no New York Times – e em todos os jornais importantes do mundo, é claro. Não será por isso que o amanhecer da terça-feira terá tecido um dia inesquecível. Como aqueles que guardamos nas nossas memórias da infância, mocidade e idade madura. O dia em que o circo pegou fogo em Niterói; que o viaduto em construção na Avenida Paulo de Frontin caiu; que os prédios desabaram em Laranjeiras, soterrando gente da classe média porque... choveu demais no Rio.

Terça-feira, 6 de abril, será outro dia inesquecível, daqueles que perduram no varal esgarçado da lembrança, cada um a seu jeito - para os que passaram, na rua, a noite e a madrugada seguinte, molhados e com frio; para os que dormiram sob marquises, em carros, ônibus, e na mesa do trabalho; para os que viram seus carros singrando como naus a deriva em oceanos de asfalto; para os que viram a morte de perto e perderam aqueles que a encontram numa inexplicável torrente de água e lama; para quem viu tudo da janela do apartamento e pela TV, achando que, por isso, viu quase nada.

A violência da chuva de segunda-feira pareceu desproporcional até mesmo à violência do calor que tem sufocado o Rio desde novembro ano passado. Desproporcional, mas não estranha. Cariocas se acostumaram, há décadas, a reclamar, sofrer e a sobreviver com um certo comodismo. Abusaram e abusam de um povo que suporta suas perdas como o amante ferido que não pode viver sem o objeto de sua paixão, no caso, a sua Cidade.

Há muito (muito antes desta chuva de abril) que os rios transbordam, os morros derretem, o barro desliza, a lama encobre casas e corpos, as ruas viram corredeiras e a cidade vai ficando ilhada, cercada de lixo e do palavrório inútil, entupidores de bueiros. Por segurança, quase ninguém foi às ruas na terça-feira passada, em que todos se solidarizaram porque a água era muita e a ameaça mútua.

Não se discute que a água foi muita. Mas não se pode negar que os valores são poucos. Desde que se povoou as terras da Guanabara, até chegarmos aos dias de hoje, com os cariocas, apesar desses e de outros pesares, amando sua Cidade Maravilhosa.